domingo, 5 de junho de 2016

99 anos de Fátima e muita coisa a se esclarecer


por Erick Ferreira

Há exatos 16 anos, o Santo Padre o Papa João Paulo II tornava público uma das questões mais intrigantes dos últimos séculos: o Terceiro Segredo de Fátima.

E a revelação, carregada de expectativas, causou indizível decepção a multidão que se comprimia para a solene revelação em Roma
Quem estava à espera de impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro a se desenrolar na história, certamente ficará desiludido, escreveu o Cardeal Ratzinger na ocasião. E de fato, desilusão era a palavra a traduzir o sentimento de todos em relação às indecifráveis palavras que ora se apresentavam como o tão aguardado "Terceiro Segredo de Fátima".

Cardeais Bertone e Ratzinger na ocasião da apresentação do terceiro segredo

16 anos depois daquele histórico e emblemático 26 de Junho de 2000, as inquietações e desconfianças em torno do "Segredo"  revelado não se desfizeram, ao contrário, só aumentaram com o tempo, e as respostas  apresentadas aos inevitaveis questionamentos que nasciam não se mostravam muito  satisfatórias.

A grandiosidade do evento que fora Fátima e a expectativa que sua mensagem causava não poderia encerrar-se como algo, que nas palavras do próprio Cardeal Ratzinger, "não revelavam nenhum grande mistério, ou rasgasse o véu do futuro". Era decepcionante demais para os ânimos inquietos da humanidade. A longa expectativa estava reduzida a nada? Se sim, por que tanta resistência em revelar este "Segredo"? Resistência que se estendeu por quase um século. E por que Nossa Senhora, que sempre fora tão clara em suas mensagens, não se faria entender naquela que é talvez a maior revelação mariana da história? 
São perguntas inevitáveis que nasciam constantemente.

O modo como aquele envelope branco chegou a nós, está em volto em mais mistérios do que o próprio mistério nele contido (sic)

Sabe-se que no ano de 1943, enquanto irmã Lúcia estava no convento das irmãs doroteias na Espanha, uma ordem formal do bispo de Leiria, D. José da Silva, lhe foi enviada para que escrevesse a terceira parte do Segredo. 
Na ocasião, Ir. Lúcia estava gravemente enferma, e junto a enfermidade corporal, padecia de terrível angustia, de modo que seu estado lhe impossibilitava escrever. 
Lúcia demorou cerca de três meses para concluir aquelas poucas linhas que atualmente conhecemos como o "Terceiro  Segredo". Encerrando o texto só em janeiro de 1944.

Ao terminar, enviou a D. José da Silva com uma advertência: "...este (o terceiro segredo) será lido ao mundo inteiro após a sua morte ou em 1960,  o que quer que acontecesse primeiro". 
Quando questionada porquê o segredo deveria ser revelado somente em 1960, Ir. Lúcia respondia: "Porque a Santíssima Virgem assim o deseja". 

D. José da Silva, ao receber o envelope com o segredo, temeu a responsabilidade da matéria, e recusou-se a conhecer seu conteúdo, enviando-o imediatamente ao Vaticano, onde fora guardado no arquivo secreto do Santo Ofício.

Primeira folha do manuscrito enviado por Lúcia a D. José da Silva

Em Roma, Pio XII reinava soberano no sólio de Pedro, e demonstrou claros interesses em dar a conhecer ao mundo o conteúdo do Segredo assim que chegasse a data marcada para a sua revelação (1960). 
Porém, um acontecimento "inesperado" muda repentinamente os rumos daquele episódio: a morte de Pio XII no dia 9 de Outubro de 1958. Deixando a seu sucessor a tarefa de revelar ao mundo o tão esperado "Terceiro Segredo de Fátima".

Chegando a data da revelação pública, por algum imprevisto, o sucessor de Pio XII, o papa João XXIII, adia a revelação do "Segredo", causando grandes especulações mundo a fora. 
Conta-se que após a leitura, o Papa João XXIII teria dito aos seus assistentes: "Questo non è per i nostri tempi" (Isso não é para o nosso tempo). Verdade ou não, aquele estranho imprevisto merece boas explicações.

O Vaticano no dia 8 de fevereiro emitiu nota oficial à imprensa declarando que o conteúdo do segredo não seria revelado, e um dos motivos alegados, lançava certa confusão sobre as aparições:
"Apesar de a Igreja reconhecer as aparições de Fátima, não se compromete a garantir a veracidade do que os três pequenos pastores dizem ter ouvido de Nossa Senhora", dizia a nota. Assim o "segredo" permaneceu no silêncio dos arquivos secretos do Santo Ofício até o dia 27 de março de 1965, quando o sucessor de João XXIII, o Papa Paulo VI requereu ao Santo ofício que o enviasse o conteúdo do segredo. Este teve conhecimento do conteúdo, porém, mais uma vez se recusou a revelá-lo, aumentando ainda mais as expectativas e as especulações.

16 anos depois, um acontecimento trágico ocorre em Roma, colocando o "segredo" de Fatima no centro de discussões: O atentado sofrido pelo Papa João Paulo II no dia 13 de Maio de 1981, dia de Nossa Senhora de Fátima e de suas aparições.

Na ocasião, o papa alega ter sido salvo pela "mão materna de Nossa Senhora" que "desviou a trajetória da bala". 
Talvez, motivado pelo acontecimento, o papa deseja conhecer o conteúdo do segredo, porém, ao conhecê-lo, como acontecera anteriormente com seus predecessores, se recusa a revelá-lo. Mas, resolve cumprir solenemente um dos pedidos feitos pela Santíssima Virgem: a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em 1984, conforme dispõe a Segunda Parte do Segredo: 
“..., virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz...”

Mas, o tão aguardado "Terceiro Segredo" iria permanecer no silêncio por mais algum tempo.
Mas, as pressões a partir daquele trágico 13 de Maio de 1981 aumentaram vertiginosamente, e o Vaticano via-se intimado a revelar ao mundo o conteúdo do segredo. 
Passando-se dez anos após os atentados de 1981, em visita a Fátima no ano 2000, o papa João Paulo II decide tornar público o conteúdo do segredo.

Na ocasião em que o conteúdo fora apresentado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, os Cardeais Ratzinger e Sodano se arriscaram a tecer uma interpretação da mensagem. O cardeal Sodano se antecipando, afirmou: "Os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do segredo pertencem ao passado". Afirmação que é reiterada pelo Cardeal Ratzinger: "Os diversos acontecimentos na medida em que são apresentados, pertencem ao passado".

Tentou-se convencer o mundo que o evento Fátima alí se encerrava com a revelação do terceiro segredo. Porém, nove anos depois, o cardeal Ratzinger ia ao local das aparições, agora como Bento XVI, e de forma inequívoca afirma: "Iludir-se-ia quem pensasse que a mensagem de Fátima esteja concluída" (Homília, 11 de maio de 2010, Fátima). Três anos depois daquela visita à Fátima, Bento XVI renuncia.

Pastorinhos de Fátima.
Da esquerda para a direita: Lúcia, Francisco e Jacinta

16 anos após aquela revelação pública, e quase 100 anos das inenarráveis aparições de Fátima, a questão ainda parece pendente para a humanidade, e o mundo volta a se perguntar: Foi de fato revelado o terceiro segredo? E há muitas razões para fazer este questionamento.
A Igreja não parece a mesma. O mundo vive uma grave crise de fé tal qual não se teve noticia na história. O presente parece assumir contornos assustadores; a dessacralização atingiu seu vértice e invade todos os ambientes, inclusive o seio da Igreja, e isso não seria objeto de alerta da Santíssima Virgem? Que segredos estariam por trás de tantos fatos inexplicáveis em torno daquele pequeno envelope?

Em meio a este grande imbroglio que se tornou a mensagem de Fátima e seu trajeto até os nossos dias, muitas lácunas ficaram em branco: A inexplicável relutância de quatro pontifices (excluindo João Paulo I); e tantos eventos misteriosos que envolveram este percurso e ainda inquietam a humanidade exigem sérios esclarecimentos. Mas, como "não há nada que esteja oculto que não venha a ser manifesto" (S. Marcos 4, 22), aguardamos ansiosos o dia em que todas as lacunas sejam preenchidas, quer nesta vida ou na outra... Mas com uma certeza: Enquanto as "contracenas" deste evento não forem esclarecidas, a mensagem profética de Fátima não estará encerrada.