sábado, 13 de janeiro de 2018

Qual o ensinamento tradicional da Igreja sobre a pena de morte?





                     O Novo Catecismo não aboliu o ensinamento tradicional da Igreja sobre a pena de morte. Nele se diz: “O ensino tradicional da Igreja não exclui, depois de comprovadas cabalmente a identidade e a responsabilidade do culpado, o recurso à pena de morte” (Catecismo § 2267) Porém, esta medida penal passou a ser quase desautorizada a partir do pontificado de João Paulo II até o de Francisco. Recentemente, o Papa Francisco afirmou que "a defesa da pena de morte era um ato imoral". Mas tal afirmação implica em chamar de imoral o magistério tradicional da Igreja, e a grande maioria dos santos, que em comunhão com este mesmo magistério, sempre consideraram a pena de morte uma prática legitima e justa.

Santos como S. Jeronimo, S. João Crisóstomo, Sto Agostinho, Sto Tomás de Áquino, S. Bernardo, S. Boaventura, Sto Afonso de Ligório, S. Roberto Belarmino entre outros, defenderam tenazmente esta prática; Papas a apoiaram com denodo como S. Pio V, Inocêncio I, Inocêncio III, S. Pio X, Pio XII; autores católicos de alta envergadura como Donoso Cortés, Fulton J. Sheen, D. Jayme Balmes, a autorizaram com a devida racionalidade; autores seculares de grande prestígio como C. S Lewis, J. R. R Tolkien, filósofos cristãos e ateus como Rousseau, Kant, Schopenhauer, Hegel, Leibniz entre outros a reputaram fundamental para a ordem social. Há, portanto, uma licitude moral na pena capital reconhecida e abalizada por homens ilustres e de ilibada conduta ao longo da história.

No entanto, vivemos os tempos onde um certo sentimentalismo exacerbado é a base para o julgamento de todos os assuntos. Desta forma, parece-me que a maioria das objeções que se vinculam atualmente contra a pena de morte partem antes de precipitações emocionais do que de sólidos fundamentos racionais. Portanto, caso se queira ponderar seriamente este assunto, convém antes de tudo, deixar de lado o excessivo sentimentalismo, e recorrer a uma óptica racional.

Convém notar, também, que esta mentalidade que repudia a pena de morte, é bem recente! Até o final do século XX, a maioria dos países ocidentais adotava a medida com naturalidade, e até sob aclamação popular. E até o começo do século XVIII, – segundo Mr. Leven –, não se conheciam países que não aplicassem a pena de morte a seus malfeitores (Introduction de la peine de morte), A repulsa que o termo adquiriu parece ser um produto de nossos tempos.


O testemunho dos santos


Aqui, reuni alguns trechos de papas e santos sobre a pena de morte, a começar pelos assim chamados “doutores máximos”.
Os dois maiores doutores da Igreja, Sto Agostinho e Sto Tomás de Áquino, foram unânimes no reconhecimento da licitude moral da pena de morte.
Em De Civitate Dei, Santo Agostinho faz esta importante observação sobre o mandamento de não matar: 
“Não violaram o preceito, não matarás, aqueles que, movidos por Deus [e nisso incluem-se santos como S. Luís IX, Beato Urbano II, S. Fernando de Castela, Joana d’Arc] levaram a cabo guerras, ou os que, investidos de autoridade pública e respeitando a sua lei, isto é, por imperativo de uma razão justíssima, puniram com a morte os criminosos” (Livro I, Cap. XXI)

E completa o maior dos doutores católicos, Sto Tomás de Áquino: “
Privar da vida os criminosos não só é lícito como também necessário, se são perniciosos e perigosos à sociedade” (Suma Teológica, 1-2, q. 8, a3; 2-2, q. 64, a2)

Mas, além destes, outros santos a aprovaram como S. Jerônimo que a seu respeito escreveu em seus Comentários sobre Ezequiel
"Aquele que ataca os ímpios em seus vícios e usa um instrumento de morte para matar os vilões incorrigíveis, este é ministro de Deus”.
E em seus Comentários sobre Jeremias, o santo repete o mesmo argumento: 
“Punir os assassinos, os homens sacrílegos e envenenadores, não é um derramamento de sangue, mas a administração da lei” (Cap. 22)

S. João Crisóstomo:

S. João Crisóstomo teve uma posição semelhante a este respeito. Escreve ele: 

Tu dizes ser Deus cruel por haver mandado tirar olho por olho, pois se a lei de Talião é crueldade, também o será reprimir o assassino e cortar os passos ao adúltero. Mas isto só um insensato e um louco poderão por remate afirmá-lo. Eu, de minha parte, tão longe estou de dizer que haja crueldade nisso, que melhor afirmo que, em boa razão humana, o contrário seria antes uma iniquidade… Imaginemos, senão, por um momento que toda a lei penal foi abolida, e que ninguém tenha que temer castigo, que os malvados possam, sem temor, satisfazer suas paixões; que possam roubar, matar, ser perjuros, adúlteros e parricidas. Não é assim que tudo se transtornaria de cima a baixo, e que cidades, praças, famílias, a terra, o mar, o universo inteiro se encheria de crimes e assassinatos? Evidentemente, porque se com todas as leis e seu temor e ameaças, os malvados a duras penas se contêm, se essa barreira se deixara, que obstáculo restaria para impedir o triunfo da maldade? Com que virulência não intentariam contra nossas pessoas e contra nossas vidas? Com isso, juntar-se-ia outro mal menor, o deixar indefeso o inocente e constir que sofra sem razçai e sem motivo.” (Sancti. Joannes Chrysostomi. Opera omnia, Migni P. L. VII, Col. 246-246 – Ed. esp. de la BAC. 141, Madrid, 1955, I, 324-325)

E junto com estes, incluem-se: 

Clemente de Alexandria:

Quando alguém se mostra incorrigível e se lança ao crime, então o governante, que tem o cuidado de todos, deve com muito justo direito, levá-lo à morte, para que não cause dano aos demais” (Clementis Alexandrini, Quae extant opera, Paris, 1572, Stromata, I, p. 114)

S. Roberto Belarmino:

É lícito a um magistrado cristão punir com a morte os perturbadores da ordem pública. Isto é provado, primeiro, pelas Sagradas Escrituras, pela lei natural, pela lei de Moisés, e nos Evangelhos (…) é dever de um bom governante, a quem foi confiado o cuidado do bem comum, impedir aqueles membros que existem pelo benefício de prejudicá-lo, e portanto, se ele não pode preservar todos os membros em unidade, ele deveria preferir cortar um do que permitir que o bem comum seja destruído”.
(De laicis, cap. XIII)

Sto Hilário de Poitiers, diz que é lícito matar em dois casos: "Se um homem está cumprindo a função de juiz, ou se ele está usando uma arma em sua própria defesa". (Epístola III a Exuperius. Cap. 3) Do modo como ensinou S. Paulo em sua carta aos Romanos: "
"As autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não  é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal". (Romanos 13, 3-4)

Mas há um outro aspecto da pena de morte que costumeiramente deixado de lado, a questão espiritual. Já que nenhum ser humano é indiferente a realidade da morte, há uma certa "utilidade" espiritual nesta pena. 
Um criminoso, por mais endurecido que seja, ao ser confrontado com a morte, tem uma chance única de se redimir perante Deus e a sociedade que ofendeu com seus crimes. A história nos mostra que a pena de morte foi um instrumento eficaz de santificação para muitos celerados. Roberto Belarmino, o exímio doutor católico, via na execução de um condenado, a possibilidade deste expiar sua culpa diante de Deus e dos homens. Deste modo, cabe dizer que a pena de morte também possui um caráter expiatório – e não só correcional –, de que tiveram necessidade de impor todas as sociedades a seus criminosos. Mas tais pensamentos são demasiadamente estranhos à uma sociedade que perdeu por completo a noção de pena e culpa; de justiça e temor e de pecado.  


O temperamento conservador e o temperamento revolucionário




O conservadorismo, para muitos religiosos, e até pensadores do tema como o britânico Roger Scruton (talvez um dos maiores representantes desta corrente na filosofia) é encarado como uma ideologia ou uma mera doutrina política sem nenhuma relação com a religião. No entanto, o conservadorismo é antes de tudo, um temperamento humano, que se contrapõe ao temperamento revolucionário. Num livro que estou preparando para publicar ainda este ano, O manifesto conservador, analiso estes dois temperamentos, de uma fora mais aprofundada. Por ora, deixo aqui um trecho do livro aos leitores deste blog.

                                                                            Erick Ferreira  





        Uma das primeiras características observadas no temperamento conservador é a indisposição à utopias. Por isso, Michael Oakeshott – um dos máximos expoentes do pensamento conservador –, assim define o ser conservadorismo: “Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica”. Por certo, nesta definição muitos verão uma postura comodista diante da existência, mas tal não procede, pois o que há no ser conservador é antes de tudo uma postura responsável diante da existência. Responsabilidade que o existe no temperamento revolucionário e na sua disposição fatal à utopia. Por isso, os conservadores são os últimos a serem culpados pelas tragédias que se desencadeiam na história protagonizados pelos homens, pois eles não esperam um mundo melhor, tão pouco prometem uma sociedade ideal; são antes os revolucionários que prometem tais coisas, e são os últimos a assumirem a culpa por suas consequências trágicas. Os conservadores estão bem convencidos da natureza corrompida do homem e da instabilidade da vida terrena; os conservadores estão certos de que todas as utopias sempre se converterão em pesadelos ao saírem do campo mental e entrarem no terreno da realidade.
Já que foram os revolucionários e utópicos que proclamaram o advento de um mundo melhor, da fraternidade universal, da sociedade perfeita; que fizeram promessas que estavam acima de suas capacidades, e quando o sonho utópico se tornou um pesadelo, estes deveriam ser os únicos a serem culpados pela irresponsabilidade de suas utopias, por ignorarem verdades que todo conservador está convencido milhares de anos. A primeira delas: que todo homem está indistintamente inclinado ao mal, e que esta triste condição humana tornará sempre vã qualquer tentativa de implantar uma sociedade perfeita na terra.

sábado, 6 de janeiro de 2018

O erro de Malthus e o perigo em que o controle demográfico colocou o Ocidente




refugiados albaneses fugindo para a Itália em 1991




No século XVIII, Thomas Malthus (1766–1834), um clérigo anglicano, anunciava umteoria apocalíptica: 
O poder de crescimento da população é indefinidamente maior do que o poder que tem a terra de produzir meios de subsistência para o homem. A população quando não controlada, cresce numa progressão geométrica, [enquanto] os meios de subsistência crescem apenas numa progressão aritmética. 
(An essay on the principle population [Um ensaio sobre o princípio da população], 1798

tese colocou em polvorosa acadêmicos, empresários e políticos de todo o Ocidente. E uma verdadeira luta pelo controle demográfico se iniciava; enquanto Malthus era aclamado como um grande visionário, dotado de uma análise original da economia.
No entanto, longe de apresentar algo original, Malthus só dava ares acadêmicos a um temor infundado que acompanhará a humanidade desde seus primeiros registros: De que o crescimento populacional levasse ao total esgotamento dos recursos naturais.
Na China antiga, 500 anos antes de Cristo, Han-Fei-Tsu, escrevera:
Nos tempos antigos, o povo era pouco numeroso, mais rico e sem luta. O povo, no presente, pensa que cinco filhos não é muito, e assim, cada filho tem outros cinco e antes da morte do avô já existem vinte e cinco descendentes. O povo aumenta e a riqueza diminui; trabalha muito e recebe pouco. A vida de uma nação depende de o povo ter alimento suficiente e não do número de seus habitantes” [1]
  
E Tertuliano, mais de um milênio depois repetia a mesma crença: “Os flagelos da peste, da fome, as guerras, e os terremotos passaram a ser consideradas bênçãos pelas nações superpovoadas, pois servem para podar o pródigo crescimento da raça humana” [2]. Malthus, portanto, estava só compartilhando uma preocupação infundada que acometeu muitos homens de ideias ao longo da história.

Mas de onde nasce esta preocupação com o crescimento demográfico? Por certo, do desconhecimento das dimensões e potenciais de nosso planeta. Porém, a medida que os estudos demográficos avançavam, esses temores eram dispersados por evidências logicas.

Em 1943, o economista francês Alfred Sauvy (1898-1990), apresentou um dos estudos mais relevantes a este respeito. Em Richesse et population, Sauvy demonstra que dos 50 % de áreas cultiváveis, apenas 10% são realmente utilizadas. Isto nos leva a deduzir que, ainda que se utilize uma área correspondente ao Estado do Pará, seria o suficiente para produzir alimentos para toda a população mundial. Oatuais conhecimentos que dispomos das dimensões terrenas e de seus potenciais enérgicos tornam risíveis qualquer alarmismo sobre os perigos do crescimento demográfico. 

Por outro lado, enquanto governos ocidentais ainda se preocupam obcecadamente com esta questão (o crescimento demográfico), um grande perigo os espreita: o envelhecimento de suas populações e as baixas taxas de natalidade. Perigo que já é sintomático em alguns países europeus e americanos.
Ao se defrontar com o inverso dos prognósticos alarmistas de Malthus e seus discípulos, alguns governos já adotam posturas risíveis para contornar a crise demográfica por eles causada.  Por certo, não estava nos planos de Malthus a possibilidade de que um dia, governos pagariam às mulheres para ter filhos; e tão pouco estava nos planos de Malthus os graves perigos em que nações se colocariam ao forjar a diminuição demográfica de sua população.


Um destes perigos a que se expõe uma nação ao diminuir sua população, é a total vulnerabilidade à incursão demográfica de outra. Enquanto, o Ocidente diminuiu avassaladoramente sua população, o Oriente a aumenta em ritmos vertiginosos, de modo, a se expandir para o lado ocidental, ao ponto de em algumas décadas, substituir totalmente os tipos étnicos que habitavam essas regiões. [4] Esta realidade já é sentida por nações como Alemanha, França e Itália, cujas taxas de natalidade de seus cidadãos nativos, já beira os 0 %.



Referências:

1. Apud in  ROSSETTI, José Paschoal. Introdução à Economia. 16º ed. São Paulo: Atlas, 1994, p. 459
2. Ibidem, p. 460 
4. theguardian.com/world/2017/nov/29/muslim-population-in-europe-could-more-than-double  

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Homeschooling no Brasil






Por Erick Ferreira 


        H
omeschooling (ensino doméstico ou educação domiciliar) foi a modalidade educacional que esteve por trás da formação intelectual de figuras “pouco” aclamadas no mundo científico, literário e político como: Albert Einstein, George Washington, C. S Lewis, Jane Austen, Mark Twain, Isaac Newton, Walt Whitmann, Mozart, Alexander Graham Bell, Robert Louis Stevenson, Bernard Shaw, Winston Churchill, Charles Chaplin, Agatha Christie, Thomas Alva Edson, Marco Aurélio, Leonardo Da Vinci, Claude Monet, Charles Dickens, Albert Schweitzer e a lista vai longe.


No entanto, no Brasil, além de ser desconhecida pela maioria, a prática chega a ser criminalizada em alguns casos. Provando a tese de que nosso sistema educacional é regido por uma política totalitária, onde o Estado outorga a si mesmo o direito de educar as crianças, legando a segundo plano o direito das famílias e da sociedade.

Na questão da precedência educacional, nossa constituição reconhece três entes principais na missão educativa: a família, a sociedade e o Estado. Porém, não esclarece a qual desses cabe a precedência nesta missão. De um ponto de vista lógico, é evidente que a família possui precedência na educação dos filhos, mas na prática, o Estado tem exercido com exclusividade este direito, impondo a todos seus métodos e valores. Seja pela escolarização pública obrigatória; seja pelo desprezo dos valores familiares dos educandos em detrimento de novos valores universais, que advém de organismos internacionais, especialmente vindos da ONU.
O desejo que algumas famílias manifestam pelo homeschooling está fundado numa urgência: resgatar os filhos de ambientes escolares cada vez mais degradantes – moral e intelectualmente – e assumir o legítimo direito de educá-los nos próprios valores. Tal direito é constantemente impedido pela politica educacional totalitária do Estado.
Em casos mais comuns, a prática do homeschooling no Brasil chega a ser caracterizada como crime, enquadrando os pais que o praticam no Código Penal por “abandono intelectual” (cf. CPB § 246).
Felizmente, desde os anos 90 alguns passos significativos – embora não tão bem sucedidos – já foram dados para reverter este absurdo.

No legislativo, temos os seguintes fatos:
Em 1994, o deputado João Teixeira apresentou o PL 4.657/94 que tentava legalizar o ensino domiciliar cooperativo de 1º grau, que foi rejeitado pela Comissão de Educação, Cultura e Desportos. Alguns anos depois, em 2012, o deputado Lincoln Portela apresentou para a apreciação da Câmara um novo projeto (PL 3179/2012) que acrescentaria o homeschooling nas bases da educação nacional. O projeto do Dep. Portela embora tenha sido rejeitado, foi apensado ao PL 3261/15 do Deputado Eduardo Bolsonaro, como uma última tentativa legislativa de legalizar o homeschooling no Brasil. O projeto de Eduardo Bolsonaro fora novamente rejeitado, mas não desmotivou a luta pela legalização do homeschooling no Brasil, que vem pouco a pouco conquistado terreno e vencendo algumas batalhas. A última delas, foi o precedente histórico aberto pelo STF às famílias que se utilizam do homeschooling. Em 2016, através de uma decisão inédita, o ministro do STF, Roberto Barroso suspendeu temporariamente todos os processos que vigoram na justiça contra as famílias que se utilizam do método. Mas isto é muito pouco, diante do que se legitimamente espera. Mas a decisão acabou por encorajar um número surpreendente de famílias a aderir a prática. E a tendência é que este número só aumente.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Os medievais acreditavam que a terra era plana?







Por Erick Ferreira



         A cena é épica: a catedral ornamentada com toda a pompa para a grandeza de um evento tipicamente medieval: a sagração real. O bispo, e clero perfilados em seus postos, prontos a cumprir seu papel naquela insigne cerimônia. E em destaque, os símbolos daquele ritual: a coroa, o cetro e o globus cruciger, uma esfera representando o globo terrestre. Eram estes os símbolos que se exibiam nas cerimonias de sagração real nos tempos medievais. Mas por que os medievais utilizavam um globo para representar a terra, já que, segundo nossos professores, os medievais acreditavam que a terra era plana?

Globus cruciger usado até hoje em algumas cerimônias de sagração real


O globus cruciger era um dos símbolos mais famosos na Idade Média; ele estava presente em inúmeras cerimônias, esculturas e pinturas medievais; simbolizava o poder dos monarcas, e também, era um símbolo cristão de autoridade temporal.

gravura da escultura de Zeus adorada na Roma antiga


Era usado desde os tempos do Império Bizantino; e no Império Romano, há notícias de uma grande escultura de Zeus segurando um globo terrestre, demonstrando, assim, que antes mesmo da caluniada Idade Média os homens já acreditavam na esfericidade da terra.

A estória de que os medievais acreditavam que a terra era plana, é uma das mentiras mais deslavadas que já se levantou contra uma época. Deslavada porque ignorou-se a quantidade exorbitante de fatos que desmentem esta estória. Porém, felizmente esta mentira já vem sendo desmascarada há algum tempo. Mas cabe golpeá-la até que ela se dissipe de vez, e a verdade resplandeça com todo o seu fulgor. Pois diante de uma afirmação desconexa, e universalmente ensinada em livros didáticos, não há como ss manter inerte.


Gravura de Otto III
Fonte: Walter Goetz, Historia Universal, Espasa-Calpe, Barcelona, vol. III, pág. 385


                                                 ***


Ao analisarmos esta calunia, uma pergunta vem à tona: como o homem medieval, tão afeito as verdades da fé, desconheceria um fato que está testificado até nas Sagradas Escritura que ouvia devotamente todos os domingos? Acaso não teria percebido estes trechos das Escrituras:

Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra, e os habitantes dela são como gafanhotos diante d’Ele; foi Ele que estendeu os céus como um véu, e os desenrolou como uma tenda para habitar” (Is 40, 22
Do Senhor é a terra e tudo o que ela encerra; e a redondeza da terra e os que nela habitam” (Salmo 23 [24], 1)
“E eu estava com ele, e a cada dia me deleitava, brincando continuamente diante dele, brincando sobre o globo terrestre, e achando minhas delicias em estar com os filhos dos homens”. (Prov 8 30-31)

Esta última passagem, de Provérbios, inspirou uma das obras sacras mais famosas da cristandade medieval. A imagem de Nossa Senhora de Montsserat, padroeira da Catalunha, datada do século XI (em plena Idade Média). Imagem que testemunhou a comovente conversão de um gigante da cristandade: Sto Inácio de Loyola, que passou uma vigília diante desta imagem.
Acaso Sto Inácio nas largas horas que passava junto àquela imagem não percebeu que a Virgem e o menino Jesus traziam nas mãos uma representação do globo terrestre? Ora, se Sto Inácio não percebeu tal detalhe, será que o povo catalão que diariamente se reunia na catedral de Montsserat, ainda não havia percebido este detalhe?


Imagem de N. Sra de Montsserat


Em outra imagem medieval, o globo terrestre novamente figura nas mãos de outro ilustre personagem daquela época: O imperador Otto III (983-1002) do Sacro Império germânico. E alguns séculos antes, o globo terrestre aparecia na estátua equestre de Carlos Magno, rei dos francos. Datado do século IX.

Gravura medieval de Carlos de Napoles cm o globus cruciger nas mãos

E será que os trovadores medievais tão entendidos das obras clássicas, não conheceriam um dos maiores clássicos da Idade Média, A divina comédia de Dante Alighieri, que chegava até a ser declamada em praça pública? E se conheciam, acaso não teriam notado esses versos?

Con viso ritornai per tutte quante le sete sfere, e vidi questo globo tal ch’io sorrisi del suo vil sembiante (com o rosto, com a vista percorri todas as cinco esferas, e vi este globo tal que eu sorri de seu aspecto pequeno ou vil). (Dante Alighieri, Divina Comedia, Paradiso, Canto XXII, 132-135)

Note a convicção com que o autor descreve os fatos. A esfericidade da terra era uma certeza medieval! Além de Dante, outra famosa poesia medieval declarava com veemência a mesma crença na esfericidade da terra, tanto com palavras como com imagens. Trata-se do poema L’image du monde de Gauthier de Metz escrita no ano de 1245.



Partes originais do poema de Gauthier de Metz, onde
se encontram gravuras da imagem da terra em sua forma esférica

Mas, além destes detalhes expostos, há ainda uma farta literatura da época a depor contra as mentiras erguida contra o homem medieval. A maior autoridade medieval, o aclamado doctor angelicus, Sto Tomás de Áquino (1225-1274) assim escrevera em sua Suma Teológica:“O astrônomo, por exemplo, demonstra a mesma conclusão que o físico, ou seja, a esfericidade da terra” (Sum. Theol. I., q. 1, ad 2). Ora, será que o maior escolástico da Idade Média fora ignorado por sua época? E Sto Isidoro de Sevilla (560-636) autor das Etimologia (Livro XIV, 2), uma leitura obrigatória nas escolas medievais, assim descrevia o globo terrestre: “Se denomina orbe (terrestre) por causa da redondeza de seu círculo, porque é semelhante a uma roda; por isso, a uma roda pequena se dá o nome de orbiculus. O oceano a rodeia por todos os lados, limitando seus confins como em um círculo. O orbe está dividido em três partes, uma das quais se denomina Asia, a outra Europa, e a terceira, África”. (Etimologias, Bac, Madrid, 2004, p. 997-9988) Teriam sido os maiores educadores medievais, -- os escolásticos --  ignorados?
O homem medieval já estava convencido há muitos séculos da forma esférica da terra. E disso atestam seus manuais escolares, seus poetas e autores mais lidos e discutidos; assim como a própria Bíblia, etc., E diante disso, como se pode levantar uma mentira desta natureza e a sustentar por tanto tempo? Só nos resta concluir que só a ignorância de um povo pode conservar por tanto tempo uma mentira. E neste quesito, os tempos modernos são campões. Todas as épocas tiveram seus mitos, mas poucas celebraram tantos mitos quanto nossos tempos.


Notas:
Segundo o historiador James Hannem e seu livro Science versus christianity, a estória de que o homem medieval acreditava que a terra era plana começou a ser levantada no século XVIII:
O mito de que as pessoas na Idade Média pensavam que a terra era plana apareceu no século XVIII, como parte da campanha protestante contra o ensino Católico. Mas isto [acabou] ganhando força no século XIX, graças a histórias imprecisas como History of the conflict between religion and science (História do conflito entre ciência e religião) de John William Draper (1874) e A history of the warfare of science with theology in Christendom (Uma história da guera da ciência contra a religião na Cristandade) de Andrew Dickson White. Ateus e agnósticos defenderam a tese do conflito por seus próprios prosósitos, mas a pesquisa histórica gradualmente demonstrou que Draper e White propagaram mais fantasia do que fato em seus esforços para provar que a ciência e a religião estavam confinadas em eternos conflitos.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A falácia dos povos ateus


Por Erick Ferreira





Nunca, em nenhuma sociedade humana, desde que os homens se tornaram criaturas racionais, vieram, ou teriam vividos, sem religião

Leo Tolstoy, What is religion



Lançai um olhar por toda a superfície da terra, e podereis achar cidades sem trincheiras, sem letras, sem magistrados, povos sem habitações, sem uso de dinheiro, mas um povo sem Deus, sem orações, sem ritos religiosos, sem sacrifícios, nunca se viu

Plutarco










****




Há duas disposições que são próprias do gênero humano: o senso de beleza e a disposição para a religião. Ambas se verificam facilmente por toda parte. Vamos tratar primeiro desta última: a predisposição religiosa do homem, algo que o separa radicalmente dos seres irracionais.

Toda a terra está repleta das experiências religiosas do homem, de modo que há tempos se constatou que todos os povos sempre foram religiosos, demonstrando assim que a existência de Deus e a sua busca é uma necessidade sentida por todos os homens em todas as épocas. Até mesmo os poucos ateus – que sempre existiram em estado errático, como diz Armand de Quatrefages – nunca conseguiram se esquivar totalmente deste problema, e passaram suas vidas inteiras inquietos com a ideia de um Deus.

Embora existam algumas objeções a afirmação de que não existam povos ateus, elas são muitos frágeis para se sustentar. Apresentemos aqui algumas delas.
David Hume em sua obra History of natural religion, insinuou que poderiam existir povos sem religiões, evocando certos relatos de viajantes: “Se aquilo que os historiadores e os viajantes dizem é verdade, foram descobertas algumas nações que não mantinham quaisquer opiniões religiosas”. Percebe-se neste trecho uma clara insegurança do autor em sua afirmação.
Alguns anos depois, outra afirmação muito semelhante em defesa da existência de povos ateus vem se somar a de Hume. O renomado historiador Will Durant, escreveu em sua The Story of Civilization: “Se definirmos a religião como o culto das forças sobrenaturais, devemos observar que no início de alguns povos não havia religião. Em certas tribos de pigmeus da África não se observava culto ou ritos; eles não tinham totem; nem fetiches; nem deuses; eles sepultavam seus mortos sem cerimônias, e pareciam dar pouca importância a elas; eles tinham carência de superstições, isto se pudermos acreditar de alguma forma nos incríveis relatos de viajantes”. (DURANT, 1942, p. 56).
As afirmações de Durant, assim como a de Hume estão fundamentadas sobre testemunhos de viajantes; viajantes de um passado bem remoto, em especial, do geógrafo grego Strabo, (64 a.C. – c.23 d. C) que registrou esta suposta descoberta em suas Geográfias (I, 2, 8).
Mas tal relato contrasta radicalmente com uma indiscutível autoridade dos tempos de Strabo. O escritor grego Plutarco, o afamado pai da biografia (46/49, 125, a. C) que viveu alguns anos antes de Strabo, e escreveu em suas Morais (Vol. V, Contra Colotes) este relevante testemunho: Lançai um olhar por toda a superfície da terra, e podereis encontrar cidades sem muralhas, sem literatura, sem reis, sem habitações, sem uso de dinheiro, sem teatros e lugares de exercício, mas um povo sem templos e deuses; sem orações, sem ritos religiosos, sem sacrifícios, tal, nunca se viu (PLUTARCO, 1883, p. 920) E continua o autor na mesma obra: “É mais fácil fundar uma cidade no ar do que construir uma cidade sem a crença nos deuses”.

A afirmação de Plutarco vem receber confirmação da etnografia do Dr. Friedrich Ratzel – aclamado como “Pai da Geografia Moderna” – que assim escreve em sua História da Humanidade: “A etnografia não conhece raças desprovidas de religião, mas somente diferenças no grau em que as ideias religiosas estão desenvolvidas” (RATZEL, 1896, p. 40), e junto a esse importante relato da etnografia, ainda acrescento a conclusão notável do célebre naturalista francês Armand de Quatrefages, que em sua histoire générale des races humaines assim pontifica: “Após longo tempo de estudos detalhados sobre todas as raças do globo, cheguei a conclusões absolutamente contrárias as precedentes [...] Procurei o ateísmo com o maior cuidado, e não o encontrei em lugar nenhum, a não ser em estado errático; entre algumas seitas filosóficas de nações das mais antigas civilizações.” (QUATREFAGES, 1887, p. 252-283)

Mas, além destes breves testemunhos de especialistas, ainda resolvi reunir o testemunho de notórios ateus e anticlericais que muito a contra-gosto deporam em favor desta verdade, como Jean-Jacques Rousseau, que em seu Do Contrato Social escreveu: “Jamais se fundou nenhum Estado, sem que a religião se servisse de fundamento” (1.4, c. 8); e ainda, a opinião de Voltaire, que costumava terminar suas cartas com uma frase tenebrosa “Esmagai a infame”, em referência a Igreja. Este ferrenho inimigo da religião, assim escreveu em seu Tratado da Tolerância: “Onde quer que há uma sociedade, a religião é de todo necessária” (Tratado da Tolerância, c. 20)

Esta predisposição natural dos homens pela religião – facilmente observada em todos os povos – segundo alguns ateus, trata-se de uma resposta evoluída da natureza. Se esta tese estiver correta, significa, conseguintemente, que o ateísmo só existe em estágios inferiores da humanidade e entre os animais.
Há desejos no homem que o impelem inevitavelmente ao absoluto, como o desejo de beleza, de verdade, de amor, de bondade, e tais desejos não encontram respostas satisfatórias no imanente, no material, e no limítrofe horizonte da realidade física, ele tem que lançar-se na transcendência que só a experiência religiosa pode oferecer. Pois o homem não pode conter seu ímpeto de infinto, sua vontade de sentido, por isso, não pode viver sem religião.


***

O fato de encontrarmos tão poucos adeptos do ateísmo, e poucos povos que o tenham por aceitável, nos mostram que o ateísmo nunca foi um fenômeno natural na humanidade. Os primeiros sinais de povos cuja religiosidade é mínima, é próprio da modernidade. E tal fenômeno, como é facilmente observável, não nasce espontaneamente, nasce de forma artificial, forjado por Estados e instituições que passam a ser controlados por minoras anti-religiosas, e a partir da máquina estatal, passam a promover o ateísmo entre o povo. Porém, o modo como a promoção do ateísmo acontece na modernidade é digno de nota. Busca-se, em primeiro lugar, tornar odiosa a religião a vista de todos por meio de calúnias e difamações incessantes contra ela. Tal ação gera no povo, antes uma teofobia em vez de ateísmo propriamente dito, e consequentemente, o abandono da religião hegemônica.
Por isso assistimos sociedades que outrora foram profundamente religiosas como a Suécia, Canadá, Alemanha, etc, em pouco tempo se converterem em sociedades anti-religiosas.
Por outro lado, se observa na história que nenhuma sociedade pode ficar por muito tempo sem uma religião. Quando uma religião é deixada de lado, logo, outra se apresenta para ocupar o seu lugar. Por isso, nestes países supracitados se constata uma adesão maciça de seus cidadãos a seitas exóticas ou totalmente opostas aos valores culturais nos quais estas sociedades nasceram. Portanto, não se pode dizer que estes países se tornaram ateus, ou indiferentes a religião, se tornaram simplesmente anti-cristãos, e por conseguinte, tendem a buscar religiões que estejam mais distantes do espírito cristão.


________

Bibliográfia:

DURANT, Ariel., DURANT, Will. The Story of Civilization – Our oriental heritage. Vol. 1, New York: Simon and Schuster, 1942. 
PLUTARCO, Morals. Vol. 5 Boston: Little, Brown and Company, 1883.
QUATREFAGES, Armand. histoire générale des races humaines: introdution a l’étude des races humaines. Paris: A. Hennuyer, Imprimieur-éditeur, 1887.
RATZEL, Friedrich. The History of Mankind, vol. I. Translater: A. J Butler, London: MaCmillan and Co, 1896.