quinta-feira, 21 de julho de 2016

Reflexões sobre a fé






I PARTE


O que é a fé?

Os autores do Novo Testamento usaram a expressão πιστις (pistis) para se referir a uma força extraordinária que animava a caminhada do povo de Deus: a fé.
Pistis (a fé) também está  intimamente ligada a outra expressão, πιστος (pistós), que em nosso idioma pode ser traduzido por "confiança", demonstrando que 'confiar' e 'crêr' são atitudes inseparáveis. 
A ligação é tão patente que em alguns momentos, Nosso Senhor, ao invés de pedir que se tenha fé, pede que se tenha confiança. (cf. Mat 9, 2, 22)

Se não houvesse uma confiança cega em Deus, -- porque Ele é verdade --, o ato de crêr não poderia ser chamado de fé. 

Mas, neste ponto, muitos dirão: "confiar cegamente, não é irracional?". Respondo que não. A fé é uma força sobrenatural que nos leva a abandonar-nos cegamente, convictos de que "escolhemos a melhor parte", ou seja, a verdade. Abandonar-se cegamente no erro, não é fé, é impulso carnal, é concupiscência!
A fé é impulso puramente espiritual, que necessita, no entanto, do assentimento humano para manifestar-se. Tal como fizeram os apóstolos ao encontrarem a Cristo.

O que estes homens rudes, e muitos até analfabetos sabiam a respeito de Cristo? Como poderiam abandonar suas famílias e profissões para seguir um desconhecido, do qual, só sabiam o nome e alguns relatos, se não fosse um impulso divino?
Era uma força divina (a fé) que os impelia.

Mas, além disso, fé é uma confiança mais extrema que simplesmente abandonar o barco na praia. É ir além; é sair do barco em mar profundo, e caminhar sobre as águas. Foi isso que Nosso Senhor pediu a Pedro em uma noite no mar da Galiléia.
Toda renúncia que Pedro fez para seguir o Divino Mestre não foi suficiente para livrá-lo da dura pecha de "homem de pouca fé".
Pedro tinha fé, mas, segundo Jesus, era pouca. Ele esperava de Pedro uma fé que o levasse um 'pouco' além, a um total abandono nos braços de Deus. Pedro ainda temia, por que ainda não estava plenamente  convencido da divindade de seu Mestre. Mas, quando a chama da fé se acende em seu coração... O medo se vai. 
Por isso podemos contemplar um outro Pedro depois do Pentecostes, um Pedro abrasado pela fé.

Para melhor entender o que é a fé, basta analisar algumas de suas fabulosas manifestações.
Em uma delas, narrada no  Evangelho de São Mateus, notamos a primeira característica da fé: a confiança total no poder de Deus.

O apóstolo narra que enquanto Jesus descia o monte, um leproso o adorava dizendo: "Senhor (κυριε), se tu queres, podes me curar". (Mat 8, 3) 
O leproso estava totalmente convencido da divindade de Cristo, e acreditava que bastava o querer de Jesus para ser curado. 
Pedro duvidou deste poder, -- que o leproso estava totalmente convencido --, por isso foi chamado de homem de pouca fé. 

Na maioria das vezes em que Nosso Senhor repreende os apóstolos, -- os chamando de "homens de pouca fé" --, o motivo é este: duvidam de sua divindade. (cf. Mat 6, 30; 8, 23, 26; 14, 31; 16, 8).

Nas manifestações de fé que se contempla nos relatos evangélicos, além da total convicção na divindade de Cristo, percebe-se o total abandono a sua vontade. Neste sentido, s. S, o Papa Bento XVI define a fé como "um entregar-se confiante a um "Tu", que é Deus." ¹ 
Tal entrega não precisa do milagre para se convencer do poder de Deus, é um entregar-se confiante e desinteressado, é aquela fé que está expressa em um poema atribuído a Sta Teresa de Ávilla:
"Não me move, Senhor para Te amar
O Céu que me prometestes,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de Te ofender.
Tu me moves, Senhor, 
Move-me ver-Te pregado em uma Cruz e escarnecido.
Move-me ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte.
Move-me, enfim, o teu amor, 
E de tal maneira, que ainda que não houvesse Céu eu Te amaria,
E ainda que não houvesse inferno Te temeria.
Nada tens que me dar para que eu Te queira,
Pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
O mesmo que Te quero
Eu te quereria.
É esta fé que pretendo discorrer ao longo destas linhas.


Nota

1. Bento XVI. Audiência geral, praça de São Pedro, 24 de outubro de 2012.