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sábado, 12 de fevereiro de 2022

A crise na Igreja

 


Seria preciso cobrir os olhos para não ver que a Igreja Católica sofre uma grave crise. Esperava-se, nos anos sessenta, na época do Concílio Vaticano II, uma nova primavera para a Igreja, mas foi o contrário que aconteceu. Milhares de padres abandonaram seu sacerdócio; milhares de religiosos e de religiosas retornaram à vida secular. Na Europa e na América do Norte, as vocações se tornam raras, e não se pode nem mais computar o número de seminários, conventos e casas religiosas que tiveram que fechar. Muitas paróquias permanecem sem padre e as congregações religiosas devem abandonar escolas, hospitais e asilos para idosos. “Por alguma fissura, a fumaça de Satanás entrou no Templo de Deus” – essa era a queixa do Papa Paulo VI em 29 de junho de 1972.

No conjunto da Igreja, entre 1962 e 1972, 21.320 padres foram reduzidos ao estado leigo. Não estão incluídos neste número aqueles que negligenciaram pedir uma redução oficial ao estado leigo. Entre 1967 e 1974, trinta a quarenta mil padres teriam abandonado sua vocação. Esses fatos catastróficos podem, com algum esforço, ser comparados com os acontecimentos que acompanharam a auto-intitulada “Reforma” protestante do século XVI.

Havia na França, nos anos cinqüenta, por volta de mil ordenações sacerdotais por ano. Desde os anos noventa, não há mais de cem por ano. Havia 41000 padres diocesanos na França em 1965. Não havia mais de 16859 em 2004, e a maioria tem mais de 60 anos. O número de religiosos no mundo continua a diminuir.




- Catecismo da Crise na Igreja – Pe. Matthias Gaudron, P. 7,8.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O dia em que uma oração mariana arrebatou o coração de Alexandre Dumas



        Alexandre Dumas não pode ser considerado nenhum exemplo de católico. No entanto, ele nos legou um dos mais sublimes relatos dos encantos que a devoção mariana irradiava em tempos pretéritos. Nos relatos de sua viagem a bordo do Le Speronare (nome que serviu de título à obra citada), o afamado autor francês relata a oração ao por-do-sol entoada por marinheiros na costa da Sicília que inebriou sua alma por alguns instantes. Eis o relato: 

“A Ave-Maria”. –– disse o capitão em alta voz. 

A estas palavras, cada qual saiu das escotilhas e dirigiu-se ao convés.

De um extremo ao outro da Itália, essa oração, que cai em uma hora solene, encerra o dia e abre a noite. [Na Itália, o Ângelus não é rezado necessariamente em hora fixa, às 18:00 horas, mas ao anoitecer] 

Esse momento do crepúsculo, em toda parte cheio de poesia, no mar é acrescido de uma santidade infinita. Essa misteriosa imensidade do ar envolvente e das ondas, esse sentimento profundo da fraqueza humana comparada ao poder onipotente de Deus, essa escuridão que avança, e durante a qual o perigo, sempre presente, vai crescer ainda mais, tudo isso predispõe o coração a uma melancolia religiosa, a uma confiança santa que soergue a alma nas asas da fé. Essa tarde, sobretudo o perigo do qual acabáramos de escapar e que nos era lembrado de tempos em tempos por uma onda encapelada ou mugidos longínquos.

Tudo inspirava à tripulação e a nós mesmos um profundo recolhimento. No momento em que nos juntávamos no convés, a noite começava a tornar-se mais espessa no oriente; as montanhas da Calábria e a ponta do cabo de Pelora perdiam sua bela cor azul para se confundir em uma tintura acinzentada que parecia descer do céu, como se estivesse caindo uma fina chuva de cinzas. Enquanto no ocidente, um pouco à direita do Arquipélago de Lipari, cujas ilhas de formas extravagantes destacavam-se com vigor sobre um horizonte de fogo, o sol alargado e listrado de longas faixas violetas começava a embeber a orla de seu disco no Mar Tirreno, que, cintilante e movimentado, parecia rolar ondas de ouro derretido.

Nesse momento, o piloto levantou-se, tomou em seus braços o filho do capitão, que pôs de joelhos sobre o teto da cabine; e, abandonando o leme como se a embarcação estivesse suficientemente dirigida pela oração, sustentou o menino para que o balanço não lhe fizesse perder o equilíbrio.

Esse grupo singular destacou-se logo sobre um fundo dourado, semelhante a uma pintura célebre; e com uma voz tão fraca, que apenas chegava até nós, e que, entretanto, acabava de subir até Deus, começou o menino a recitar a prece virginal que os marinheiros escutavam de joelhos e nós inclinados.

Eis uma dessas lembranças para as quais o pincel é fácil e a pena insuficiente. Eis uma dessas cenas que narração alguma pode descrever, que nenhum quadro pode reproduzir, porque sua grandeza está inteira no sentimento íntimo dos atores que a realizam. Para um leitor de viagens ou um amante das coisas do mar, não será senão uma criança que reza, homens que respondem e um navio que flutua.

Mas, para qualquer pessoa que tiver assistido a uma cena parecida, será um dos mais magníficos espetáculos que ela tenha visto, uma das mais magníficas lembranças que ela tenha guardado; será a fraqueza que reza, a imensidade que olha, e Deus que escuta”.

O relato de Dumas demonstra que, diante de um ato de verdadeira fé, poucos podem manter-se indiferentes.

sábado, 10 de abril de 2021

O Privilégio do Branco: Porque somente a sete mulheres é permitido usar branco diante do Papa

 


Rainha Helena do Montenegro, de Itália, e Princesa Herdeira Maria José da Bélgica usando indumentária branca na presença do Papa Pio XII no Palácio do Quirinal, a 27 de dezembro de 1939
.


Por séculos se conserva uma tradição nos encontros oficiais com o Papa em distinguir algumas poucas mulheres com o uso do branco durante o encontro. A tradição conhecida como privilège du blanc (Privilégio do Branco), que consiste no uso de véu, mantilha e um vestido alvo, atualmente é reservado a apenas sete mulheres, que preenchem os requisitos para o uso da tradição. 

São elas: 

A Rainha Sofia da Espanha

A Rainha Paola da Belgas

Maria Teresa, grã-duquesa de Luxemburgo

A Princesa de Monaco

Rainha  Matilde da Belgica

Rainha Letizia da Espanha 

A Princesa de Napoles

Este privilégio é concedido apenas às soberanas católicas, com as seguintes condições: as mulheres devem professar publicamente a fé católica e serem casadas com monarcas católicos. Para a maioria das mulheres, nos encontros protocolares com o Sumo Pontífice, a cor oficial é o preto. 

 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

A Apostasia de Roma segundo um Cardeal


Cardeal H. Edward Manning (1888, Inglaterra, 1892)


A apostasia da cidade de Roma através do vigário de Cristo, e sua destruição pelo Anticristo, pode ser um pensamento tão novo para muitos católicos que eu penso que seria bom recordar o texto dos teólogos de maior reputação. Primeiro, Malvenda que escreve expressamente sobre o assunto, e declara, assim como a opinião de Ribera, Gaspar Melus, Viegas, Suarez, Belarmino e Bosius que Roma deve apostatar da fé, afugentar o vigário de Cristo e retornar ao seu antigo paganismo. As palavras de Malvenda são: “Mas a própria Roma nos últimos tempos do fim do mundo retornará a sua antiga idolatria, grandeza e poder imperial. Ela expulsará seu pontífice, completamente apostata da fé cristã, perseguirá terrivelmente a Igreja, derramará o sangue dos mártires com mais crueldade do que nunca, e recuperará seu estado anterior de abundante riqueza, ou até maior do que tinha sob seus primeiros governantes”. 

Lessius diz: “nos tempos do Anticristo, Roma deverá ser destruída, como vemos abertamente no décimo terceiro capítulo do livro do Apocalipse;” e outra vez: “A mulher a quem vistes é a grande cidade, que tem o reino acima dos reis da terra, na qual é significada Roma em sua impiedade, tal como foi no tempo de São João, e deverá ser outra vez no fim do mundo.”  E Belarmino: “No tempo do Anticristo, Roma deverá ser desolada e queimada, como aprendemos do décimo sexto verso do décimo sétimo capítulo do Apocalipse.” Palavras nas quais o jesuíta Erbermann comenta como se segue: “Todos nós confessamos com Belarmino que o povo romano, um pouco antes do fim do mundo, retornará ao paganismo e expulsará o romano pontífice”. 

Viegas, sobre o capítulo XVIII do Apocalipse diz: “Roma, na última era do mundo, após ter apostatado da fé, alcançará grande poder e esplendor de riqueza, e sua influência será amplamente difundida por todo o mundo, e florescerá grandemente. Vivendo na luxúria e abundância de todas as coisas, ela cultuará ídolos e mergulhará em todo tipo de superstição, e prestará honra a falsos deuses. E por causa da vasta efusão do sangue dos mártires que foi derramado sob os imperadores, Deus irá vinga-los com mais severidade e justiça, e ela será totalmente destruída, e queimada por um terrível e tormentoso incêndio”.   

Finalmente, Cornélio, a lápide, resume o que pode ser dito como a interpretação comum dos apóstolos. Comentando sobre o mesmo capítulo XVIII do Apocalipse, ele diz: “Estas coisas são para ser entendidas da cidade de Roma, não aquela que é, nem aquela que foi, mas aquela que deverá ser no fim do mundo. Pois, a então cidade de Roma retornara à sua antiga glória, e da mesma forma a sua idolatria e outros pecados, e deverá ser tal qual ela foi no tempo de São João, sob Nero, Domitiano, Décio etc. Pois, de cristã ela deve se tornar outra vez pagã. Deve lançar fora o pontífice cristão e o fiel que adere a ele. Deverá perseguir e arrasá-los. Deverá rivalizar com a perseguições dos imperadores pagãos contra os cristãos... Pois, assim como vemos, Jerusalém foi primeiro pagã sob os cananeus; segundo, fiel sob os judeus; terceiro, cristã sob os apóstolos; quarto, pagã sob os romanos; e quinto, sarracena sob os turcos”.

Tal, eles acreditam, será a história de Roma: Pagã sob os imperadores; cristã sob os apóstolos; fiel sob os pontífices; apostata sob a Revolução e pagã sob o Anticristo. Somente Jerusalém poderia pecar tão formalmente e cair tão baixo; pois só Jerusalém foi tão escolhida, iluminada e consagrada. E como nenhum povo já foi tão intenso em suas perseguições a Jesus como os judeus, então eu temo que nenhum será mais implacável contra a fé do que os romanos.     


- Cardinal Henry Edward Manning, The Present Crisis of The Holy See tested by prophecies, London: Burns&Lambert, 1861. Tradução minha

domingo, 5 de abril de 2020

Jejum Dominical? Qual a orientação da Igreja?






       Um grande reboliço se formou sobre a licitude do jejum e da penitência no Domingo, após a convocação nacional para esta pratica num Domingo de Ramos. O jejum, conforme observa Sto Tomás, é ordenado por dois motivos: “Delir a culpa e elevar a mente às coisas espirituais” (Suma Teológica, II-II, Q. 147, Art. 5) E neste sentido, podemos dizer que o chamado à pratica por parte de nossas autoridades é extremamente louvável, especialmente em tempos tão tormentosos como estes que ora atravessamos. No entanto, a data escolhida não foi a mais adequada (Domingo de Ramos). Cabe ainda ressaltar que o presidente, a quem é imputado a origem da convocação, não indicara o domingo como o dia para o ato; sua intenção fora a de propor um dia de abstinência para “gente ficar livre desse mal o mais rápido possível” (referindo-se ao coronavírus), conforme suas palavras. A indicação do domingo partiu de parlamentares e líderes pentecostais e, rapidamente ganhou repercussão.

No entanto, sabemos que faz parte da tradição da Igreja abster-se de jejum e penitência em dias de solenidade e aos Domingos, onde o maior jubilo da cristandade é celebrado. E essa percepção remonta aos primeiros séculos do cristianismo. 

O Sínodo de Gangra, ocorrido em 340, terceiro século da era cristã, condenava de forma enfática a prática do jejum e da penitência no domingo: “Se alguém sob pretensão de ascetismo, jejuar no domingo, seja anátema” (Canon XVIII). Evidentemente, a condenação não ficara desprovida de grandes controvérsias, que inclusive saltaram daquele tempo para nossas redes sociais em defesa da convocação. Santo Agostinho, que inclusive é citado em defesa do Jejum no Domingo, afirmou um século depois do supracitado concílio: “Omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia”. (Epistula 55, 28). E o mesmo santo, nos deixara ainda esta frase mais enfática sobre o assunto: “Jejuar em dia de domingo é grande escandá-lo” (Carta a Casulano, 36, 27. 396)
E tais controversias tiveram lugar em uma época em que a Igreja combatia diversas heresias, entre as quais, o marcionismo, cerdonismo, priscilianismo e o maniqueismo, que tinham por hábito jejuar aos domingos, exigindo leis enérgicas, como a que fora promulgada em um cânon do Concílio de Braga (561-563) onde se dizia: “Se alguém não venera de verdade o dia do nascimento de Cristo segundo a carne, mas finge venerá-lo, jejuando nesse dia e no domingo, porque não crê que Cristo tenha nascido da verdadeira natureza do homem, como o disseram Cerdon, Marcião, Maniqueu e Prisciliano, seja anátema” (Papa Julio III, I Sínodo de Braga, 1 de maio de 561)
Houve algumas mitigações com o tempo, mas a compreensão da matéria sempre foi a mesma, sendo posteriormente consagrada no velho Código de Direito Canônico (1917) –– substituído em 1983 com a promulgação do novo código por João Paulo II ––, no seguinte Cânon: “Aos Domingos e dias de preceito (exceto dias de preceito durante a Quaresma), as leis do jejum e da abstinência não se vinculam” (Can. 1252, § 4) O que todavia, o novo Código, embora tenha suprimido, nos deixou indícios de que esta compreensão permanece, conforme nos indica João Paulo II em sua encíclica Dies Domini: "Historicamente, ainda antes de ser vivido como dia de repouso aliás não previsto então no calendário civil — os cristãos viveram o dia semanal do Senhor ressuscitado sobretudo como dia de alegria. “Que todos estejam alegres, no primeiro dia da semana”: lê-se na Didascália dos Apóstolos (100). A manifestação da alegria era visível também no uso litúrgico, mediante a escolha de gestos apropriados (101).  

Sto. Agostinho, fazendo-se intérprete da consciência geral da Igreja, põe em evidência tal caráter da Páscoa semanal: “Omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia.” (nº 55)

E por que não se deve jejuar no domingo? 

Conforme fora dito na referida citação, o domingo é o dia da alegria da ressurreição e da vida, o dia em que os dissabores de uma vida de penitência costumam ser mitigados, com espaço para raras exceções, como as impostas pela própria graça sobrenatural aos santos penitentes que viveram uma vida ininterrupta de penitência.
Por outro lado, os defensores do suposto chamado presidencial, servindo-se de Sto Tomás, e até de Sto Agostinho, costumam mencionar um trecho dos comentários do santo doutor aos Dez Mandamentos, onde se lê: “[no Domingo também] devemos afligir nosso corpo com com jejuns (...) e isto duas vezes mais do que nos outros dias".
Todavia, neste trecho, Sto Tomás refere-se ao que ele chama de “jejum por alegria”, que ele distingue do “jejum por penitência” –– “impróprio dos dias de alegria” (cf. idem) –– conforme está exposto na Suma Teológica (II-II, Q. 14, art. 5), onde o santo doutor afirma: “A Igreja não obriga a nenhum jejum em todo o tempo Pascal, nem nos dias de domingo. E não estaria isento de pecado quem jejuasse em tais dias, contra o costume do povo cristão, que como diz Agostinho, deve ser tido como lei; ou o fizesse por algum erro como o praticam os Maniqueus, que julgam necessário tal jejum. Contudo, o jejum em si mesmo é louvável em todo tempo, conforme o diz Jerônimo: Oxalá pudéssemos jejuar sempre!” (ibidem)

Leve-se em conta também o fato de que, somos obrigados, há algumas horas antes da comunhão eucarística, em conservar uma abstinência temporária de alimentos, que não deve ser interpretada como jejum ou penitência. Mas isso não vem ao caso. O fato é que o Domingo não é dia para jejum e penitência, embora, a Igreja não julga que peca aquele que assim proceda.  


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*A doutrina oficial da Igreja determina como obrigatória o jejum e a abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira santa, a todo indivíduo maior de 18 anos, (sendo facultado a partir dos 14 anos completo) e em plena posse de suas faculdades mentais, derivando daí, a necessidade de se fazer o mesmo nas sextas e quartas do ano, salvo os dias em que solenidades sejam celebradas nestes dias.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A Devoção Tupiniquim






            Gilberto Freyre, em seu clássico "obrigatório" para o academicismo brasileiro[i], observa que no prelúdio de nosso desenvolvimento social se verificou "uma profunda confraternização de valores e sentimentos" que jamais teria ocorrido se "outro tipo de cristianismo tivesse dominado a formação social do Brasil; um tipo mais clerical, mais ascético, mais ortodoxo; calvinista ou rigidamente católico; diverso da religião doce, doméstica, de relação quase de família entre os santos e os homens, que das capelas patriarcais das casas-grandes, das igrejas sempre em festas -- batizados, casamentos, "festas de bandeiras" de santos, de crismas, novenas -- presidiu o desenvolvimento social brasileiro"[ii]. O colonizador português que ancorou em terras brasileiras não era o mais fervoroso e consciente dos católicos europeus, o que não o faria imune, como diz Freyre, "ao contágio de um misticismo quente, voluptuoso, de que se tem enriquecido a sensibilidade, a imaginação, a religiosidade dos brasileiros". Deste "tipo de cristianismo", híbrido e disforme, que une nas festas populares o sagrado e o profano de forma tão íntima que é difícil, até ao observador mais atento, distinguir onde começa um termina o outro, se perpetuou no padrão de religiosidade que se encontra no Brasil. Um catolicismo que estabelece uma estranha relação com os santos que está muito longe de merecer o honroso título de devoção.

Para esta espécie de "fiel", cada santo tem uma função utilitarista em sua vida, geralmente sem muito vínculo com sua missão real. Sta Luzia, por exemplo, para o católico popular brasileiro, é "a santa que cura os olhos"; S. Brás, "o santo que cura a garganta"; Sta Rita de Cássia, "a santa dos casos impossíveis". Assim o povo vê e se relaciona com os santos e, a este modo de relacionamento, ele chama de "devoção". Uma "devoção" fundada no interesse material (sic) e despida de qualquer interesse no aspecto místico da figura sagrada.
Conversei outra vez com uma dessas senhoras "devotas" que costuma ser presença marcante nas festividades. Ela, de modo muito natural, me falava dos santos de sua devoção (ou devolução?)
Cada santo, a que ela tinha alguma "devoção", lhe tinha prestado algum favor. Sobre Sta Rita de Cássia, ela me dizia que lhe era devota porque lhe havia solucionado alguns problemas conjugais. Disse também que era devota de Sta Luzia porque esta lhe havia "curado uma doença nos olhos", e também era devota de S. Pedro porque lhe havia livrado de um naufrágio.
E esta senhora, voltando-se para mim, me perguntou:
– E tu, meu jovem, não tens nenhum santo de devoção?
Respondi-lhe que sim:
– S. Francisco de Assis!
Ela demonstrando interesse, acrescentou:
– Ah, ele cura a lepra, né?
– Não sei! Mas sei que ele cuidou de muitos leprosos
E continuei: “Também sou devoto de S. Bernardo”.
Ela meio que desapontada, me diz:
– Esse eu não conheço, ele cura o quê?
– Não sei o que ele cura, mas sei que ele amou muito a Deus e lutou muito em defesa da fé.
"Ah...," ela exclamou decepcionada.
Por fim, lhe disse que também era devoto de S. Bento, e ela sem titubear, acrescentou:
– Esse eu conheço, é contra picada de cobra e animais peçonhentos!
***
Um catolicismo postiço e sincrético como o brasileiro constitui-se algum obstáculo ao avanço revolucionário? 
Muito se ouve dizer, a respeito de nosso país que "nosso povo é cristão e certas ideologias não hão de prosperar em seu meio". Mas, os fatos depõe contra isso. As grandes revoluções sempre despontaram em países muito religiosos. Isso porque, a religiosidade de um povo não somente pode ser vencida pelos demagogos revolucionários como pode ser um dos elementos mais explorados por eles. As duas nações, à época, mais religiosas do mundo, a França da era jacobina e a santa Rússia dos Czares, viviam momentos de grande efervescência religiosa quando as duas famosas revoluções estouraram em seus meios. E o que se dizer da Cuba, eivada de catolicismo fruto do ardor missionário de Sto Antônio Maria Claret? Até a época de Fidel, a Cuba era um país de vasta maioria católica. Da mesma forma que o comunismo prosperou em regiões altamente religiosas, nota-se que países com pouca religiosidade sempre foram muito inférteis para revoluções.

Parece-me que a ignorância de um povo mostra-se o verdadeiro fator de crescimento revolucionário em seu meio. O Brasil, apresenta-se como país católico, mas é lamentável o gênero de católico que habita estas terras. Totalmente ignorantes de sua fé e escravos das grandes mídias. E tal ignorância não se restringe aos leigos, atinge também boa parte do clero. 
O que se dizer de tudo isso? Primeiro, que a ação revolucionaria não vai buscar os religiosos conscientes, formados e saturados de apologética... Vai buscar os mais vulneráveis: os humildes, semi-letrados, alvos fáceis para um demagogo com boas promessas. E de fato, são estes que tem sucumbido a ideologia nefasta do comunismo. Não são as regiões mais desenvolvidas do país que tem abraçado as doutrinas vermelhas. 






[i] Casa-Grande&Senzaa
[ii] Gilberto Freyre, Casa-Grande&Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal.51º Ed. São Paulo: Global, 2006, p. 438


domingo, 1 de dezembro de 2019

O Pedido de Ano Novo de São Pedro Julião Eymard




por S. Pedro Julião Eymard

Que venha o teu reino! Que ele se espalhe por toda parte: que ganhe prestígio; que progrida em todos os sentidos! É isso que devemos pedir a Nosso Senhor neste dia de Ano Novo. Que Ele seja conhecido e amado por aqueles que não O conhecem nem o amam! Que todos completem em si a obra da Encarnação e da Redenção! E onde Nosso Senhor é conhecido e amado? Ah! Quão pequeno é o reino de Jesus Cristo! Muitos de Seus direitos e os de Sua Igreja foram retirados ou restringidos nos últimos três séculos! Eles expulsam nosso Senhor e O privam de Seu povo e Suas igrejas. Quão numerosas são essas ruínas eucarísticas!
Tantas nações nunca tiveram a fé! Como nosso Senhor estabelecerá Seu reino entre eles? Um santo poderia fazer isso. Deseje ao nosso Senhor bons sacerdotes, apóstolos reais. Esse deve ser o objeto constante de nossa oração. Esses pobres infiéis não conhecem nem o Pai Celestial, nem a terna Mãe, nem o Salvador Jesus; e nós os deixamos nessa triste situação! Oh! Que desumano da nossa parte! Com nossas orações, ajudemos a espalhar o reino de nosso Senhor por toda parte. Oremos para que os pagãos recebam fé e conheçam seu Salvador; que os hereges e os cismáticos possam voltar ao redil e ouvir mais uma vez a voz do Bom Pastor.
Qual é o estado do reino de Jesus Cristo entre os católicos? Ore incessantemente pela conversão de maus católicos, que quase não têm mais fé. Ore para que aqueles que têm fé possam mantê-la. E você que tem sua própria família, ore para que todos os seus membros permaneçam firmes em sua fé; enquanto eles mantem esse remanescente de união com nosso Senhor, há esperança. Enquanto Judas permaneceu com o Salvador, ele tinha em mãos a oportunidade e os meios de salvação; uma palavra dele seria suficiente. Mas quando ele deixou Nosso Senhor, ele capitulou e se precipitou até o fundo do abismo. Ore, portanto, sinceramente pela preservação de sua fé em pelo menos um dos mistérios de Jesus Cristo. Sei que as pessoas costumam dizer: "É melhor ser um bom protestante do que um mau católico". Isso não é verdade. Isso significaria, no fundo, que alguém poderia ser salvo sem a verdadeira fé. Não! Um mal católico continua sendo um filho da família, embora seja pródigo e, por mais pecador que seja, ele ainda tem direito à misericórdia. Por sua fé, um mal católico está mais próximo de Deus do que um protestante; pois ele é um membro da família, enquanto o herege não é; e quão difícil é fazê-lo se tornar um!
Para trabalhar pela preservação da fé, fale a língua de um cristão, a língua da fé. Transforme o discurso do mundo. Por meio de uma tolerância pecaminosa, permitimos que nosso Senhor fosse banido dos costumes, leis e boas maneiras; em uma reunião social mista, aquele não se atreve a falar de Jesus Cristo. Mesmo entre os cristãos práticantes, deveríamos parecer peculiar se falássemos de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Existem tantos, assim diz a desculpa, que não cumprem seu dever de Páscoa ou não vão à missa pois tem medo de ferir os sentimentos de algum hóspede, ou mesmo do anfitrião, que pode ser um deles. Pode-se falar de arte religiosa, verdades morais, belezas da religião, mas sobre Jesus Cristo, sobre a Eucaristia, nunca. Bem, mude tudo isso. Professe sua fé abertamente. Seja corajoso o suficiente para dizer: "Nosso Senhor Jesus Cristo", nunca apenas "Cristo"! Devemos provar o direito de nosso Senhor de viver e governar na linguagem da sociedade. É uma desgraça para os católicos manter nosso Senhor debaixo do alqueire da maneira que eles fazem. Nós devemos manifestá-lo em toda parte. Quem professa sua fé com ousadia e ousa falar o nome de Jesus Cristo, coloca-se no poder de sua graça. Em público, todos devem saber no que acreditamos.
Os ateus transmitem seus princípios ímpios; eles se gabam de não acreditar em nada; e teremos medo de declarar nossa fé e pronunciar o nome de nosso Divino Mestre? Você deve falar dele em público; pois esses pobres homens ímpios são possuídos pelo diabo, ou, pelo menos, obcecados. Bem, contra esses demônios, use o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se todos os fiéis adotassem a resolução de falar sem medo de nosso Senhor, eles logo transformariam o mundo; eles levariam as pessoas a pensar n’Ele naturalmente.
Está chegando o grande dia em que os dois exércitos se enfrentarão. O ecletismo se foi, graças a Deus! Nós devemos ser bons ou maus; devemos ser por Jesus Cristo ou por Satanás. Bem, proclame Jesus Cristo e fale Seu nome. O nome dele é o teu estandarte; leve-o com nobreza. Que o Senhor esteja dentro de vós, em sua alma. Nosso Senhor está em vós, mas Ele tem muito o que fazer antes que possa reinar completamente em ti. Tu mal venceu a si mesmo; o reino de paz e amor de nosso Senhor ainda não está estabelecido em você; as linhas de fronteira ainda não são todas Dele; e que soberano pode governar com supremacia se ele não controla todas as fronteiras de seu estado?
Conheça melhor nosso Senhor. Estude Sua vida; seus sacrifícios e suas virtudes no Santíssimo Sacramento. Estude seu amor. Em vez de sempre permanecermos dentro de nós mesmos, vamos até Ele; é muito bom nos ver Nele, mas vê-lo em nós é melhor. Em vez de cuidar de si mesmo, cuide de nosso Senhor e faça-o crescer em você. Pense nele; estudá-o em si mesmo; penetra nele. Você encontrará o alimento da sua vida Nele; pois Ele é grande e infinito. Esse é o caminho amplo e real da santidade e o caminho para o enobrecimento de nossas vidas.
II
Além disso, vós deveis consolar nosso Senhor. Ele espera consolo de você e o receberá com prazer. Peça a Ele que prepare bons sacerdotes para si; sacerdotes apostólicos e zelosos para a salvação das almas: sacerdotes que são a glória de sua época e que apresentam Deus a reinos. Implore a Ele para se apropriar de tudo, e para não ser apenas um Salvador, que não supõe nada além de sacrifício, mas um rei e um rei da paz com poder absoluto. Consolá-lo por ser tão pouco tratado como rei em seu próprio reino. Infelizmente Nosso Senhor está derrotado! No céu, ele é um governante todo-poderoso que comanda santos e anjos e é fielmente obedecido. Não é assim aqui abaixo. Os homens --- os filhos que Ele resgatou --- têm o melhor dele. Ele não governa mais os povos católicos. Vamos estabelecer Seu reino em nós, pelo menos, e trabalhar para restaurá-lo em todos os lugares.
Monumentos finos significam muito menos para Nosso Senhor do que nossos corações; Ele quer nossos corações. E como as nações o expulsaram, vamos elevar-lhe um trono no altar de nossos corações. Certos bárbaros conferiram realeza a um homem, erguendo-o sobre seus escudos; proclamamos Jesus eucarístico nosso rei, erguendo-o em nossos corações e servindo-o com fidelidade e devoção.
Ah! Quão afeiçoado é Nosso Senhor! Como ele anseia por eles! Ele implora por eles como um mendigo! Ele implora, ele implora, ele insiste. Ele já foi recusado cem vezes; isso não importa; Ele continua estendendo a mão. Mas, na verdade, persistir em implorar por tantas rejeições é desonrar a si mesmo! Devemos morrer de vergonha com o pensamento de que Nosso Senhor é reduzido a implorar, sem receber de ninguém, a esmola que Ele pede. A que ultraje Ele se submete em Sua busca de nossos corações! Ele procura de maneira especial os católicos, as almas devotas, os religiosos que não querem dar-Lhe todo o coração. Nosso Senhor quer tudo isso. Seu amor por nós é a única razão para essa busca ardente e o único interesse que Ele tem nela. De duzentos milhões de católicos, quantos O amam com o carinho de um amigo? Quantos vivem do Seu amor, de um amor que brota do coração? Se pelo menos aqueles que se dedicam a uma vida de piedade, seus filhos, seus religiosos, suas virgens lhe pertencem sem reservas!... Mas depois de deixá-Lo dar um passo em seus corações, eles colocaram um obstáculo em Seu caminho; eles Lhe dão isso e O recusam aquilo. Nosso Senhor quer tudo e exige tudo. Ele continua esperando sem nunca dar lugar ao desânimo.
Vamos então amá-lo por nós mesmos. Vamos amá-lo por aqueles que não o amam, por nossos parentes e amigos. Vamos pagar a dívida de nossa família e nossos países. É isso que todos os santos fazem; assim imitam nosso Senhor, que ama a seu Pai por todos os homens e se torna garantia para o mundo inteiro.
Que nosso Senhor, o gentil Salvador que nos ama tanto, se torne finalmente o Rei, o Mestre e o esposo de nossa alma! É realmente possível que não amemos nosso Senhor tanto quanto amamos nossos parentes, amigos e nós mesmos? Mas devemos estar enfeitiçados!
Sem dúvida, se pudéssemos fazer tudo de uma só vez, se pudéssemos pagar toda a dívida do amor por um único ato, estaríamos dispostos a fazê-lo; mas devemos estar constantemente nos dando e não temos a coragem necessária para isso. Isso prova com certeza e além da dúvida que nós realmente não O amamos. Como lamentamos Nosso Senhor por meio disso! Sabe-se que as mães morrem pela dor causada por filhos indignos. Não fosse o fato de que nosso Senhor agora é imortal por natureza, Ele teria morrido de tristeza mil vezes desde que foi confinado no Santíssimo Sacramento. Se não tivesse sido sustentado por um milagre no Jardim das Oliveiras, teria morrido ao ver os pecados que tinha que expiar. Aqui Ele está em um estado glorificado; mas em Suas obras e em Seu amor, Ele é muito humilhado. Dolore cordis intrinsecus! "Tocado interiormente com tristeza de coração."
Console então o amor de nosso Senhor. O homem sempre encontra alguém que responde ao seu amor; mas e Nosso Senhor?
Console-O pela ingratidão de todos os pecadores e, acima de tudo, por tua própria ingratidão. Simpatize com Ele pelas deserções de seus ministros infiéis e de seus cônjuges corruptos. Isso é algo tão hediondo que deve ser mantido oculto.
Pense nisso aos Seus pés e consola-O por isso. Somente a traição de Judas deve ter feito nosso Senhor derramar lágrimas de sangue. Nós nunca poderíamos ser felizes se soubéssemos tudo o que entristece nosso Senhor, e nenhum sacerdote jamais iria querer consagrá-Lo se Ele ainda estivesse em Seu estado humano e acessível à tristeza. Felizmente, somente Seu amor suporta o peso de todos esses ultrajes, e Ele não pode mais morrer agora!
O que me aflige é o fato de que as almas devotas, os cônjuges que Jesus Cristo reserva para Si no mundo, sempre deixam a perfeição para os religiosos; "Eu não estou vinculado a isso. Eu não fiz os votos de perfeição." A verdade é que eles não têm coragem de amar. O amor é o mesmo em todo lugar, e você pode amar mais em seu estado de vida do que um religioso no dele. O estado dele é mais perfeito em si mesmo, mas o seu amor pode superar o dele.
Venha, deixe o reino de Jesus Cristo ser estabelecido em vós! A Exposição Pública do Santíssimo Sacramento é a última graça de Deus para o homem. Após a exposição, existe apenas o céu ou o inferno. O homem é atraído pelo que reluz. Nosso Senhor subiu ao trono; Ele pode ser visto e é radiante. Não temos mais nenhuma desculpa. Se abandonarmos nosso Senhor, se passarmos por Ele sem alterar nossas vidas, nosso Senhor irá embora, e seremos o mesmo para sempre.
Sirva a Nosso Senhor, portanto, e console-O; acenda o fogo do Seu amor onde quer que ele ainda não esteja ardendo; trabalhe no estabelecimento de Seu reino de amor. Adveniat regnum tuum, regnum amoris. "Que venha o teu reino, o teu reino de amor!"

ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...