segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Sodomia na visão de um santo


"Tal vício busca destruir as muralhas da pátria celeste e tornar redivivos os muros da Sodoma calcinada".

por São Pedro Damião

São Pedro Damião


Nesta obra que tem mais de 900 anos, São Pedro Damião (1007-1075), bispo e doutor da Igreja, pinta em suas verdadeiras cores a face hedionda da Sodomia, chamado pelas Escrituras de ato "abominável" (cf. Lev 18, 22). 

O Liber Gomorrhianus, escrito pelo santo entre 1049 e 1051, nasceu em resposta as graves desordens que se cometiam por usurpadores das sagradas ordens, que se infiltraram outrora, como hoje, entre as fileiras do clero e dos leigos. 

A linguagem severa com que o santo se expressa reflete a gravidade deste ato e dos tempos vividos... Naquele tempo (séc. XI) a devassidão atingia níveis tão alarmantes que o Papa Leão IX (1049-1954) chegou a afirmar: "Mundus totus in maligno positus erat" (Todo o mundo jaz sob o poder do maligno).

Este discurso, realista e severo, contrasta clamorosamente com o silêncio pesaroso, na Igreja dos tempos modernos, sobre o assunto... Ouçamos com atenção a voz deste santo que conhece tão bem a realidade espiritual de que fala.


***

"Este vício não é absolutamente comparável a nenhum outro, porque supera a todos em enormidade. 

Este vício produz, com efeito, a morte dos corpos e a destruíção das almas. Polui a carne, extingue a luz da inteligência, expulsa o Espírito Santo do templo do coração do homem nele introduzindo o diabo que é o instigador da luxúria; conduz ao erro, subtrai totalmente a verdade da alma enganada, prepara armadilhas para os que nele caem; abri-lhes o inferno, fecha-lhes a porta do céu. Torna herdeiros da infernal Babilônia aqueles que eram cidadãos da Jerusalém celeste, transformando-os de estrelas do céu à palhas do fogo eterno, arranca o membro da Igreja e o lança no voraz incêndio da geena ardente.
Tal vício busca destruir as muralhas da pátria celeste e tornar redivivos os muros da Sodoma calcinada. 
Ele, com efeito, viola a temperança, mata a pureza, jugula a castidade, trucida a virgindade, que é irrecuperável, com a espada da mais infame união. 
Tudo infecta, tudo mácula, tudo polui, e tanto quanto está em si, nada deixa puro, nada alheio à imundicie, nada limpo. Para os puros, como diz o apóstolo, tudo é puro, mas para os impuros e infiéis, nada é puro, pois estão contaminados o seu espírito e a sua consciência (cf Tit 1, 15).
Este vício expulsa do coro da assembléia eclesiástica e obriga a unir-se com os energúmenos e com os que trabalham com o diabo, separa a alma de Deus para ligá-la aos demônios.
Essa pestilíssima rainha dos sodomitas torna os que obedecem as leis de sua tirânia torpes aos homens e odiaveis a Deus. Impõe nefanda guerra contra Deus e obriga a alistar-se na milícia dos espíritos malignos; separa do consórcio dos anjos e, privando-a de sua nobreza, impinge à alma infeliz o jugo do seu próprio domínio. Despoja seus sequazes das armas da virtude e os expõe, para que sejam transpassados aos dardos de todos os vícios. Humilha na Igreja, condena no fórum, conspurca secretamente, desonra em público, corrói a cosciência como um verme, queima a carne como fogo.

Arde a mísera carne com o furor da luxúria, treme a fria inteligência com o rancor da suspeita, e no peito do homem infeliz agita-se um caos como que infernal, sendo ele atormentado por tantos aguilhões da consciência quanto é torturado pelos suplícios das penas. Sim, tão logo a venenosíssima serpente tiver cravado os dentes na alma infeliz, imediatamente fica ela privada de sentidos, desprovida de memória, embota-se o gume de sua inteligência, esquece-se de Deus e até de si mesmo.

Com efeito, essa peste destrói os fundamentos da fé, desfibra as forças da esperança, dissipa os vinculos da caridade, aniquila a justíça, solapa a fortaleza, elimina a esperança, embota o gume da prudência.

E que mais direi, uma vez que ela expulsa do templo do coração humano toda força das virtudes e aí introduz, -- como que arrancando as trancas das portas --, toda a barbárie dos vícios! 
Com efeito, aquele a quem essa atrocíssima besta tenha engolido, entre suas faces cruentas, impede-lhe, com o peso de suas correntes, a prática de todas as boas obras, precipitando-a em todos os despenhadeiros de sua péssima maldade. 

Assim, tão logo alguém tenha caído nesse abismo de extrema perdição, torna-se um desterrado da pátria celeste, separa-se do corpo de Cristo, é confundido pela autoridade de toda a Igreja, condenado pelo juízo de todos os Santos Padres, desprezado entre os homens na terra, reprovado pela sociedade dos cidadãos do Céu, cria para si uma terra de ferro e um céu de bronze. De um lado, não consegue levantar-se, agravado que está pelo peso do seu crime; de outro, não consegue mais esconder seu mal no esconderijo da ignorância, não pode ser feliz enquanto vive, nem ter esperança quando morre, porque, agora, é obrigado a sofrer o opróbrio da derrisão dos homens e, depois, o tormento da condenação eterna".





(Migne, Petrus Damiani,
Liber Gomorrhianus, 
c. 16: 1049 ou 1051: 175-177)