quinta-feira, 30 de junho de 2016

Uma crise estética


Por Erick Ferreira


    Os homens dos tempos modernos foram induzidos a apreciar como arte o absurdo, o tosco e o feio, através da chamada "arte moderna"; que exalta o absurdo e o desespero como princípios régios da hodierna criação artística. Assim, a arte moderna, coloca-se em direta oposição aos rigorosos critérios da estética e da metafísica que inspiravam a arte clássica. Princípios que tencionavam traduzir os anseios da alma por um sentido íntimo nas coisas [1] -- uma crença geral que acometia os homens antigos que viviam convencidos de que toda a existência é produto de um intelecto superior e que tudo está retamente ordenado para um fim sublime. Esses princípios da arte clássica foram hediondamente desprezados em nome de uma nova concepção, totalmente deslocada da racionalidade.

As concepções estéticas que  impulsionaram o gênio artístico de Michelangelo, Bernine, Da Vinci, Bach, Mozart, etc. estavam solidamente alicerçados sob os principios da filosofia clássica, que na busca do belo, concebiam a máxima finalidade de toda criação artística. 

O véu das virgens vestais, Raffaelle Monti

Assim nasceu a arte! De uma necessidade natural humana: a necessidade de contemplar e exprimir o belo. O belo que manifesta algumas de suas fagulhas na sutileza das formas, sons e cores da arte.

Em uma definição muito antiga, a arte foi chamada de recta ratio factibilium (a reta razão das criações), tudo isso para dizer que o artista busca um sentido nas coisas contra o desespero da condição decaída do homem. Parafraseando um grande teólogo do século XX, podemos dizer que "o mundo parece não conseguir entender-se sem a arte". 

Mas o que é o belo?

Os gregos antigos diziam que a beleza é "a expressão visível do bem". A união entre o conceito de bem e de belo era tão íntima que uma mesma palavra servia para referir-se a ambos: Kallos.

Sto Tomás de Áquino definia o belo como est id quod visum placet (aquilo que agrada a visão). De modo que se pode dizer que, a mesma sensação que nos causa o bem nos causa o belo.
Platão dizia que a beleza está na forma não na matéria, no eterno e não no corruptível. Portanto, não é possivel alcançar o belo materialmente, mas representá-lo vagamente, pois o belo transcende a matéria.
Seguindo estes princípios, a arte nos legou as mais impressionantes criações até o século XVIII.

Com o advento do século XIX, a arte deu um salto anti-metafísico, rompendo lamentavelmente com os principios estéticos que regiam a criação artística até então. 

Era o impressionismo que chegava com fúria bárbara, se lançando sobre os antigos cânones estéticos, e abalando tristemente o mundo da arte. 

O resultado desta derrocada foi trágico!

impressionismo se personificou com tal exatidão em um de seus maiores representantes, Vicent Van Gogh (1853-1890), cuja demência se traduzia em sua "arte" e se projetou nas produções subsequentes do impressionismo e suas vertentes.

Em 1917, seguindo os passos dos impressionistas, Marcel Duchamp choca o mundo ao expor em Nova York um urinol como sua obra prima. A "obra", intitulada fontain, se celebrizou, a ponto de ser eleita "a obra mais influente da arte moderna". Atualmente, a Fontain está avaliada em 3 milhões de Euros, mostrando com isso que, quanto mais uma obra contrariar os princípios clássicos da estética, mais valorizada será; quanto mais se distanciar do sentido de belo, mas ela será apreciada pelo mundo moderno.

Fontain, Marcel Duchamp

Nesta exposição chocante, Duchamp estabelece o principal objetivo da arte moderna: chocar! Mas chocar com o absurdo, exprimindo assim, uma total aversão a todo sentido que possa conter a existência.

Em 2006 um homem atacou a "obra prima" de Duchamp com um martelo. A polícia imediatamente o deteve, mas Duchamp explicou que o ato fazia parte da obra.

My Bed, Tracey Amin

Em 1999 a obra de Duchamp inspira outra obra grotesca dos tempos modernos: a tristemente afamada My bed de Tracey Emin, exposta na Tate Modern Gallery de Londres. A obra consistia numa cama desarrumada, com várias garrafas de vodka, preservativos e roupas manchadas de sangue. Durante a apresentação, dois homens nus invadiram a galeria, produzindo um "espetáculo inesperado". Consumiram as garrafas de vodka sobre a cama e se puseram a pular sobre ela. Os expectadores no ato, acreditando que o vandalismo fazia parte da exposição, aplaudiram extasiadamente o episódio. Mas de fato, o vandalismo fazia parte daquela obra, e fará parte de quase todas as obras da arte moderna. 
E o repertório de insanidades não se detém por aí, ela converge para um fosso cada vez mais profundo.

Em 2011, Michael Heizer finalizou sua "obra prima": Uma pedra bruta megalítica de 340 toneladas, exposta em Los Angeles, e já considerada uma das melhores obras da arte moderna.

Elevated Mass, Michael Heize

Todas estas manifestações irracionais que se convencionou chamar "arte moderna" alertam para os caminhos que a humanidade trilha, ou melhor, para os abismos que está sendo conduzida.

O homem moderno já está condicionado a uma perda gradual da noção estetico-cognitiva e uma das consequências mais graves disso é uma total aversão à beleza transcendente projetada nas coisas, posto que este é o abismo que a arte moderna quer conduzir a humanidade! A aversão ao belo!

Dessa questão nasce uma pergunta pertinente: É possível perder a capacidade de apreciar o belo?
Respondemos que sim! 

Quando o homem lança-se em um fosso de imoralidade e irracionalidade, perde a capacidade de apreciar o belo, pois sua visão se ofusca e sua razão se embota, retornando ao estado bárbaro. Os brutos não podem apreciar o belo, que exige consciência moral e reta razão para aprecia-lo! Portanto, somente homens racionais e morais possuem o senso do belo, ou podem desenvolvê-lo.

Sem este requisito, o homem cria sua própria concepção de beleza, como fazem os artistas modernos, baseado em seus mundos interiores, -- chafurdado de vícios --, de modo que, com a visão turva, o que era feio, a seus olhos, passa a ser belo, por lhe satisfazer pulsões desvairadas. E o que é mais agradável aos olhos de um psicopata senão tudo que lhe apetece os instintos, como a violência, o sexo...? 
Assim se forma uma grave psicopátia, característica de nossos tempos, algo que poderia ser chamado de kalofobia. [2]

O que será do homem sem a sublime e indispensável capacidade de apreciar o belo? Um desesperado! Um iconoclasta! Um bárbaro, etc.

Que caótico seria o mundo sem a arte! 

E é a este mundo caótico que a pseudo-arte moderna quer nos conduzir. Suas criações irracionais e disformes, exprimem a mais pura revolta contra todo o sentido. E isso é um poderoso antídoto para precipitar o homem no desespero e brindar o triunfo da barbárie. Pois, ao se tirar o sentido da vida, as leis morais, e a esperança metafísica... Se rompe a última fronteira que o separa das feras.

1. Hegel em seu "Curso de Estética (Vol. I) define a Estética como a "ciência do sentido". O termo provém do grego: "aisthesis", (percepção), de onde surge "aisthetikos", ou seja, "o que é capaz de perceber".
2. Kalofobia - junção das palavras gregas, kallos, beleza, e fobus, medo, aversão. Ou seja, aversão ao belo