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segunda-feira, 29 de abril de 2019

O mês de Maria





            A piedade dos fiéis consagrou o mês de maio à mais bela das flores do jardim de Deus: Maria. Por isso, Maio, para o católico, é um mês mais que especial, é “o mês da linda mãezinha” como dizia Padre Pio. Em tempos mais piedosos, este mês era marcado com exuberantes manifestações de devoção que se verificavam por toda parte, com mais intensidade nas paróquias e capelas, mas também nas escolas, hospitais e até presídios. Inclusive o Papa Paulo VI recordou em uma de suas encíclicas estes tempos de piedade que todos os homens do passado foram testemunhas: “Neste mês nós nos recordamos da alegria infantil com a qual, indo à escola, levávamos flores ao altar de Nossa Senhora; velas, cantos, orações e promessas davam alegre expressão à nossa devoção à Virgem Santíssima, que então nos aparecia como rainha da primavera, primavera da natureza e primavera das almas”. (Mense Maio, 1965)  A devoção à Nossa Senhora ditou por muitos séculos o ritmo da vida na maior parte do Ocidente. À hora do ângelus "todos" paravam reverentes em reflexão àquela hora sublime em que a humanidade, através do fiat de Maria, recebia o Salvador. Uma centelha desta devoção foi retratada na comovente tela de Millet, em que os camponeses interrompem a labuta na hora do ângelus para saudar a Virgem.

l'angelus (1859) Jean-François Millet, Paris, Museu D´Orsay

Mas, as contas do rosário cessaram nas últimas décadas, os sinos da piedade estão calados, as candeias da Virgem apagadas, o rosário deixou de ser símbolo de piedade para tornar-se acessório de moda -- o mesmo que aconteceu com o escapulário. Os floridos altares de nossa infância desapareceram, lobos vorazes extinguiram a devoção nos corações; muitos sacerdotes e religiosos tem pouca conta por Maria porque não pertencem a geração que a proclama bem-aventurada. 
Aquela terna piedade de Nossa infância se perdeu, piedade cantada e decantada em tantos versos piedosos de amor e devoção, e o resultado deste desprezo é aquela triste condição denunciada por S. Luís de Montfort em seu Tratado: “Maria Santíssima tem sido até agora desconhecida, e esta é uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser” (Tratado da Verdadeira Devoção. n. 13)  

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Novidade Editorial: "A Anatomia do Conservadorismo"

  


                No dia 9 de março será lançado em versão eletrônica o livro "A Anatomia do Conservadorismo", que faz um Raio X do temperamento conservador, além de seu caráter meramente político e doutrinário, como, convencionalmente, se tem feito.

O conservadorismo, como o autor apresenta, "fixa-se numa filosofia do tempo que entrevê um elo indissociável entre passado, presente e futuro; onde um complementa o outro sem entrarem em conflitos e juntos fazem o fio condutor da história." Por certo, nesta afirmação se apresenta, não só, a essência do conservadorismo, mas a própria constituição do bom senso.  

O livro divide-se em 8 capítulos, onde todos convergem a uma conclusão um tanto quanto inesperada da personalidade conservadora. 

Embora a data de lançamento esteja marcado para 9 de março, ele já pode ser adquirido pelo Endereço Eletrônico da Amazon a preço super acessível.  

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Uma importante lição de humildade





              Um dia, atravessando um pântano para ir à sua cela, o abade Macário encontrou o diabo empunhando uma foice de ceifeiro com a qual queria atingi-lo, mas não conseguia. Então lhe disse: “Macário, tu me faz mal, porque não posso vencê-lo. No entanto, tudo o que vós fazeis, eu também faço, vós jejuais, mas eu não como absolutamente nada; vós velais e eu nunca durmo. Há, porém, uma coisa em que vós me superais”. O abade perguntou: “Em quê?” O diabo respondeu: “Em humildade, pois é ela que faz com que eu nada possa contra vós”. 
(Jacopo de Varazze, Legenda Aurea: vidas de santos, Trad: Hilário Franco Junior. São Paulo: Companhia das Letras, p. 165).

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Porque sou católico



Por G. K Chesterton Trad: Erick Ferreira




                        Um artigo publicado recentemente em um jornal diário foi dedicado ao Novo Livro de Orações; sem, no entanto, ter nada de novo para falar sobre ele. Por isso, ele consistiu principalmente em repetir por novecentas e noventa e nove milésimas vezes que, o que o inglês comum quer é uma religião sem dogmas (seja lá o que isso queira dizer); e que as disputas sobre assuntos da Igreja eram ociosas e estéreis de ambos os lados. Ao lembrar-se repentinamente que essas equalizações de ambos os lados podem envolver alguma ligeira concessão ou consideração para o nosso lado, o escritor apressadamente se corrigiu. Então, passou a sugerir que, embora seja errado ser dogmático, é essencial ser dogmaticamente Protestante.
                        Ele sugeriu, ainda, que o inglês comum (esse caráter útil) estava bastante convencido, apesar de sua aversão a todas as diferenças religiosas, de que era vital para a religião continuar divergindo do catolicismo. Ele está convencido (nos disseram) que “a Grã-Bretanha é tão protestante quanto o mar é salgado”.
                        Olhando reverentemente para o profundo protestantismo do sr. Michael Arlen ou do sr. Noel Coward, ou a mais recente dança de jazz em Mayfair, poderíamos ser tentados a perguntar: Se o sal perder seu sabor, com que ele será salgado? Mas, como podemos deduzir corretamente desta passagem que o sr. Lord Beaverbrook, o Sr. James Douglas e o Sr. Hannen Swaffer, e todos os seus seguidores, são realmente protestantes severos e inflexíveis (e como sabemos que os protestantes são famosos pelo estudo detalhado e apaixonado das Sagradas Escrituras, sem restrições por parte do Papa ou dos sacerdotes), poderíamos até tomar a liberdade de interpretar o ditado à luz de um texto menos familiar. É possível que ao comparar o Protestantismo com o sal do mar, eles fossem assombrados com alguma lembrança de outra passagem, na qual a mesma autoridade falava de uma fonte única e sagrada de água viva – porque era água vivificante – que realmente sacia a sede dos homens; enquanto todos os outros poços e charcos se distinguiam dela pelo fato de que aqueles que deles bebem terão sede outra vez. É uma coisa que acontece ocasionalmente às pessoas que preferem beber água salgada.
                        Essa talvez seja uma maneira um tanto provocadora para iniciar a declaração de minha mais forte convicção; mas eu, respeitosamente, alegaria que a provocação veio do protestante. Quando o protestantismo afirma calmamente que governa todas as almas no mesmo tom em que a Britânia governa todos os mares, é admissível replicar que a própria quintessência desse sal pode ser encontrada mais espessa na estagnação do Mar Morto. Mas é ainda mais admissível replicar que o protestantismo está reivindicando o que nenhuma religião neste momento pode possivelmente reivindicar. É calmamente reivindicado a fidelidade de milhões de ateus, pagãos hedonistas, místicos independentes, investigadores psíquicos, teístas, teosofistas, seguidores de cultos orientais e alegres companheiros que vivem como os animais que perecem. Pretender que todos estes sejam protestantes, acaba por diminuir consideravelmente o prestígio e significado do protestantismo, o tornando meramente negativo; e o sal não é negativo!
                        Tomando isto como um texto e um teste para o problema presente que é a escolha religiosa, nos encontramos, a princípio, diante de um dilema sobre a religião tradicional de nossos pais. O protestantismo aqui mencionado é uma coisa negativa ou positiva! Se o protestantismo é uma coisa positiva, não há dúvida alguma de que ele está morto. Na medida em que era realmente um conjunto de crenças espirituais, ele não é mais acreditado. O genuíno credo protestante é, agora, mal conservado por mais ninguém – menos ainda pelos próprios protestantes. Eles perderam completamente a fé que eles tinham nele, de modo que, até esqueceram o que ele foi. Se qualquer homem moderno for interrogado se salvamos nossas almas unicamente através de nossa teologia, ou se fazer o bem (para os pobres, por exemplo) nos ajudará no caminho para Deus, ele responderia sem hesitação que as boas obras são provavelmente mais agradáveis a Deus do que a teologia. Provavelmente seria uma surpresa para ele saber que, por trezentos anos, a fé unicamente na fé foi o emblema de um protestante, e a fé nas boas obras o emblema, um tanto vergonhoso, de um infame papista.
                        O inglês comum (para trazer nosso velho amigo aqui mais uma vez) não teria dúvida alguma sobre os méritos da longa disputa entre o catolicismo e o calvinismo. E essa foi a discussão mais importante e intelectual entre o catolicismo e o protestantismo. Se ele acredita em um Deus, ou mesmo que não acredite, ele certamente preferiria um Deus que fez todos os homens para a alegria, e que deseja salvar a todos, a um Deus que deliberadamente fez alguns para o pecado involuntário e para a miséria imortal. Mas essa era a discussão; e era o católico que conservava a primeira posição e o protestante conservava a segunda.
                        O homem moderno não só não compartilha, nem mesmo compreende, a aversão anormal dos puritanos a toda arte e beleza em relação à religião. Mas esse era o verdadeiro protesto do protestante; e as matronas protestantes, de meados da época vitoriana, ficavam menos chocadas com um vestido branco, e muito menos com uma vestimenta colorida. Em praticamente todas as questões essenciais sobre as quais a Reforma realmente colocou Roma no banco dos réus, Roma foi desde então absolvida pelos jurados do mundo inteiro.
                        É perfeitamente verdade que podemos encontrar verdadeiros erros provocando rebelião na Igreja de Roma pouco antes da Reforma. O que não podemos encontrar é um desses verdadeiros erros que a Reforma reformou. Por exemplo, era um abuso abominável que a corrupção dos mosteiros às vezes permitia a um nobre rico desempenhar o papel de patrono e até mesmo de Abade, ou mesmo se apoderar das receitas que deveriam pertencer a uma fraternidade de pobreza e caridade. Mas tudo o que a Reforma fez foi permitir que o mesmo nobre rico se apoderasse de toda a renda; de toda a casa e a transformasse em um palácio ou em uma pocilga e acabasse com a última lenda da pobre fraternidade. As piores coisas no catolicismo mundano foram agravadas pelo protestantismo. Mas as melhores coisas permaneceram de alguma forma durante a época da corrupção; e elas sobreviveram mesmo na época da reforma. Elas sobrevivem hoje em dia em todos os países católicos, não só na cor, poesia e popularidade da religião, mas nas lições mais profundas da psicologia prática. E elas foram completamente justificadas após o julgamento de quatro séculos, que cada um deles está agora a ser copiado, mesmo por aqueles que a condenaram; só que muitas vezes de forma caricaturada.
                        A psicanálise é o confessionário sem a salvaguarda do confessionário; o comunismo é o movimento franciscano sem o equilíbrio moderador da Igreja; e as seitas americanas, depois de uivar durante três séculos com a teatralidade papal e o mero apelo aos sentidos, agora “iluminam” as suas liturgias através de filmes super-teatrais, e raios de luzes rosa-avermelhados que caem sobre a cabeça do ministro. Se tivéssemos um raio de luz para projetar, não devíamos projetá-lo sobre o ministro. Em seguida, o protestantismo pode ser uma coisa negativa. Em outras palavras, pode ser uma lista nova e totalmente diferente de acusações contra Roma; e apenas em continuidade porque ainda está contra Roma. Isso é muito amplamente o que é; e isso é presumivelmente o que o DAILY EXPRESS significou realmente, quando disse que nosso país e nossos compatriotas estão embebidos no protestantismo como no sal. Em outras palavras, a lenda de que Roma está errada de qualquer maneira, ainda é uma coisa viva, embora todas as características do monstro estejam agora
inteiramente alteradas na caricatura. Mesmo isso é um exagero, como aplicado à Inglaterra de hoje; mas ainda há uma verdade nele. Somente a verdade, quando verdadeiramente realizada, dificilmente pode ser muito satisfatória para os protestantes honestos e genuínos. Afinal, que tipo de tradição é essa, que conta uma história diferente a cada dia ou a cada década, e está contente enquanto todas as histórias contraditórias são contadas contra um homem ou uma instituição? Que espécie de causa sagrada é esta herdada de nossos antepassados, na qual, devemos continuar odiando algo e ser consistentes somente nesse ódio; sendo inconstante e falso em tudo o mais, mesmo em nossa razão para odiá-lo? Será que vamos nos estabelecer seriamente para criar um novo conjunto de histórias contra a maioria dos nossos irmãos cristãos? É esse protestantismo; e vale a pena compará-lo com o patriotismo ou o mar? De qualquer modo, aquela era a situação que eu me encontrei enfrentando quando eu comecei a pensar nessas coisas; filho de um protestante de ascendência pura ou, no sentido comum, vindo de uma casa protestante. Mas, de fato, minha família, tendo se tornado liberal, já não era protestante. Fui criado como uma espécie de universalista e unitarista; aos pés daquele admirável homem, Stopford Brooke. Não foi o Protestantismo salvo em um sentido muito negativo.
                        Muitas vezes era o plano contrário ao protestantismo, mesmo nesse sentido. Por exemplo, o universalista não acreditava no inferno; e era enfático em dizer que o céu era um estado de espírito feliz – “um temperamento”. Mas ele tinha o senso de ver que a maioria dos homens não vive ou morre em um estado de espírito tão feliz que sozinho os garanta um céu. Se o céu é um temperamento, certamente não é um temperamento universal; e muitas pessoas passam por esta vida com um temperamento dos diabos. Se todos estes fossem ter o céu, unicamente através da felicidade, parecia claro que algo lhes devia acontecer primeiro. O universalista, portanto, acreditava em um progresso após a morte, ao mesmo tempo, punição e iluminação.

                        Em outras palavras, ele acreditava no Purgatório; embora não acreditasse no inferno. Certo ou errado, ele obviamente e claramente contradisse o Protestante, que acreditava no Inferno, mas não no Purgatório. O protestantismo, em toda a sua história, travou uma guerra incessante contra essa única ideia de Purgatório ou Progresso além do túmulo. Cheguei a ver, na visão católica completa, verdades muito mais profundas sobre as três ideias; verdades relativas à vontade e à criação e ao amor mais glorioso de Deus pela liberdade. Mas mesmo no início, embora eu não tivesse pensado no catolicismo, não conseguia ver por que eu deveria ter qualquer preocupação com o protestantismo; que sempre dissera o oposto do que um liberal já deve dizer. Encontrei, em palavras simples, que não havia mais nenhuma questão para se apegar à fé protestante. Era simplesmente uma questão de se eu me agarrar à disputa protestante. E, para meu enorme espanto, encontrei um grande número de meus liberais, ansiosos por prosseguir com a disputa protestante, embora já não tivessem a fé protestante. Não tenho título para julgá-los; mas para mim, confesso, pareceu-me uma falta de honra bastante feia.
                        Para descobrir que você tem difamado alguém sobre alguma coisa, se recusar a pedir desculpas, e inventar uma outra história mais plausível contra ele, para que você possa continuar o espírito da calúnia, me pareceu no início uma forma bastante pobre de se comportar. Resolvi, pelo menos, considerar a instituição caluniada original em seus méritos próprios e a primeira e mais óbvia questão foi: “Por que os liberais eram tão anti-liberais? Qual era o significado da disputa, tão constante e tão inconsistente?” Essa pergunta me levou muito tempo para responder e agora demoraria muito mais tempo para gravá-la.
                        Mas finalmente me levou à única resposta lógica, que cada fato da vida agora confirma; que o objeto é odiado, como nada é odiado, simplesmente porque é, – no sentido exato da frase popular –, como nada na terra.
                        Há pouco espaço aqui para indicar esta única coisa fora das milhares de coisas que confirmam o mesmo fato e confirmam os outros. Eu me comprometo a pegar qualquer tópico ao acaso, da costeleta de porco à pirotecnia, e mostrar que ela ilustra a verdade da única filosofia verdadeira; tão realista é a observação de que todos os caminhos levam à Roma. Fora de tudo isso, aqui tenho tomado apenas um fato; que a coisa é perseguida, época após época, por um ódio irracional que está perpetuamente mudando sua razão. Agora, de quase todas as heresias mortas, pode-se dizer que elas não estão apenas mortas, mas condenadas; ou seja, elas são condenadas ou condenados pelo senso comum, mesmo fora da Igreja, quando uma vez o humor e a mania delas está ultrapassado.
                        Ninguém agora quer ressuscitar o Direito Divino dos Reis que os primeiros anglicanos lançaram contra o Papa; ninguém agora quer reviver o Calvinismo que os primeiros puritanos lançaram contra o Rei. Ninguém agora está arrependido que os Iconoclastas foram impedidos de esmagar todas as esculturas da Itália. Ninguém agora está arrependido de que os jansenistas não conseguiram destruir todos os dramas da França. Ninguém, ainda que nada saiba sobre os albigenses, lamenta que eles não converteram o mundo em pessimismo e perversão. Ninguém que entenda realmente a lógica dos Lollards (um grupo muito mais simpático) realmente deseja que eles tivessem conseguido tirar todos os direitos e privilégios políticos de todos que não estavam em estado de graça.
                        O “Império fundado na Graça” era um ideal devoto, mas considerado como um plano para desconsiderar a polícia irlandesa controlando o trânsito em Piccadilly, até que tenhamos descoberto se ele confessou recentemente a seu padre irlandês, está faltando na realidade… Contra os hereges que às vezes eram muito como loucos.
                        No entanto, em cada momento separado, a pressão do erro predominante era muito forte; o erro exagerado de toda uma geração, como a força da Escola de Manchester nos anos cinquenta, ou do Socialismo Fabiano como uma moda em minha própria juventude.
                        Um estudo dos casos históricos verdadeiros comumente nos mostra o espírito da época vai mal, e os católicos pelo menos relativamente seguem para a direita. É uma mente que sobrevive a cem modos.
                        Como eu disse, este é apenas um aspecto; mas foi o primeiro que me afetou e levou aos outros. Quando um martelo acerta um prego direto na cabeça umas centenas de vezes, chega um momento em que pensamos que não foi algo completamente acidental. Mas essas provas históricas não seriam nada sem as provas humanas e pessoais, que precisariam de uma descrição bastante diferente. Basta dizer que aqueles que conhecem a prática católica acham não somente correto, mas sempre correto quando tudo o mais está errado; tornando o confessionário o trono das franquezas onde o mundo lá fora diz absurdos sobre isso como uma espécie de conspiração; sustentando a humildade quando todo mundo está louvando o orgulho; acusado de caridade sentimental quando o mundo está falando de um utilitarismo brutal; carregado de dureza dogmática quando o mundo está alto e solto com o sentimentalismo vulgar – como é hoje. No lugar onde as estradas se encontram não há dúvida da convergência.
                        Um homem pode pensar todos os tipos de coisas, a maioria delas honestas e muitas delas verdadeiras, sobre o caminho correto para virar no labirinto em Hampton Court. Mas ele não pensa que ele está no centro; ele sabe.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Giovanni Bugatti, um carrasco a serviço da Igreja


Giovanni Bugatti em seu ato
                     
                    Com as recentes recriminações do Papa Francisco a pena de morte, cabe lembrar que tal postura não foi muito comum entre os papas e os santos dos séculos anteriores: tal postura é característica de dois pontificados dos tempos modernos, o de João Paulo II e Francisco. Até o pontificado de Pio IX, a pena de morte não somente era autorizada pela Igreja, como praticada sob as bênçãos do Papa dentro dos Estados Pontifícios. E neste aspecto "controverso" da História da Igreja, um personagem, pouco mencionado na atualidade, tornou-se símbolo deste período: o executor oficial dos Estados Papais. 
                   Dos que cumpriram exemplarmente essa função, está um piedoso católico, a que se refere os registros, de "hábitos modestos e corteses". Giovanni Battista Bugatti, também chamado mastro titta (oficial de justiça). 

Vestes de ofício de Giovanni Bugatti, Museu Criminológico de Roma

No livro de Edward Feser e Joseph Bessette, intitulado By man shall his blood be shed: a catholic defense of capital punishment (Ignatius Press, 2000) Os autores fazem a seguinte referência a Bugatti: 
“Entre 1796 a 1865, Giovanni Battista Bugatti executou 516 condenados, mais do que 45 por assassinato. Alguns deles foram enforcados, outros guilhotinados e outros decapitados com um machado. No caso de crimes especialmente hediondos, os métodos de execução eram ainda mais severos. Alguns criminosos tiveram suas cabeças esmagadas com um martelo, após suas gargantas haverem sido cortadas; outros eram amarrados e esquartejados.Quem foi Bugatti? Foi o executor oficial dos Estados Papais, que cumpriu seu trabalho como um leal servo do Santo Padre1. De fato [realmente] os papas e a Igreja foram participantes ativos nos processos de execução, que eram altamente ritualizados e realizados com elevada significância espiritual. Na manhã da execução, o Papa recitava uma oração especial pelo condenado. Um sacerdote ouvia a confissão de Bugatti e lhe administrava a Sagrada Comunhão. Nas horas que antecediam a execução, uma ordem especial dos monges atendia as necessidades espirituais do criminoso, incentivando-o a confissão e ao arrependimento enquanto havia tempo e oferecendo-lhe os [últimos] sacramentos. Eles então o conduziam ao local da execução em uma procissão solene. Avisos nas igrejas locais pediam aos fiéis que rezassem por sua alma. Enquanto a sentença era cumprida, os monges apresentavam o crucifixo a vista do condenado para que ele fosse a última coisa que visse antes da morte. Tudo era feito para que o criminoso recebesse sua justa punição e para que a salvação de sua alma fosse garantida."
Seis Papas reinaram durante a carreira de Bugatti: Pio VI, Pio VII, Leão XII, Pio VIII, Gregório XVI, Pio IX, e nenhum deles viu qualquer erro em seu ofício, pelo contrário, após sua aposentadoria, o compensaram com reconhecimentos solenes pelos serviços prestados à Igreja.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A extraordinaria aparição de Nossa Senhora de Guadalupe




Relato do Século XVI

        Num sábado de mil e quinhentos e trinta e um, perto do mês de dezembro, um índio de nome Juan Diego, mal raiava a madrugada, ia do seu povoado a Tlatelolco, para participar do culto divino e escutar os mandamentos de Deus. Já amanhecia, quando chegou ao cerrito chamado Tepeyac e escutou que do alto o chamavam:

- Juanito! Juan Dieguito!

Subiu até o cimo e viu uma senhora de sobre-humana grandeza, cujo vestido brilhava como o sol, e que, com voz muito branda e suave, lhe disse:

- Juanito, menor dos meus filhos, fica sabendo que sou Maria sempre Virgem, Mãe do verdadeiro Deus, por quem vivemos. Desejo muito que se erga aqui um templo para mim, onde mostrarei e prodigalizarei todo o meu amor, compaixão, auxílio e proteção a todos os moradores desta terra e também a outros devotos que me invoquem confiantes. Vai ao Bispo do México e manifesta-lhe o que tanto desejo. Vai e põe nisto todo o teu empenho.

Chegando Juan Diego à presença do Bispo Dom Frei Juan de Zumárraga, frade de São Francisco, este pareceu não dar crédito e respondeu:

- Vem outro dia, e te ouvirei com mais calma.

Juan Diego voltou ao cimo do cerro, onde a Senhora do céu o esperava, e lhe disse:

- Senhora, menorzinha de minhas filhas, minha menina, expus a tua mensagem ao Bispo, mas parece que não acreditou. Assim, rogo-te que encarregues alguém mais importante de levar tua mensagem com mais crédito, porque não passo de um joão-ninguém.

Ela respondeu-lhe:

- Menor dos meus filhos, rogo-te encarecidamente que tornes a procurar o Bispo Amanhã dizendo-lhe que eu própria, Maria sempre Virgem, Mãe de Deus, é que te envio.

Porém no dia seguinte, domingo, o Bispo de novo não lhe deu crédito e disse ser Indispensável algum sinal para poder-se acreditar que era Nossa Senhora mesma que o enviara. E o despediu sem mais aquela.

Segunda-feira, Juan Diego não voltou. Seu tio Juan Bernardino adoecera gravemente e à noite pediu-lhe que fosse a Tlatelolco de madrugada, para chamar um sacerdote que o ouvisse em confissão.

Juan Diego saiu na terça-feira, contornando o cerro e passando pelo outro lado, em direção ao Oriente, para chegar logo à Cidade do México, a fim de que Nossa Senhora não o detivesse. Porém ela veio a seu encontro e lhe disse:

- Ouve e entende bem uma coisa, tu que és o menorzinho dos meus filhos: o que agora te assusta e aflige não é nada. Não se perturbe o teu coração nem te inquiete coisa alguma. Não estou aqui, eu, tua mãe? Não estás sob a minha sombra? Não estás porventura sob a minha proteção? Não te aflija a doença do teu tio. Fica sabendo que ele já sarou. Sobe agora, meu filho, ao cimo do cerro, onde acharás um punhado de flores que deves colher e trazer-mo.

Quando Juan Diego chegou ao cimo, ficou assombrado com a quantidade de belas rosas de Castela que ali haviam brotado em pleno inverno; envolvendo-as em sua manta, levou-as para Nossa Senhora. Ela lhe disse:

- Meu filho, eis a prova, o sinal que apresentarás ao Bispo, para que nele veja a minha vontade. Tu é o meu embaixador, digno de toda a confiança.

Juan Diego pôs-se a caminho, agora contente e confiante em sair-se bem de sua missão. Ao chegar à presença do Bispo, lhe disse:

- Senhor, fiz o que me ordenaste. Nossa senhora consentiu em atender o teu pedido. Despachou-me ao cimo do cerro, para colher ali várias rosas de Castela, trazê-las a ti, entregando-as pessoalmente. Assim o faço, para que reconheças o sinal que pediste e assim cumpras a sua vontade. Ei-las aqui: recebe-as.

Desdobrou em seguida a sua branca manta. À medida em que as várias rosas de Castela espalhavam-se pelo chão desenhava-se no pano e aparecia de repente a preciosa imagem de Maria sempre Virgem, Mãe de Deus, como até hoje se conserva no seu templo de Tepeyac.

A cidade inteira, em tumulto, vinha ver e admirar a sua santa imagem e dirigir-lhe suas preces. Obedecendo à ordem que a própria Nossa Senhora dera ao tio Juan Bernardino, quando devolveu-lhe a saúde, ficou sendo chamada como ela queria: "Santa Maria sempre Virgem de Guadalupe".


     (D. Antonio Valeriano, Nican Mopohua, 12ª edición, Buena Prensa, México, D.F., 1971, p. 3-19.21)

sábado, 10 de novembro de 2018

A Igreja e o Sionismo


Francisco deposita flores no tumulo de Theodore Herzl

             Em 2014, o Papa Francisco esteve em Israel, e na ocasião, gestos de grande valor simbólico marcaram o encontro com os judeus. Em um momento, Francisco beijava as mãos de líderes sionistas, em outro, depositava flores no túmulo do fundador do sionismo moderno, Theodore Herzl.

               Pela primeira vez na história um Pontífice prestava tal homenagem a Herzl, e pela força dos gestos, muitos viram neles um sinal de “aprovação” da Igreja ao sionismo.

Francisco beija as mãos de líderes sionistas

No entanto, há exatos 114 anos, Theodore Herzl teve uma resposta muito diferente da Igreja às suas ideias. Em um encontro que o líder sionista teve com o papa Pio X em busca de apoio para sua luta, Pio X não fora muito complacente com suas propostas, e com palavras duras as rejeitou, como o próprio Herzl descreveu em seu diário:

Theodore Herzl

“Ontem estive com o Papa. O itinerário já era familiar, já que eu o havia refeito com Lippay várias vezes. Passadas a guarda suíça, que pareciam clérigos, e clérigos que pareciam guardas, os secretários e a corte papal. Cheguei 10 minutos mais cedo e sequer tive que esperar. Fui conduzido por numerosas salas até o Papa.
Ele me recebeu de pé, estendendo sua mão, a qual não beijei. Lippay dissera-me que o fizesse, mas não o fiz. Creio desagradei ao Papa por isso, pois todos que o visitam se ajoelham e ao menos beijam sua mão. Esse beijo causou-me muita preocupação. Alegrei-me quando, finalmente, ficou para trás no caminho.
Ele se sentou em uma poltrona, um trono para ocasiões menores. E depois, convidou-me a sentar próximo a ele, sorrindo em amigável antecipação.
Comecei:
“Agradeço Vossa Santidade pela delicadeza de me haver concedido esta audiência”.
“É um prazer,” disse ele com uma gentil desaprovação.
Pedi desculpas por meu pobre italiano, porém, ele afirmou:
“No, parla molto bene, signor Commendatore [Não, comendador, falas muito bem]”.
Pois eu havia colocado pela primeira vez – a conselho de Lippay – minha fita da Ordem de Medjidié, consequentemente, o Papa sempre se dirigia a mim como Comendador.
Ele é um grosseiro, mas bom padre de aldeia, para quem o cristianismo permanece como algo vivo, mesmo no Vaticano.
Coloquei brevemente meu pedido a ele. No entanto, possivelmente contrariado com minha recusa de lhe beijar a mão, respondeu rígida e resolutamente:
“Não... Não podemos aprovar este movimento. Não podemos impedir os judeus de irem a Jerusalém – mas nunca poderemos favorecê-lo. A terra de Jerusalém, se não foi sempre santa, foi santificada pela vida de Jesus Cristo. Eu, como chefe da Igreja, não posso dizer outra coisa. Os judeus não reconheceram Nosso Senhor, por isso não podemos reconhecer o povo judeu”.
Logo, o conflito entre Roma, representada por ele, e Jerusalém, representada por mim, estava novamente aberto.
No início, de fato, tentei ser conciliador. Recitei minha pequena nota sobre a extraterritorialização, res sacrae extra commercium [os lugares santos fora de negócio]. Não fez mais que uma impressão. Jerusalém, disse ele, não deve cair nas mãos dos judeus.
“E o estado atual, Santo Padre?”
“Eu sei, não agrada ver os turcos na posse dos Lugares Santos. Nós simplesmente temos que nos conformar com isso. Mas apoiar os judeus na conquista dos Lugares Santos, isso não podemos”.
Disse que nosso ponto de partida fora somente o sofrimento os judeus e que desejávamos evitar as questões religiosas.
“Sim, mas nós, e eu, como chefe da Igreja, não podemos fazer isso. Há duas possibilidades. Ou os judeus se agarrarão a sua fé e continuarão a esperar o Messias que, para nós, já chegou. Neste caso, eles estarão negando a divindade de Jesus e nós não podemos ajudá-los. Ou eles irão para lá sem qualquer religião e, então, muito menos ainda poderemos favorecê-los.
“A religião judaica foi o fundamento da nossa; mas ela foi substituída pelos ensinamentos de Cristo e nós não podemos lhe conceder qualquer validade. Os judeus, que deveriam ter sido os primeiros a reconhecer Jesus Cristo, não o fizeram até hoje”.
Estava na ponta da minha língua para dizer, “É o que acontece em toda família. Ninguém acredita em seus próprios parentes”, mas, pelo contrário, disse: “O terror e a perseguição podem não ter sido os melhores maios para esclarecer os judeus”.
Mas ele respondeu, e dessa vez ele foi grandioso em sua simplicidade:
“Nosso Senhor veio sem poder. Era povero [era pobre]. Veio in pace [em paz]. Ele não perseguiu ninguém, antes, foi perseguido.
Ele foi abandonado até por seus apóstolos. Somente depois ele cresceu em estatura. Foram três séculos para a Igreja desabrochar. Os judeus, portanto, tiveram tempo para reconhecer sua divindade sem qualquer pressão. Mas eles não o fizeram até hoje”.
-- “Mas, Santo Padre, os judeus estão em terríveis apuros. Não sei se Vossa Santidade tem ciência de toda a extensão dessa triste situação. Precisamos de uma terra para essas pessoas perseguidas”.
“E tem que ser Jerusalém?”
“Não estamos pedindo por Jerusalém, mas pela Palestina – apenas a terra secular”.
“Não podemos ser favoráveis a isso”.
“Vossa Santidade conhece a situação dos judeus?”
“Sim, da minha época em Mântua. Há judeus vivendo lá. E eu sempre tive boas relações com judeus. Há apenas algumas noites dois judeus estavam aqui para me visitar. No fim das contas, há outros vínculos além dos da religião: cortesia e filantropia. Isso nós não negamos aos judeus. De fato, nós também rezamos por eles: que suas mentes sejam esclarecidas. Hoje mesmo a Igreja está celebrando a festa de um incrédulo que, a caminho de Damasco, converteu-se miraculosamente à verdadeira fé. Então, se fores a Jerusalém e estabeleceres teu povo ali, teremos igrejas e padres prontos para batizar todos vós”.

 Harry Zohn (New York/London: Herzl Press, Thomas Yoseloff, 1960)

ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...