segunda-feira, 25 de julho de 2016

O que é uma Ideologia




A ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem,
É a violação do primeiro e do decimo mandamento,
Se quisermos empregar a linguagem da ordem judaica; é a “nossos”,
“A doença do espírito” empregando a linguagem de Ésquilo e Platão.¹

Eric Voegelin  





            Ideologia é mais uma das palavras que se popularizou com o uso indiscriminado até perder-se a compreensão de seu sentido. 
À principio, qualquer dicionário define ideologia como o conjunto de crenças religiosas, filosóficas, jurídicas, sociais e políticas que caracterizam um grupo ou classe social. Neste sentido, se pode falar em ideologia cristã, (embora o cristianismo não seja uma ideologia, no verdadeiro sentido da palavra, como explicaremos mais adiante), ideologia burguesa, ideologia marxista, ideologia nacionalista, etc. 
Mas este termo vai um pouco além desta definição dicionarial. O termo foi cunhado no contexto revolucionário francês (1789-1801) por Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy (1754-1836), -- ou simplesmente Destutt de Tracy --, em seu livro Les Elements d’Ideologie (1801)
No livro, Destutt de Tracy apresenta a Ideologia como a “análise das sensações e das ideias”.

Tracy, junto com seus discípulos, planejava uma grande reforma educacional que lançasse na lata de lixo todas as lições deixadas pelo regime monárquico e clerical que tanto abominavam. E até receberam o apoio de Napoleão Bonaparte.

Os ideólogos acreditavam piamente que rejeitando a religião e a metafísica, e guiando-se por ideias puramente abstratas, poderiam alcançar um sistema natural de leis, que a religião e a metafísica enterraram. 
Para Tracy, as sensações são a única fonte de nossos conhecimentos, e segui-las, a única forma de alcançar o estado ideal de sociedade e de ser humano.

Desde Tracy, os ideólogos sempre foram ferrenhos inimigos da religião, da tradição, dos bons costumes e das convenções naturais.

Quando "a Ideologia" de Destutt de Tracy foi aplicada na França, ela mostrou-se um fracasso. 
O imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), sabendo do resultado desastroso das teses de Tracy, aplicou a ele e a seus discípulos a pecha de “deformadores da realidade”; e John Adams chamou à ideologia de “ciência da idiotice”. 
A partir de então, a tese de Destutt de Tracy passou a ser vista como algo ridículo e obsoleto, indigno de qualquer atenção.

50 anos depois, o conceito de Ideologia foi drasticamente alterado por Karl Marx (1818-1883) e seus epígonos. Na Ideologia Alemã, Karl Marx apresenta a Ideologia como um sistema de ideias de uma classe dominante para assegurar sua hegemonia sobre as classes oprimidas. 
Marx concebia a sociedade como uma relação entre dois elementos: uma infra-estrutura (base econômica) que dava origem a uma super-estrutura (a ideologia) que são o conjunto de crenças jurídicas, filosóficas, sociológicas que regula as relações sociais. Deste modo, os marxistas acreditavam que todos os elementos que compõe a sociedade são produtos de um fator econômico que reproduz a injustiça na sociedade, e a regula por meio de "aparelhos ideológicos". 
Para modificar esta realidade, Marx propunha uma profunda transformação na economia (infra-estrutura) que por conseguinte desfaria toda a realidade ideológica, que nasce desta base economica. 
Desta visão, decorre aquela atitude característica de todo marxista de julgar qualquer ideia ou doutrina como a expressão dos interesses de poder de uma classe, de uma cultura ou de uma raça. 
Portanto, para os marxistas, a ideologia é uma weltanschauung (visão de mundo em geral) que produz a realidade que vem a ser, a partir dos marxistas ocidentais, uma continua interação entre percepção e linguagem, gerando uma falsa consciência nas massas e mascarando a opressão de uma classe sobre outra.

Em uma carta dirigida a Engels, Marx entende as ideias e normas dominantes que regem a sociedade, como uma “mascara ilusória revelada aos explorados como um padrão de conduta, para dominar e gerar apoio moral a dominação.”²
Logo, para os marxistas, em seu ódio visceral contra um tal “sistema de ideias dominantes”, – que se propunham combater –, a forma mais eficaz de vencê-lo, seria através de um novo sistema de ideias que o substitua, um sistema que estabeleça uma sociedade igualitária e perfeita³

Analisando este conceito de ideologia desenvolvido pelos marxistas, chegamos a inevitável conclusão de que eles (os marxistas) se encaixam perfeitamente no próprio conceito que criam e prometem combater! São eles os verdadeiros ideólogos da história! São eles que criam uma falsa consciência nas massas para estabelecer uma relação mais cruel de dominação na sociedade. Onde quer que tenha se aplicado os ideais marxistas, viu-se estabelecer a mais horrenda relação de dominação e opressão. 

A Ideologia, portanto, é um embuste revolucionaria que aponta no outro os próprios interesses, que colocará em prática assim que chegar ao poder. 

Neste sentido, podemos classificar como ideologia ao fascismo, ao nazismo, ao comunismo, ao anarquismo, ao nacionalismo e a muitas outras doutrinas que confundem a opinião publica sobre supostos interesses ocultos por trás de todas as instituições e sistemas que regem a sociedade, escondendo e justificando seus nefastos interesses por trás de uma hipotética promessa de uma sociedade mais justa, que despontará quando o tal "sistema opressor" for vencido. 

O ideólogo crê que as massas necessitam da sua ideologia para viver e ser, e que a realidade em que estas pessoas estão situadas é produto de interesses escusos, e elas (as pessoas), são as vítimas destes interesses, contra os quais, devem se rebelar. Assim, os retira de um suposto sistema de interesses e os lança dentro de outro sistema de interesses bem mais monstruoso. Como aconteceu com o povo russo, saindo do czarismo para entrar no regime mais sanguinário da história: o comunismo.


Para algo ser de fato uma ideologia, precisa conter em si a presunção suficiente de ser capaz de transformar a realidade social, e a própria natureza humana em vista de um übermensch (super-homem), -- como dizia Nietzsche --, e de uma sociedade hipotética.
Quem detém tal pretensão é no mínimo um futuro tirano, como o foram os representantes de todas as ideologias. (4)

Por fim, toda ideologia possui um caráter messiânico, que se opõe veementemente ao cristianismo. Todas elas pretendem inaugurar o reino de Deus sobre a terra, em direta oposição ao reino de Cristo. "Meu reino não é deste mundo", dizia Nosso Senhor.
E nesta presunção diabólica, as ideologias sempre acabam instaurando o inferno na terra

Um toque de realismo sempre desfaz o falso brilho da ideologia. Todos, indistintamente, tivemos em algum momento esta louca pretensão de criar ou esperar um mundo do nosso jeito, nos rebelando contra algum elemento imutável da realidade, recusando aceitá-lo.
Ao descobrir que a realidade não depende de nosso querer, e que não possuímos o poder para modificá-la em sua essência, a ideologia, que ora nos atraía, retorna a sua condição real de mero "delírio psicótico" e seus arautos, meros dementes, ou como bem chamou Napoleão Bonaparte: simples deformadores da realidade.



Notas:

1. Eric Voegelin, Ordem e história: Israel e revelação. Vol. 1. São Paulo, Loyola, 2009, p. 32.
2. Apud Russell Kirk. A política da prudência, É realizações, 2014. p. 93. 
3. Os marxistas não entendem o homem como o produto de fatores naturais e predeterminados, nem a sociedade como a consequência natural e inevitável das conclusões racionais da humanidade em busca de sua conservação e aperfeiçoamento, mas, exclusivamente como a expressão dos interesses de uma classe que triunfou por meio da opressão ao longo da história, moldando o homem e a sociedade, tal como ele é, e o confinando dentro de uma matriz ideológica que é resultado da exploração e da ganância da classe opressora, e por isso, eles, os marxistas, quais 'paladinos da justiça' se apresentam para desconstruir a sociedade burguesa e reconduzi-la ao seu estado original, de perfeição e de felicidade. Esta pretensão tresloucada sempre culminou nas maiores tragédias que se teve notícia na história.
4. Sendo a ideologia uma forma de mascarar a realidade em nome de uma ordem de dominação, os movimentos ideológicos tornam-se um refúgio seguro para psicóticos, esquizoides e caracteropatas ressentidos com a realidade em que se recusam viver
O caráter esquizóidal e caracteropático são transtornos de personalidade identificados pelo psiquiatra polônes Andrzej Lobaczeviski em seu livro "Ponerologia".
Estas duas espécies de transtornos, segundo o psiquiatra, possuem papeis importantes como agentes patológicos nos processos da gênese do mal.
O caráter esquizóidal é característicos em "pessoas psicologicamente solitárias, que começam a se sentir melhor em alguma organização humana, nas quais se tornam zelotes de alguma ideologia, religiosos intolerantes, materialistas ou partidários de uma ideologia com características satânicas". Por vezes, estas pessoas, para evitar as impressões negativas que causam nos outros a partir de contato físico direto, optam por se dirigirem a sociedade através da palavra escrita, escondendo assim suas personalidades excêntricas. Entre as figuras esquizoidais identificadas por Lobaczeviski, destaca-se Karl Marx e Friedrich Engels.
O psiquiatra polonês citando Frostig, define Engels e Marx como "fanáticos esquizoidais". 
Já os caracteropatas, possuem como traço comum "o embotamento afetivo e a falta de sentimento das realidades psicológicas". Lobaczeviski o identifica como o resultado de deformação negativa do caráter, decorrente de lesões no tecido cerebral. Uma personalidade histórica identificada por Lobaczeviski com este tipo de transtorno foi o imperador germânico Guilherme II.