domingo, 3 de novembro de 2019

Sermão sobre o fim do mundo. 1 Parte: A destruição da vida espiritual






Por São Vicente Ferrer

Estas palavras são escritas no segundo capítulo de S. Lucas, para falar do fim do mundo e diz duas coisas. A primeira é, que não quero louvar nem repreender os que pregam o fim do mundo, e dizem que será daqui a pouco tempo. A segunda é sobre os que pregam, ou dizem que, o fim do mundo não está tão perto como alguns dizem. A estes não os quero louvar, nem refutar; no entanto, agora, para demonstrar a qual deles quero dar credito, declaro três profecias que estão escritas nos capítulos segundo, terceiro e quarto do Livro de Daniel, dos quais, a primeira fala da queda da vida espiritual, a segunda fala da queda da dignidade eclesiástica e a terceira, da queda da fé católica. E isto, digo, porque o tempo que vires cumprir todas estas três coisas, uma após a outra, podeis conhecer qual dos pregadores é mais verídico.
E como todas as coisas do Antigo Testamento eram ditas através de figuras, alego aqui autoridade a respeito do fim do mundo, falando moralmente. Pois quando vires cumprida a sentença, o entendimento da primeira profecia, então podereis dizer: Vede o estado da vida espiritual posta em ruína, e em destruição”. Isso mesmo se poderá dizer das outras duas. E naquele tempo estará muito perto o fim do mundo.
Digo então, primeiro, que Daniel nos demonstra na primeira profecia a queda da vida espiritual, ao contar no segundo capítulo, que o Rei Nabucodonosor viu em sonhos uma estátua muito grande, a qual tinha a cabeça de ouro puro, os peitos e braços de prata, o ventre e a coxa de bronze, as pernas de ferro, e os pés eram, uma parte de barro, e outra de ferro. Depois viu chegar uma pedra do monte, cortada por mãos não humanas, a qual vindo aos pés da estátua, a reduziu toda a pó.
E o sentido alegórico de tal estaria, nos demonstra o começo do fim da Igreja.

1. A cabeça de ouro: A Igreja no tempo dos apóstolos e mártires

Sua cabeça de ouro puro, é entendida pelo tempo dos apóstolos e dos mártires, que foi o princípio da Igreja: ela era então de ouro puro; quero dizer que a cristandade gozava de perfeita vida espiritual, e estava no ardor da devoção, da caridade soberana; porque assim como o ouro é mais excelente, e excede a todos os outros metais, assim também é a vida espiritual em comparação a todas as outras vidas. Naquele tempo dos apóstolos e mártires, antes de ensinar a falar ao cristão, se ensinava a fazer o sinal da cruz. Benziam-se todos a mesa antes das refeições e todos sabiam o Pater Noster, a Ave Maria e o Credo. Todos os dias oravam de manhã e de tarde, ouvindo Missa antes que fizessem algo de temporal ou de seus negócios. Cada dia, eram constantes, perseverando na fração do pão: quer dizer que tratavam do Sacramento do Altar. Todos os dias queriam ouvir sermões, e nunca se enfadavam, nem cansavam por muito que ouvissem. Sabiam todos, a maneira de confessar seus pecados. Davam aos templos suas oferendas e de cada coisa, davam a décima parte aos sacerdotes; e o que era melhor de seus bens, davam socorro às igrejas.
            Todos se tinham grande amor e caridade; não eram ambiciosos, nem falsos mercadores, nem mentirosos compradores ou vendedores. Uns com os outros eram pacíficos, sem contendas, nem invejas, nem discórdias. Guardavam o matrimônio com grande honestidade. Eram desapegados, fiéis e sinceros. Conheciam as coisas elevadas, crendo nelas com simplicidade e firmeza. Todos os senhores temporais eram muito retos na justiça e cheios de misericórdia.
Os senhores eclesiásticos e bispos eram piedosos. De todas as suas rendas faziam três partes, das quais davam duas às igrejas, hospitais, viúvas, órfãos e pobres. A terceira parte, e menor de todas, retinham para manter suas vidas; e o que dela, ao fim do ano, houvesse sobrado, repartiam entre os pobres. Celebravam cada dia (os divinos mistérios). Casta e santamente viviam, pregando sempre a palavra divina, dando ao povo bons exemplos. Os sacerdotes eram santos, castos, devotos e discretos de conversa honesta; sem avareza, muito dispostos ao bem, com mansidão e humanidade. Os religiosos eram honestos, pobres, obedientes, e de vida santa, tanto que, de mil, apenas de um se falava que quebrasse sua regra.
As Igrejas eram honradas pelo povo, tanto na edificação como em seu cuidado e na devoção. Os oficiais e trabalhadores acreditavam nos artigos de fé, guardavam os mandamentos, assim como os religiosos guardavam suas regras. Tinham o nome de Deus em grande reverência e temor. E assim como era verdadeira a fé, também a vida o era, como ela, com caridade e amor espiritual, e com grande devoção. De tal maneira se mantinha todo o dito, que a cabeça da Igreja era então de ouro puro. E este tempo durou mais de quatrocentos anos.

2. O tronco de prata: o arianismo e as primeiras heresias

Depois, a cristandade desceu de ouro para prata, que vale menos. Os arianos se levantaram então contra a Igreja, dizendo, como hereges, grandes erros e falsas opiniões contra a fé. E de tal maneira foram incitados na heresia que, quase todo o mundo foi corrompido por suas falsidades e seus erros, as quais, não se pode aqui explicar, ou dizer do todo, no entanto, bem aparece às claras nas Escrituras. Por estes hereges, perderam os cristãos a forma de santificar-se e fazer oração; deixaram assim mesmo de ouvir Missa e de comungar. Deixaram de fazer todos os bens; pouco faltou para que não perecesse todo o estado da fé verdadeira, e da vida. Quis Deus, então, enviar os doutores da Igreja, como foram, Santo Agostinho, São Jerônimo, Sto Ambrósio e S. Gregório, e outros muitos homens de ciência e vida: e muitos nobres varões, os quais, mantiveram a fé católica e os mandamentos da lei, das virtudes, dos sacramentos, da vida boa e santa. Estes declaravam e expunham a Sagrada Escritura, disputando contra os hereges; mas a Igreja não pode voltar ao estado primeiro de ouro, de onde era abençoada, mas sob o de prata porque se perdeu o gosto pela devoção. Este prateado, ou idade de prata durou mais de quatrocentos anos.

3. O ventre de bronze: a idade obscura da Igreja e a heresia muçulmana

Até dito tempo, a grande estátua é, a saber, a Igreja e a Cristandade, descia da prata,  para o ventre e pernas de bronze (que vale menos) porque este metal é muito luminoso e fácil de mudar e de som ruim. Assim estava a cristandade, a direita e esquerda entre falsos erros e maus costumes, porque não se pregava a palavra divina.
Foi naquele tempo em que Maomé se levantou e corrompeu toda a Berbéria: já não se queria ouvir Missa se não pela força e ninguém procurava fazer oração: Deus era negado, e o mundo posta em grande maldade. Todos consentiam em cometer delitos e casos muito torpes: a humildade, justiça e misericórdia, já não existiam; não havia fé entre os homens. A piedade, a obediência dos mandamentos, não se conhecia já no mundo como tampouco a vida virtuosa.
Nosso redentor Jesus Cristo quis então destruir o mundo, como se acha na vida dos bem-aventurados São Domingos e São Francisco, onde se escreve que o Onipotente Deus tinha três lanças contra o mundo com grande ira por seus pecados e maldades, as quais demonstravam três coisas:
A primeira é a perseguição do Anticristo.
A segunda o fim do mundo.
A terceira, o dia do juízo.
Nesta grande angústia, alcançou a Virgem Maria, Nossa Senhora, um tempo de proclastinação para que o mundo não se perdesse, e ganhou de seu Filho precioso que esperava as pregações de ditos santos bem-aventurados, para que pregassem por todo o mundo e convertessem os homens a Deus. Este tempo durou tanto quanto seus frades  fizeram  estas duas regras, quer dizer, uns cento e cinquenta anos. As quais, regras morrem agora quanto a sua observância e já tem passado cinquenta anos que os frades não caminham direito; o voto e as cerimônias não são guardadas, porque são piores estes frades que os outros cristãos, vivendo intrinsecamente em meio a soberba, da ira, da preguiça, da simônia; tão cheios de vícios que são exemplos de toda má vida e feitos de todo o caminho para a perdição, pelo que a Igreja tem baixado do ventre de bronze para as pantorrilhas de ferro.

4. As pantorrilhas de ferro: a época de São Vicente Ferrer (1400)

E é o tempo em que estamos agora, porque o ferro é duro, e não se pode dobrar, é tão frio que não se pode jamais modificar, nem corrigir, senão com fogo, e dando-se golpes com o martelo.
No presente é que tem sucedido com a cristandade, quer dizer, que não há ninguém que se emende de seus delitos. Nem os bispos, nem os senhores temporais, nem os religiosos, nem os sacerdotes, nem os que estão em estado conjugal. Não há emenda no ermitão, nem no mercador, nem nas virgens, nem nas viúvas. Tão pouco se acha no lavrador, ou no oficial, ou no escudeiro; pois não se acha a correção dos costumes em nenhum servo, escolar, mestre, discípulo, doutor, legista, banqueiro ou artista.
Não se convertem por pregações, nem por exemplos, nem por milagres. Não tem medo, nem se espantam dos tormentos, nem enfermidades, guerras, fomes, nem mortandade. Não se emendam por inundações ou dilúvios, nem por eclipses, ou obscuridades do sol e da lua ou dos outros planetas; tudo nos parece como escarnio e burla. Estão já tão aborrecidos os cristãos que já nem parecem ser homens, mas demônios.
Todos são muito ásperos uns com os outros; sem piedade; sem bondade, cruéis, trapaceiros, raivosos sem lugar a bem algum. Muito endurecidos, sem devoção, e amantes do mundo, sem temor a Deus; são depreciadores do Rei do Céu, sem amor algum, pelo qual são mais duros e ásperos os cristãos do que o próprio ferro.
Oh, como desceu a estatua e a cristandade em grande perdição ao ferro, do qual David profetizou no Salmo 104 “humiliaverunt in conpedibus pedes eius’, que quer dizer: “Humiliarão os pés nas prisões, os grilhões e o ferro passou a sua alma”, porque, assim como os grilhões impedem o caminhar dos pés corporais, assim os pecados impedem o caminhar da alma (espiritual) direto para Deus, como diz David: “ibunt de virtute in virtutem videbitur Deus deorum in Sion”, que quer dizer: “Irão de virtude em virtude, e será visto o Deus dos deus em Sião”. Porque a alma de qualquer discreto cristão deve andar com dois pés aquejada de virtude em virtude. O pé direito é o amor celestial; e o esquerdo é o temor infernal. E quando o diabo tenta de algum pecado, deve pensar o homem como as penas do inferno são destinadas para o triste que consente na má tentação, e põe por obra o delito. E assim pensando, resistirá e lhe defenderá das tentações.
E pelos dois pés, de amor e de temor, poderá sempre andar de virtude em virtude neste mundo, e depois, no outro, chegar ao Deus dos deuses em Sião, onde estão os anjos naquela glória da visão bem-aventurada.
Entretanto, está o que diz David falando acima do tempo moderno, ou presente: “Humilharão seus pés nos ferros e grilhões”, quer dizer: na ociosidade, ou preguiça, porque comumente os grilhões tem dois olhos onde os pés geralmente prendem-se de tal modo que não pode o homem andar livre por aquele embaraço ou impedimento. Assim estes dois pés, amor de Deus e temor do inferno estão já cativos na preguiça e ociosidade, que, por seu impedimento, a alma não pode ir de virtude em virtude. E tão apartados vão dela os homens que apenas se falará já de mil, um que ame a Deus, ou tema o inferno, como se nunca houvesse de morrer. Por isto diz David: “O ferro passa a sua alma”, que quer dizer, a obstinação, por qual nenhum cristão se corrige.
Oh, quanta dureza! Oh, quanta dureza há agora na Igreja de Deus, e na cristandade! Porque agora mal se sabe santificar, e se o fazem, não como devem, e mal. E menos sabem fazer oração, e confessar muito pouco, e tarde, e mal. Muitos poucos ouvem Missa e pregação. Comungar? Nem há lembrança. Os artigos da fé, muitos poucos sabem, e, os que sabem, sabem mal; e muito pior ainda os mandamentos da lei. Muito mal dão suas oblações e sacrifícios ao templo; pior os dízimos. E muito pior se inclinam a perdoar suas injurias, nem a restituir o mal ganho. Estão todos cheios de muita pompa, mentirosos, ladrões, sediciosos, viciosos, avarentos, enganadores e ambiciosos. Os mandamentos da lei não o guardam. São blasfemadores; servem a Deus sem acatamento, com menosprezo, e sem firmeza. Trazem mais escândalos que bom fruto.
Os bispos são vãos, pomposos, simoníacos, avarentos e luxuriosos, os quais tem colocado toda sua fé na medida, e nas coisas terrenas, a qual contrapesam com o que recebem; onde não há rendas, da fé se esquecem, e quando as tem menos se acordam. Não se preocupam com a Igreja; daqueles que mais lhes dão, e daqueles que mais lhes prometem, bem se acordam e tem cuidado. Assim estão todos corrompidos. Estão estes mesmos sem caridade, cheios de gula e muito preguiçosos, que nem celebram, nem ainda pregam, se não que escandalizam. Os senhores temporais estão desnudos de caridade, sem misericórdia, nem piedosos, nem mantem a paz.
Brevemente aqui falando dos religiosos, há poucos neste mundo que guardem suas regras, nem a conservam como deveriam; são muito corruptos e escandalosos; demonstram a via e o caminho da perdição a nossas almas.
Os sacerdotes, o que fazem agora? Mas, valem as honras e dignidade, que os bons costumes; porque são feitos muito ignorantes, presuntuosos, insultadores, idiotas, falsos, hipócritas, depreciadores dos que sabem. Estão cheios de simônia, muito avarentos, cheios de inveja, luxuriosos e muito dissolutos. Estão muito endurecidos e são muito tardios na oração, entretanto, velozes e muito ligeiros para a luxúria. Correm e vão ligeiros para o dinheiro; são cruéis e sem misericórdia. Continuamente vão carregados de armas, mas não levam o breviário.
 

domingo, 27 de outubro de 2019

Um Sínodo para celebrar o paganismo



     

        O Sínodo da Amazônia encerrou-se neste domingo (27) com a consolidação de uma nova doutrina, totalmente estranha ao catolicismo: "A ecologia integral". No penultimo dia do Sínodo, o Papa Francisco realizou um simbólico pedido de desculpas pelo roubo e lançamento no rio Tibre de três imagens de um ídolo pagão que estavam em uma importante Igreja de Roma. Este gesto cheio de simbolismo, só ratificou a percepção clara que ficou deste Sínodo como uma grande celebração do paganismo e o despontar de uma nova Igreja, totalmente estranha à Igreja Católica e alheia a sua doutrina tradicional. 
No documento final do Sínodo, essa percepção ficou ainda mais clara com o grande alarido ecológico em torno da suposta ameaça global  à Amazônia (tão dramática, aos olhos do pontífice, quanto a situação da Igreja na China, Oriente Médio e partes da África, onde a Igreja, há séculos é massacrada) tendo como centro um suposto “desaparecimento do território e seus habitantes” e o chamado a “abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da ‘casa comum’ e a defesa da Amazônia”, e, em seguida, como era esperado, a proposta de “mudanças radicais” para salvá-la. As notas de pseudo-ciência se proliferam pelo documento para corroborar a tese central. Uma delas, no número 2, se apresenta nos seguintes termos: “Está comprovado cientificamente que a desaparição do Bioma Amazônico terá um impacto catastrófico para o conjunto do planeta”. Em partes, terá seus impactos inegáveis, no entanto, não tão catastróficos como se alardeia, como observa o climatologista Ricardo Felício (https://www.youtube.com/watch?v=w-76mhHuRoo)
Houve também uma reafirmação na ideologia do aquecimento global antropogênico, que também, já está amplamente desacreditada. Todavia, a Igreja, ressoa as velhas  propostas de movimentos de esquerda, pela “diminuição de emissão de dióxido de carbono na atmosfera e outros gases relacionados ao efeito estufa” (n. 77).
Sente-se nas entrelinhas uma profissão de fé no credo do “bom sauvage”, além de um claríssimo apelo pagão. Segundo o documento, os povos nativos – incluindo-se, é claro, os povos indígenas mais selvagens – “vivem em harmonia consigo mesmos, com a natureza, com os seres humanos e com o ser supremo, já que há uma intercomunicação entre todo o cosmos, onde não há excludentes, nem excluídos, e onde podemos forjar um projeto de vida plena para todos. Tal compreensão de vida se caracteriza pela conectividade e harmonia de relações entre a água, o território e a natureza, a vida comunitária e a cultura, Deus e as diversas forças espirituais.” O que eles queriam dizer com “diversas forças espirituais?”. Outro trecho que explicita essa perspectiva pagã que orienta o texto se lê no número 14: “A vida das comunidades amazônicas ainda não afetadas pelo influxo da civilização ocidental se reflete na crença e nos ritos sobre o atuar dos espíritos da divindade, chamados de inumeráveis maneiras, com e no território, com e em relação com a natureza”. Em suma, em vez de difundir entre os povos a cultura cristã, há um convite a uma “conversão cultural”. Uma cultura superior deve curvar-se a uma cultura inferior. O Evangelho de Cristo deve cessar sua ação sobre a humanidade para ouvir o paganismo. “O colonialismo é a imposição de determinados modos de viver de uns povos sobre outros, tanto econômica, cultural ou religiosamente. Recusamos uma evangelização de estilo colonialista” (n. 55). A beleza, a arte, a alta-cultura, devem ser colocadas de lado, e em seu lugar, as pobres expressões e criações da cultura indígena, cuja pobreza se deve antes por não haver alcançado um desenvolvimento mais profundo. O índio também deve ter acesso as grandes criações culturas, a elevada erudição que o Ocidente nos legou. Todavia, a esse demonizado colonialismo, que inclui também a evangelização e conversão de povos nativos e a destruição de suas culturas, se deve o poder que hoje Francisco dispõe para falar ao mundo e ser ouvido como inquestionável autoridade religiosa. Sem ele, hoje, a Igreja não teria saído do Cenáculo de Jerusalém. Há um trato sem precedentes ao paganismo em todo documento. Em vez do chamado evangélico a conversão, a Igreja Ecológica de Francisco propõe dialogo e um conhecimento mais profundo dessas tradições. “Estas tradições merecem ser conhecidas, entendidas em suas próprias expressões e em sua relação com o bosque e a mãe terra (...) Para isso, é necessário que as Igrejas da Amazônia desenvolvam iniciativas de encontro, estudo e diálogo com os seguidores destas religiões”. Note-se que o convite a convertê-los está totalmente fora de cogitação nesta proposta. E lembremos que o maior dever do cristão para com os pagãos é anunciar a eles o Evangelho de Nosso Senhor, e leva-los à obediência da fé (cf. Rom 1, 5). Os pentecostais, a seu modo estão fazendo isso, e sendo muito mais bem-sucedidos do que os católicos. O que diria Nosso Senhor que nos apresentou o desejo divino para a humanidade em uma frase tão sucinta como esta “que todos conheçam o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo seu enviado” (cf. Jo 17, 3) Para Francisco e os bispos sinodais, os pagãos já não merecem conhecer o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo. O Documento pós sinodal deixou claro que não. E o que diriam os santos em face de tais absurdos? Eles que sempre conservaram grande horror à heresia e ao paganismo. O patrono da Europa, S. Bento, conforme escreve seu santo biografo, o papa S. Gregório Magno, ao chegar ao monte Cassino, que outrora fora consagrado pelos costumes e ignorância ao oráculo de Apólo, o santo encontrou um bosque dedicado a um ídolo pagão, onde, conforme as palavras do santo biografo, “acorria a dementada multidão dos infiéis com sacrílegos sacrifícios. Chegando aí o homem de Deus, derrubou o ídolo, demoliu o altar, pôs fogo ao bosque, e consagrou o templo à honra de S. Martinho e no altar de Apolo estabeleceu o culto a S. João Batista. Depois voltou-se à pregação, levando à verdadeira fé as populações que viviam ao redor". (S. Gregório Magno. Dial. III. 3). Atitude semelhante tivera S. Bonifácio diante de uma sacrílega árvore dedicada ao culto pagão. E quantos homens e mulheres foram martirizados por recusarem-se a prestar reverência a deuses pagãos. Quão distante estão estes santos da Igreja ecológica de Francisco. Uma Igreja que combateu com denodo o avanço de tantas heresias e do paganismo, simplesmente, deu lugar a uma Igreja que passou a tolerá-los e até a abraçá-los. como se seus erros não custassem a salvação de muitos. Papas convocaram cruzadas contra hereges e pagãos, foram implacáveis em seus escritos contra qualquer erro que se apresentasse ao horizonte dos fiéis; percorreram os mais tenebrosos mares para converter a verdadeira fé os homens de regiões mais longínquas, para em pleno século XXI todo o seu sacrifício ser lançado no lixo em nome do mero diálogo. 

S. Bonifácio levando ao chão árvore dedicada ao culto pagão


O que diria toda a tradição que há dois milênios ecoa em uníssono o mesmo brado, que fora tão enfaticamente condensado por Pio XI nestas palavras: “Não é lícito promover a unidade dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente eles se separaram" (Mortalium Animos, n. 16), e que fora belamente sacralizado em um dos dogmas mais desagradáveis para a turba ecumenista, conforme a famosa formula de S. Cipriano: Extra Ecclesiam nulla salus (Fora da Igreja não há salvação) (cf. De Unit. Eccl. Cath. 6, 3) Não há muito o que se dizer sobre este Sínodo, tudo o que ele prega já está condenado de antemão por miríades de santos, pelas páginas das Sagradas Escrituras e de um magistério vastíssimo. Onde ficaria o maior de todos os mandamentos, que nos ordena junto com a obrigação de amar a Deus acima de todas as coisas, o intimato: "não terás outros deuses diante de mim". 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O dia em que o Menino Jesus venceu a doutrinação comunista: A extraordinária aparição do Menino Jesus na Hungria


Professora e Alunos em Escola de Budapeste (Hungria) da Época das aparições


Uma das primeiras medidas que um país sofre ao ser dominado pelo comunismo é a implantação do ateísmo institucional e a perseguição à religião. Na Hungria, país de tradição católica vigorosa, essa medida foi levada aos extremos quando o comunismo dominou o Estado. Um currículo ateu fora implantado nas escolas, e as grandes festas cristãs foram abolidas. 

A poucos meses do Natal, em 1956, os católicos húngaros viviam na expectativa assombrosa de mais um ano "sem celebrar o nascimento do Rei dos Reis". Aquele estado de coisas não seria facilmente digerido por aquele povo. Mas, a Divina Providência preparava um evento extraordinário para aquele ano, que o tornaria um dos mais memoráveis da história húngara.

Em uma escola para moças de Budapeste, uma professora chamada Gertrudes -- destacada pela fidelidade aos princípios do Partido e o ódio descomunal ao cristianismo -- doutrinava intensamente suas alunas. Era uma como as demais, que tinham como missão suprema, roubar a fé católica de suas pupilas. Porém, paradoxalmente, na sala de Gertrudes, havia um elemento paradoxal. Sua aluna mais dedicada e inteligente era exatamente a  mais fervorosa da escola. A referida moça, que tinha seis anos na época, chegara a fazer uma petição a seu pároco, Fr. Norbert, para receber a comunhão diariamente, e assim, melhor enfrentar os ataques que sofria na escola sob o comando impiedoso de sua professora. Fr. Norbert, após alguma resistência, acabou cedendo aos desejos da mocinha. 

Após alguns dias de comunhão diária, a professora notou que havia uma chama de devoção intensa em Angela que chegava a deixar sinais em seus traços fisionômicos.
Em 17 de setembro, a professora, através de uma inspiração satânica, elaborou um plano para melhorar escarnecer do que chamava de “superstições antigas que infestavam a escola”.
De forma terna, a professora, argumentou diante dos alunos que só existem coisas que podem ser vistas e tocadas. E para demonstrar essa afirmação, pediu a Angela que deixasse a sala. Enquanto Angela estava fora, ouviu seus colegas a chamarem de volta. Ao entrar, a menina sentiu algo estranho no ar.
A professora dirigindo-se a Angela e ao resto da turma, dizia: “Vocês podem ver Angela, porque Angela é uma pessoa viva,  alguém que podemos ver, ouvir e tocar. Quando a chamamos, ela nos ouve. Mas suponhamos que deveríamos chamar o Menino Jesus, em quem alguns de vocês parecem acreditar ... Vocês acham que Ele iria ouvi-los?”.
Um silêncio fúnebre tomou a sala por alguns instantes, até algumas vozes o romperem:

“Sim, nós podemos”.

A professora, tendo como alvo Angela, voltou-se a ela, e lhe perguntou: “O que você acha, Angela?”

Angela, sem titubear, respondeu: “Sím, Ele pode nos ouvir”.

A professora com uma grande gargalhada a desafiou:

“Então o chame?”

Diante disso, uma visível intimidação fez-se presente na classe. Angela, porém, permaneceu inalterável em sua fé, e com um gesto audaz e corajoso, se colocou a frente da turma, e com voz forte lhes incitou: “Escutem meninas, disse ela intrepidamente, vamos todos chama-lo Vinde Senhor Jesus”.As meninas da turma, inspiradas por sua coragem, atenderam ao chamado, e juntas, num coro, começaram a chamar: 

“Vinde Menino Jesus!”

A professora, tomada de ódio, ficou perplexa ante aquela reação inesperada. Prestes a interromper aquele coro “indesejado” das formas mais enérgicas. A porta da sala se abriu de forma brusca, e um brilho fulgurante tomou todo o ambiente, uma luz que se intensificava a cada instante, conforme as testemunhas descreveram, e no meio daquele clarão, um grande globo de luz do qual jorrava luz ainda mais intensa. Todos lançaram-se no chão, inclusive a professora. E aos olhos de todos, o globo se abriu revelando um menino de afeições angélicas e incomparáveis. Seu sorriso de uma beleza cativante enlevou por alguns instantes a todos em inexprimivel extase. Repentinamente, o globo se fechou. Deixando a todos com grande paz e alegria. Após aquele espetáculo, algumas ainda correram a porta para ver mais algum sinal daquela extraordinária aparição, mas nada mais havia, além do sentimento inapagável em seus corações. Todos, começaram então a gritar: “Ele veio!”. Fr. Norbert coletou aquele testemunho das meninas que ficaria célebre na Hungria, dando origem a um dos cultos mais fervorosos ao Menino Jesus.    

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O humilde Cura d'Ars





                Era uma sexta-feira de fevereiro de 1818, uma velha caleça abarrotada de móveis, com seu balançar sonoro seguia pela poeirenta estrada rumo a Ars. A certa altura do caminho, os viajantes sentem-se desorientados. Por graça de Deus, cruza o caminho dos viajantes um pastorzinho de 12 anos. Era Antoine Givré que providencialmente passava por lá naquele momento. O Pe. Vianney aproxima-se dele, e com seu jeito amável, conforme acrescenta a tradição, lhe propõe esta maravilhosa escolha: "Tu me mostras o caminho de Ars; e eu te mostrarei o caminho do céu". Antoine Givré prontamente cumpriu a promessa e o Padre Vianney a sua: mostrou o caminho do céu a Antoine e à toda Ars.


A pequenina Ars


 "Que pequenina é Ars!" foi o primeiro pensamento que veio a mente do padre Vianney - como acrescenta um de seus biógrafos - ao avistar aquele pequeno aglomerado de casinhas graciosamente agrupadas em torno da velha paróquia.
 Em Ars a fé desvanecia e o mundanismo se alastrava impetuosamente na vida de seus moradores. Um padre missionário que passou por aquela região, deixou ao Bispo está grave observação:
"Ensinar o catecismo às crianças é difícil, por causa de sua ignorância e incapacidade; a maior parte delas só tem a distingui-las dos animais o batismo".
Foi isto que o Pe. Vianney encontrou em Ars, um paganismo escancarado. "Deixai uma paróquia vinte anos sem um vigário, dizia o santo, e logo os animais passarão a ser adorados".  Ars já estava prestes a isto.
Um povo que ainda ia à Igreja por tradição familiar, mas no dia-a-dia vivia um ateísmo prático. Os costumes encontravam-se extremamente corrompidos; a frequência aos sacramentos era quase nula; os bailes e serões aos domingos eram o grande atrativo daquele povo.
Antes de ser enviado para Ars, haviam dado este conselho desafiador a Vianney: "Não há muito amor de Deus, nesta paróquia, terei vós, que o despertá-lo". Mas o que o Pe. Vianney encontrou foi a ausência de muito mais do que a caridade, faltava em Ars os elementos morais básicos de uma comunidade minimamente cristã. O santo teria muito que se sacrificar e sofrer por aquela paróquia. A começar, é claro, por despertar o amor naqueles corações endurecidos. E isto o fez prontamente, com a confiança de que ao ser despertado o amor, o resto viria em acréscimo. Despertada a incomensurável força do amor nos corações, dele faria o grande impulsor de seu apostolado.
Às noites passava largas horas ensaiando seus sermões, e no púlpito bradava com fúria divina contra a vida dissoluta de seus paroquianos. No silêncio, intensificava sua vida de penitência e oração. Nas primeiras noites deixou de lado a cama e passou a dormir no chão; privou-se dos prazeres do paladar, contentando-se com batatas cozidas, diminuiu as horas de sono, chegando a dormir três horas por noite, e submetia-se dia após dia as mais extremas mortificações.
"Meu Deus, concedei-me a conversão de minha paróquia, sujeito-me a sofrer o que quiserdes, durante toda a minha vida", tornara-se a sua oração constante.
       Lutou com denodo para extinguir as blasfêmias e a ignorância religiosa: "Este pecado (a ignorância religiosa), dizia ele, condenará mais almas do que todos os outros juntos".
Para vencê-la, intensificou a catequese junto aos moradores. Em pouco tempo, suas catequeses atraiam multidões que vinham até de outras cidades para ouvi-lo.
A ira de Deus, que como diz as Escrituras, se acendia contra toda impiedade (Rom 1, 18) nos lábios de Vianney. Contra os taberneiros vociferava com fúria divina... "Vós vereis arruinados todos aqueles que aqui abrirem tabernas". E de fato, todos os intentos dos taberneiros já não prosperava mais naquela cidade, estes se viram obrigados a procurar outra atividade. Era implacável o santo na reforma dos costumes.

A célebre luta para extinguir os bailes e as danças

Mas, um dos desafios que mais impunha resistência aos ardores daquele incansável cura eram os bailes! E o santo não cessava de bradar em seus sermões contra eles:
"As pessoas que entram num salão de baile - dizia cheio de santa indignação -, deixam à porta o seu Anjo da guarda e o demônio o substitui lá dentro, de modo que há tantos demônios em um baile quanto há dançantes".

Mandara esculpir como epigrafe em um oratório dedicado a S. João Batista a tão sucinta frase: "A sua cabeça foi o preço de uma dança".
Nesta luta, o santo usou de grande argúcia. Tratou de converter as moças - "sabia que não haveria bailes sem elas". Seus fervorosos sermões começaram a incutir um grande temor no coração das mulheres da comunidade e, estas, compungidas pelas candentes palavras do cura, logo abandonariam os bailes e a vida frívola e abraçariam a vida modesta na "Confraria do Rosário", fundada pelo santo.
A decepção dos jovens que frequentavam os bailes foi enorme quando lá chegaram e não encontraram as mulheres. O ódio destes mancebos fogosos logo se acendeu contra o cura, que acabou - literalmente - com suas festas. Mas, logo perceberam sua impotência diante de um santo, e sossegaram. E os bailes... Acabaram, enquanto a paróquia da cidade tornara-se tão atraente quanto eles. Lá estava Deus, a santidade de seu pároco assinalava sua divina presença, e não deixava margens a enganos. Entre um pedaço do paraíso que irradiava daquela paróquia ninguém o trocaria por qualquer prazer mundano.

Porém, o santo notando que muitos jovens sentiam desejo natural de se divertir, implantou na paróquia diversões saudáveis e puras, que ajudavam a mente e o corpo! "Diverti-vos, mas não pequeis", lembrava a máxima do santo educador da juventude: S. Filipe Neri.
O Santo conferiu as festas religiosas, um grande brilho. Com a ajuda de seu amigo, o conde de Garets, a festa de Corpus Christi adquiriu a pompa real que as cerimônias ao Rei do Universo evocam.
A mendacidade do povo estava sendo extirpada, os ímpios sossegaram por um tempo, mas o artífice de todo mal não. O bem que fazia às almas, atraiu a fúria do demônio, que via a cada dia seu reino sofrer duras derrotas.

O cura d'Ars e o demônio


O terror que incutia a santidade do Pe. Vianney nas potências infernais era tamanha que certa ocasião o demônio confessou pela boca de um possesso: "Se houvessem dois padres como o cura d'Ars no mundo, meu reino estaria perdido".

A partir do momento em que o Pe. Vianney, empenhou todas as suas forças para salvar até o ultimo de seus paroquianos, começou a padecer na carne a ira do inferno.

As noites na casa paroquial, a partir de 1823, nunca mais foram as mesmas. O Demônio passou a investir com toda a fúria contra o santo que lá habitava. Tudo começou em uma noite sinistra, quando o relógio marcava dez horas. O cura ouviu fortes batidas na porta da canônica (casa paroquial). Abriu a janela para ver quem era, mas não viu ninguém. O barulho cessou! Por algum tempo, mas recomeçou de forma até mais assustadora à meia noite. Os sinistros acontecimentos persistiram por algumas noites, O santo desceu a escada para saber quem batia, e novamente não havia ninguém. A cena se repetiria nas noites seguintes. O santo a princípio suspeitou de ladrões que tencionavam lhe roubar os ricos paramentos presenteados pelo conde de Garets. Redobrou então a segurança. Após transmitir o estranho ocorrido a seus paroquianos, imediatamente, bravos jovens se ofereceram à vigiar a casa paroquial. O primeiro a se oferecer foi o carpinteiro Andre Verchére, que por conseguinte, testemunhou as horripilantes manobras que o demônio orquestrava contra o cura. À noite, André Verchére, passou em vigília na casa paroquial junto ao cura para surpreender os supostos ladrões. Mas como nada aconteceu, recolheu-se à um quarto providenciado pelo cura. Por volta de uma da manhã, o carpinteiro foi surpreendido por violentas batidas na porta da sala. Imediatamente, Andre, empunhou a espingarda e esquivou-se na janela para surpreender os ladrões, mas, não viu nada. E o barulho continuou, menos forte, porém, mais assombroso. "Minhas pernas começaram a tremer, contou André, e eu fiquei aterrorizado uns oito dias". O cura D'Ars naquele momento veio até o rapaz com uma lâmpada e lhe fez a pergunta óbvia: "ouviu o barulho?", "sim, é claro!",  respondeu Verchére, completamente assustado.
Após aquela noite sinistra, o santo ainda convidou Verchére a passar mais uma noite na casa paroquial, mas o rapaz recusou com um bem humorado basta: "Senhor cura, para mim chega de sustos".
Mas os horrores não cessaram na casa paroquial, até o santo convencer-se de quem estava lhe roubando o sono. Aquele que era o mais prejudicado com suas orações e sacrifícios: o demônio.
A cada noite as ações do demônio contra o cura se intensificavam. Chegando, inclusive, a pôr fogo na casa canônica.


A fama de santidade

O cura d´Ars em vida gozava de tal fama de santidade que toda França acorria a pequena Ars para vê-lo. O sobrenatural tornou-se parcela de seu cotidiano. Acontecimentos extraordinários cercavam sua existência. Diziam que ele podia ler as consciências; que era temido pelo demônio; que levitava; que falava com Nossa Senhora, etc.
"A castidade brilhava em seu olhar", dizia uma testemunha da época. (cf. Arch. Secret. Vat. t. 3897, p. 304) Um advogado que visitara Ars para ver o padre Vianney voltava maravilhado para sua cidade contando a todos: "Vi Deus em um homem".Qual o segredo de tantos prodigios? O santo respondia com simplicidade: "O padre, antes de tudo, deve ser homem de oração" (Ibidem t. 227 p. 33)

Um dia, um pároco veio se lamentar-se ao Cura d'Ars do triste estado em que encontrava-se sua paróquia e das poucas conversões que nela aconteciam. "Já fiz de tudo", dizia o triste pároco.
Eis a resposta desafiadora do padre Vianney:
"Rezastes? Chorastes? Gemestes e suspirastes? Jejuastes? Fizestes vigílias? Dormistes no chão duro? Fizestes penitências corporais? Enquanto não fizestes isso, julgueis que não fizestes tudo". ( t. 227, p, 53)

O santo do confessionário

Em média, o santo passava 15 horas por dia no confessionário, começando pela extrema madrugada, pessoas passavam meses em Ars para confessarem-se com o cura d´Ars. Diante da dureza de um pecador empedernido, as lagrimas corriam rapidamente na face do cura, "Por que chorais?", perguntou um penitente de coração endurecido. "Oh, meu amigo, eu choro porque vós não chorais".

Este foi o grande santo de Ars, cujos feitos jamais poderiam ser contidos em livros. 

S. João Maria Vianney,
Rogai por nós!


sexta-feira, 26 de julho de 2019

O perigo da apostasia


Detalhe de Fallen Angel, de Alexandre Cabanel (1868)

                      O Catecismo da Igreja (1992) define a apostasia como “o repúdio total da fé cristã”. E não é qualquer repúdio, ou qualquer pessoa a repudiar, para considerarmos um flagrante caso de apostasia. Um repudio a fé só pode ser considerado apostasia quando feito por alguém que foi cristão e que o faz com a plena consciência de afrontar a fé. S. Pedro, ao falar desta espécie de corruptela espiritual, assim dizia: “Se depois de fugir às imundícies do mundo pelo conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, e de novo seduzidos se deixam vencer por elas, o último estado se torna pior do que o primeiro. Assim, lhes fora melhor não terem conhecido o caminho da justiça do que, após tê-lo conhecido, desviarem-se do santo mandamento que lhes foi confiado” (II Pedro 2, 20-21)
Ao percorrer as páginas biográficas da maioria dos inimigos da Igreja, nos deparamos com alguns momentos de suas vidas onde a fé era vivida com fervor. Assim o foram Marx, Nietzsche, Lutero, Henrique VIII, boa parte dos padres pedófilos e outros criminosos. 
O sórdido Henrique VIII, antes de apostatar, fora intrépido defensor da fé católica e do Papado, chegando inclusive a receber a insigne honraria de Defensor Fidei (Defensor da Fé) do Papa Leão V por conta de sua arguta defesa dos sete sacramentos contra as insinuações de Lutero em uma obra intitulada Assertio septem sacramentorum. Alguns anos depois, o monarca tornava-se o cruel perseguidor da Igreja e do Papado. O mesmo ocorrera com Robespierre, que narra-se que na adolescência fora fervoroso católico, e até considerou entrar para o seminário. O suprassumo do revolucionarismo moderno, Karl Marx na infância, fora cristão tão devoto que chegara a escrever um livro com conselhos de boa vivência cristã intitulado: “sobre a união dos fiéis com Cristo” Também se encontra uma fase de devoção cristã na vida de Nietzsche e Simone de Beauvoir. Esta última tinha a “Imitação de Cristo” como livro de cabeceira e teria desejado entrar para a vida religiosa.
Mas o que fizera estes homens e mulheres, de admirável devoção cristã, tornarem-se implacáveis inimigos da fé e da Igreja? A apostasia, é o nome que damos à esta reviravolta. Estes homens e mulheres esmoreceram em certo momento de suas vidas, e o pecado entrou em seus corações, lá deitando raízes profundas, e assim, cumprir-se em suas vidas o que advertira Nosso Senhor: "Quando um espírito impuro sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso. Como não o encontra, diz: ‘voltarei para a casa de onde saí’, Chegando, encontra a casa desocupada, varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando, passam a viver ali. E o estado final daquele homem, torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa” (Mateus 12, 43-45) Nosso Senhor, diz que “o lugar estava desocupado”’, querendo dizer que, após nos libertarmos de um mal, devemos ocupar o seu lugar com o bem, do contrário, o mal voltará a se apossar daquele espaço, e de uma forma ainda mais intensa que da primeira. Por esta razão, Dificilmente um apostata volta atrás em seu caminho de desordens.



Mas há casos em que a razão da apostasia não foi exatamente um descuido na vida espiritual, mas uma revolta profunda à Igreja em face do mau exemplo de seus representantes. A este caso, podemos citar o Imperador Juliano, o apostata, cuja história fora marcada por uma grande tragédia protagonizada por um pretenso cristão. “Criança de seis anos, narra Bento XVI, Juliano assistira ao assassinato de seu pai, de seu irmão e de outros familiares pelas guardas do palácio imperial; essa brutalidade atribuiu-a ele ─ com razão ou sem ela ─ ao Imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos, uma vez por todas”. 
A quantos a fé cristã não está desacreditada em razão da má conduta de seus membros? Como pedir à uma vítima de um membro desonesto da Igreja que confie no seu julgamento e na sua justiça? Em geral, tais pessoas, se veem entulhadas de traumas e sentimentos confusos e desordenados que fazem repelir de imediato qualquer referência à religião, tornando-se desta forma, ao mesmo tempo, apóstata e vitima de outro apostata que, teoricamente, não repudiou publicamente a fé, mas o fez com seus atos. Há, portanto, apóstatas públicos e outros velados, cujos atos não escondem o estado de apostasia em que se confinaram. Por esta razão, a apostasia é um fenômeno a que todos estamos vulneráveis. Com o descuido de nossa vida espiritual, amanhã, podemos nos tornar o apóstata que ontem condenávamos. Cabe não confiar demasiadamente em nossa força, pois ninguém sabe, além de Deus, até quando perseverará no caminho do bem, por isso cabe rezar e implorar a Deus diariamente a graça da perseverança final. Sem esta graça, ninguém permaneceria nem um minuto no caminho do bem.

domingo, 26 de maio de 2019

Porque os inimigos da Igreja amam o Padre Fábio de Melo






    
        Para agradar o mundo, basta uma coisa: não dizer a verdade! Em uma paráfrase famosa atribuída a Sto Tomas de Áquino, afirma-se, que “quem diz verdades, perde amizades”. A verdade é o grande divisor entre os discípulos de Cristo e os discípulos do mundo -- o mundo, que conforme disse nosso Senhor, “pertence ao demônio”, que é o pai da mentira (João 8, 44).
            E é a ausência deste elemento fundamental da pregação evangélica que tem feito o Padre Fábio de Melo cair nas graças do mundo anticristão e inimigo da verdade. Ao mesmo tempo em que indivíduos declaradamente anticatólicos vomitam seu ódio a fé e a religião, se desfazem em louvores ao referido sacerdote. “Ele fala do amor de Deus”, dizem, hipocritamente, alguns deles. A verdade é exatamente o contrário: Ele fala de tudo, menos do amor de Deus. Aliás, nem a palavra “Deus” ele tem pronunciado em suas redes sociais ─ de onde vem boa parte de suas bizarrices ─ para não desagradar aos que não creem. O segredo de seu bom trânsito entre inimigos públicos do cristianismo é simples: Ele acaricia consciências e segue a multidão. Está atento ao que o mundo segue para na primeira oportunidade tecer seus elogios, e ele está atento ao que o mundo odeia para se unir ao coro mundano em seus repúdios. As únicas críticas que Fábio de Melo sofre, vem exatamente de católicos fervorosos que sofrem as perseguições do mundo com o qual ele se alia. Fábio de Melo ignora que o mundo desprezou a Cristo, e esquece que “a amizade com o mundo é inimizade com Deus” (Tiago 4, 4)
            Por isso, Fábio de Melo tornou-se o padre preferido de quem odeia Cristo e a religião. E estes não hesitam em afirmar como uma das razões para esta simpatia  ─ pasmem ─, “a sua capacidade de transmitir o amor de Cristo”. Tal afirmação chega a ser, além de hilária, blasfema! Explico...
            Cristo nunca enganou o mundo e nunca iludiu consciências com uma linguagem açucarada. "A sua palavra não foi banal, gentil e simpática -- nos diz Joseph Ratzinger --, como quer nos fazer crer um falso romantismo sobre Jesus. Ela foi áspera e cortante, como o amor verdadeiro, que não se separa da verdade" [1]
        Jesus por vezes chegava a ser ríspido ao lidar até com seus apóstolos. A eles chamou diversas vezes de “tardos”, “tolos”, “insensatos”, e após sua ressurreição, aos discípulos de Emaús, chamou de “sem inteligência e lerdos” por não compreenderem as profecias que falavam a seu respeito.

            Jesus não se preocupou com os sentimentos de ninguém ao fazer sua pregação, mesmo que isso acarretasse em prejuízo a si mesmo, tal como aconteceu em seus embates com os fariseus. A estes, Jesus não poupou palavras. Os chamou de “raça de víboras”, “filhos do demônio” e outras coisas que cooperaram para a sua condenação... Sua pregação moral ia além da lei de Moisés. Aos adúlteros, disse que bastava um olhar para a pratica se consumar em seu coração. A outros disse: “Se tua mão te arrasta ao pecado, arranque-a, pois é melhor entrar no reino dos céus sem uma das mãos do que com as duas seres lançado no inferno. E esta última condição, o inferno, que os padres modernistas evitam de todas as formas em sua pregação, ou o deturpam brutalmente, foi uma das mais mencionadas por Nosso Senhor. Ao inferno apresentava como “o lugar onde o fogo não se apaga e o verme não morre” (Marco 9, 48) Diante de uma pregação como esta, regada de verdade e da verdadeira caridade, muitos diziam: “Duro é pois este discurso, quem o pode ouvir?” (Jo 6, 60) Palavras que o mundo nunca dirá da pregação de Fábio de Melo.    
            E essa rispidez com que Nosso Senhor apresentava o seu reino vinha do fato de,  ser Ele a própria verdade, e a verdade é ferina como faca de dois gumes, ela desafia, confronta, desfaz as blumas da ilusão que a mentira cria, destrói castelos de fantasia, e apresenta a realidade em suas devidas cores, mas... Ao final, nos garante a salvação. A mentira, por sua vez, ilude, acaricia, agrada, mas leva a perdição. O mundo, por essa razão, não ama a verdade, a repele, a despreza de todas as formas porque ama a mentira; crucifica e persegue os que a pregam e louva e coroa os que a escondem. Esta última condição é a de Fábio de Melo! Ele recebe os elogios do mundo; a simpatia dos maus... Porque acaricia suas consciências sombrias e lhes ilude com um falso cristianismo. Faz estes crerem que Jesus é um hippie com um eterno olhar condescendente; um sorriso de aprovação a tudo e um grito de “paz e amor” para sempre apaziguar os ânimos. E com esta distorção brutal de Nosso Senhor, toma a frente de uma nova religião, que tem do cristianismo apenas o nome. E se você ouve e leva a sério o que Padre Fábio de Melo diz, a primeira das razões para isso é que você não ama a verdade e gosta de ser enganada (o).      
           


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1. Joseph Ratzinger, Ser cristão na era neopagã. Vol. I, 1º Ed,  Ecclesiae, 2014, p. 84

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Porque todos devemos ser devotos de São José





           
            Se houve uma morte feliz, esta foi a de São José. Em seu leito de morte o assistiam Jesus e Maria. Há melhores acompanhantes na hora final do que estes? 

      Depois da Virgem Santíssima, a Igreja reconhece São José como o maior de todos os santos, e sua devoção torna-se particularmente necessária a todos os fiéis ─ especialmente, por sua condição de patrono da Igreja. O próprio Cristo lhe foi obediente, (cf. Lucas 2, 51) porque nós não haveremos de ser?


A morte de São José, Neilson Carlin

       Um testemunho especial  de devoção a São José nos vem de uma das grandes luminares da Igreja, a grande Sta Teresa de Ávilla, que no seu Livro da Vida nos narra as graças que alcançara através de sua devoção ao guardião da Sagrada Família. A grande santa carmelita após recorrer a diversos auxílios em momento de grande angústia, resolveu implorar o socorro de São José, e foi imediatamente respondida. “Não me recordo até agora ─ escreveu a Santa ─ de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa de espantar as grandes graças que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos de que me tem livrado, tanto no corpo como na alma. A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa necessidade; deste glorioso Santo tenho experiência que socorre em todas. O Senhor nos quer dar a entender que, assim como lhe foi sujeito na terra -- pois como tinha nome de pai, embora sendo aio, O podia mandar --, assim no Céu faz quanto Lhe pede” [1]. Dando continuidade a esta devoção na família carmelitana, outra grande santa da ordem, Teresinha de Lisieux, teceu belos louvores a São José. Em seus manuscritos autobiográficos a santa conta que todos os dias recitava a oração a São José, protetor das virgens, e conforme as suas próprias palavras: "por ele tinha uma devoção que se confundia com seu amor a Virgem Santíssima" [2].

Mas séculos antes destas grandes santas, outros gigantes da cristandade já teciam seus louvores ao pai putativo de Jesus. S. Bernardo, a seu respeito escreveu: "Há santos que tem o poder de nos socorrer em certas circunstâncias específicas, mas S. José tem o poder de socorrer em todas as necessidades e defender todos aqueles que recorrem a ele com piedosa disposição". E se queres um testemunho de santidade exuberante em tempos mais recentes que acontecia aos pés de S. José, é só voltar aos olhos ao grande taumaturgo de Montreal, Sto Andre Bessette, o santo que em vida foi testemunha de incontáveis milagres. E quando lhe imputavam o título de "grande milagreiro", simplesmente dizia que não fazia milagres, apenas pedia a São Jose, e ele atendia. Quando lhe pediam conselhos ou milagres, dizia apenas: "Ide a São José".

Com tantos testemunhos advindo dos mais ilustres nomes da cristandade o que nos falta para também confiar na poderosa intecerssão deste grande santo?  



               Para cuidar de Cristo e viver com Maria Santíssima, Deus  cumulou São José de bênçãos mais extraordinárias que as que se verificaram em qualquer outro santo. Nele os homens encontram um exemplar fiel da verdadeira masculinidade; os pais, da verdadeira paternidade; os maridos da verdadeira fidelidade, e os jovens, da verdadeira pureza. Foi ele que, como diz o papa Leão XIII, “guardou com sumo amor e continua vigilância a sua esposa e o filho divino; foi ele que proveu o seu sustento com o trabalho; ele que o afastou do perigo a que os expunha o ódio de um rei levando-o a salvo para fora da pátria, e nos desconfortos das viagens e nas dificuldades do exílio foi de Jesus e Maria companheiro inseparável, socorro e conforto” [3]  


Ite ad Joseph!


            Como o Velho Testamento nada mais é do que uma prefiguração do novo, a imagem de José do Egito é um antítipo da imagem de S. José, no livro do Gênesis lemos que o Faraó concedeu a José a guarda dos depósitos de trigo do Egito,  e quando a fome se agravou no mundo, “de toda a terra vinham gente ao Egito para comprar mantimentos”. E o Faraó lhes dizia: “Ide a José e fazei o que ele vos disser”.  (Gen 41, 55) Mas, o José do Novo Testamento guardava algo mais precioso que o trigo do Faraó. José guardava o pão da vida. Se o Faraó lhe confiara a guarda de seus bens temporais, Deus confiou a José a guarda de seu Filho, e posteriormente, de sua Igreja. Por estas e tantas razões, a figura de São José não pode ser dispensada para o católico -- ele, junto com sua castíssima esposa --, deve ser objetos da devoção de todo católico. Porque, dos homens, ele é o que está mais perto de Deus, e dos santos, o que está mais próximo dos homens.


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1. Livro da Vida, Cap. VI, 6
2. Manuscrito A, 158
3. Quamquam pluries

Sermão sobre o fim do mundo. 1 Parte: A destruição da vida espiritual

Por São Vicente Ferrer Estas palavras são escritas no segundo capítulo de S. Lucas, para falar do fim do mundo e diz duas co...