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domingo, 26 de junho de 2016

Os protestantes e a ascensão dos nazistas na Alemanha


    Sendo a Alemanha uma nação profundamente religiosa na época da ascensão de Hitler, de quem partiram os votos que o elevaram ao poder? Eis uma pergunta muito explorada nas decadas que se seguiram, e que motivou grandes injustíças e equívocos, nos quais, os católicos sempre saíram mais desfavorecidos.
Mas, alguns mapas estatísticos da época nos apresentam uma outra realidade. O historiador Erik von Kuehlt-Leddihn em seu livro Liberty or Equality (do qual, traduzimos partes anteriormente neste blog) apresenta alguns dados que nos mostram quem foram os maiores produtores de votos nazistas.

Após os mapas estatísticos, disponibilizamos mais um trecho traduzido da referida obra. 


porcentagem de votos nazistas, eleições de 31 de julho de 1932.
As áreas escuras do mapa mostram as regiões onde os nazistas tiveram maioria de votos. 
Áreas escuras do mapa mostram as regiões de maioria católica na época


    "A fim de chegar a um pleno entendimento dos aspectos profundos do nacional socialismo, fizemos alguns mapas estatísticos baseados na divisão do kreise1 alemão, mostrando a inter-relação de afiliações políticas e religiosas. 

Escolhemos como medida de comparação para a distribuição religiosa, o resultado do censo de 1934; e, como um índice para os votos nazistas, a eleição de 31 de julho de 1932 e março de 1933. (Este último foi decidido somente depois da deliberação prolongada. Mais duas eleições foram realizadas em novembro de 1932 e em março de 1933. A eleição de novembro mostrou um declínio dos votos nazistas, e não teve indicação máxima do potencial popular. As eleições de março foram realizadas sob a influência do incêndio de Reichstag,2 e também tivemos provas de que em certas áreas, especificamente no sudeste da Bavária, o resultado destas eleições foram fraudados).


          A comparação do mapa religioso com o mapa eleitoral demonstra, a primeira vista, que havia uma conexão muito óbvia entre os dois, e que as áreas protestantes, com raríssimas exceções, foram as maiores produtoras dos votos nazistas. Nos distritos protestantes onde os nazistas eram relativamente poucos, nós encontramos uma alta porcentagem de votos comunistas. Isto aconteceu especialmente na Saxônia Ocidental, e na Turíngia, com uma maioria de votos comunistas (a inclusão destas áreas, – ambas ao oeste do rio Elba –, na zona de ocupação soviética, colocando assim o domínio russo dentro de 120 milhas da fronteira holandesa, tinham, claramente, não só implicações estratégicas, mas políticas) Ainda assim, não se pode deixar de ficar impressionado com o aspecto religioso do mapa mostrando os votos nacionais socialistas. Um aspecto detectável somente após cálculos detalhados em relação aos votos comunistas.  E no mais, o comunismo, assim como o nacional socialismo, foram vigorosamente enfrentados pela Igreja Católica."


Notas:

1. Kreise, ou simplesmente Kreis é uma divisão administrativa de nível intermediário da Alemanha, entre os länder (estados federais) e os níves municipais.
2. O Incêndio de Reichstag foi o episódio ocorrido em 27 de fevereiro 1933, em que a sede do parlamento alemão, o Palácio de Reichstag, foi criminosamente incendiado. Este episódio foi essencial para a ascensão do nazismo na Alemanha. A culpa do incêndio recaiu sobre um ativista comunista da Holanda chamado Marinus van der Lubbe, mas até hoje não se sabe exatamente quem foi o autor do crime.




Fonte: Kuehlt-Leddihin, Erik von. Liberty or equality: the challenge of our time. Caldwel: The Caxton Printers, LTD, 1952.

p. 217-218

Tradução e notas: 

Erick Ferreira


segunda-feira, 13 de junho de 2016

As origens das ideologias totalitárias segundo Erik von Kuehnelt-Leddihn



Erik von Kuehnelt-Leddihn
(1909-1999)


       O nome chega a assustar os menos afeitos à língua germânica: Erik von Kuehnelt-Leddihn. Apesar do nome escabroso, Kuehnelt-Leddihn é um daqueles homens encantadores que a natureza costuma produzir raramente. Seu amigo William Buckley o definia como "o homem mais fascinante do mundo". Apesar do exagero da definição, Dr. Kuehnelt-Leddihn realmente era um homem excepcional. Intelectual de alta envergadura, falava oito línguas e conseguia ler em outras onze; historiador e jornalista; doutorou-se em ciências políticas pela universidade de Budapeste, e em Teologia pela universidade de Viena. Começou a publicar seus primeiros artigos ao 16 anos para um jornal de sua cidade.

Apesar de toda sua bagagem intelectual, Kuehlt-Leddihn é quase desconhecido no cenário acadêmico brasileiro. E não somente ignorado, diria até que seu pensamento fora banido pela intelligentzia, por representar um grande golpe a muitas de suas falácias. 

Um outro ponto marcante na vida do Dr. Kuehlt-Leddihn, que também não pode ser deixado de lado em qualquer coisa que se escreve a seu respeito, foi sua exuberante fé católica, Embora, esta fé tenha se eclipsado em partes por sua debandada ao liberalismo, (Dr. Kuehlt-Leddihn chegou a se auto proclamar “arqui-liberal”). A pesar disso, Dr. Kuehnelt-Leddihn sempre conservou devotado respeito à Igreja, chegando a defendê-la diversas vezes, especialmente em suas obras. Uma destas obras em que defende a Igreja de certas desonestidades intelectuais, é Liberty or equality: the challenge of our time (Liberdade ou igualdade: o desafio de nosso tempo), livro pouco conhecido em nosso país, com pouca, ou nenhuma edição brasileira (realmente desconheço se exista alguma), que ora apresentamos.

disponibilizamos um trecho da obra a nossos leitores.





Capítulo VI

HUS, LUTERO E O NACIONAL SOCIALISMO
A gênese de um movimento totalitário



Introdução


“Do ponto de vista da história das ideias, estamos convencidos de que Jan Hus1 exerceu alguma influência sobre Lutero, Mussolini, e sobre o partido Socialista Tcheco3 (o social-democrata). (Nós nos referimos aos precursores de Hus de forma muito superficial, já que quase todas as linhas da história conduzem a ele)
Lutero, por sua vez, junto com Calvino, através de um longo processo dialético, estimulou o crescimento da democracia moderna. A Revolução Francesa tem raízes que vão de Calvino, e talvez, também a Jansênio3. O Socialismo Tcheco gerou o Nacional Socialismo, que também assume alguma herança Hussita4 (Taboritas). Hus também inspirou o nacionalismo alemão do século XIX, e o nacionalismo alemão produziu Jahn5; Jahn influenciou Miroslav Tyrš6; Tyrš é a figura mais importante do nacionalismo tcheco. A democracia e o nacionalismo étnico operou na Europa mais rigorosamente.
Lutero é também um precursor de Hegel; Hegel é o mentor de Marx e Treitschke7, eis os inspiradores do socialismo, nacionalismo e estatismo. 

Marx deu sua doutrina à Alemanha, a Áustria, e de certo modo, ao Socialismo Tcheco. Treitschke, por outro lado, influenciou Schönerer8, e Schönerer influenciou Hitler.
Marx também está por trás do socialismo francês, que produziu Sorel9, que por sua vez, é admitidamente o pai espiritual do jovem socialista Mussolini, o admirador de Hus. E Mussolini influenciou Hitler.
          O Nacional Socialismo Tcheco (inspirado por Hus) provocou na Boêmia e na Moravia uma organização política Nacional Socialista entre os alemães destas duas províncias (O assim chamado Sudeto Alemão)10. Hitler, longe de ser o fundador do nazismo, apenas entrou em um pequeno, mas bem estabelecido movimento (até então)11.
       Quase todas estas ideologias – socialismo, nacionalismo étnico, fascismo, nacional socialismo dos tchecos, assim como dos alemães –, assumiram ser democráticas; mas nenhuma delas assumiu ser liberal. Todas foram hostis, de formas variadas, ao catolicismo. Todas tinham ancestrais em comum. Uma influenciou a outra intensamente, e sua pré-história não é senão uma repetição interminável e incessante de uma aliança incestual e endogâmica.

        Todas estas filosofias são anti-católicas, anti-monárquicas, e anti-tradicionais; elas se lançam unicamente para o futuro, querem construir uma nova sociedade, e se proclamam “iluminadas”. Elas se opõe à liberdade individual e são coletivistas; dividem os seres humanos em categorias especificas, e todas elas favorecem o surgimento de um Estado onipotente; elas são materialistas e se declaram “progressistas”. Tudo nelas tem afinidades com a Revolução Francesa. A maioria das lutas amargas que se travam entre elas é desesperada e impiedosa por conta de sua natureza fratricida. Elas não vêem no outro um estranho oponente. Mas, heresias se enfrentando com uma origem em comum”.


Notas:

1. Jan Hus (1369-1415) Reformador religioso tcheco. Um dos precursores de Lutero e Calvino. Foi excomungado oficialmente em 1410, e entregue ao braço secular que o condenou a fogueira.
2. Partido Socialista Tcheco ou Partido Social-democrata (Česka Strana Sociálně Demokratická) é um partido socialista fundado em 1878, inspirado na figura de Jan Hus, e que identifica como “centro-direita”.
3. Jansenius. (1585-1638) foi um heresiarca holandês. Fundador da heresia jansenista, que pregava uma moral rígida e ao mesmo tempo ineficaz, já que, para eles não importava o que se fizesse, os homens sempre serão incapazes de alcançar a misericórdia divina.  

4. Hussitas, ou Igreja Hussita, foi o movimento reformador e revolucionário que surgiu na Boêmia no século XV (Antes da rebelião de Lutero) inspirada por Jan Hus (1372-1452). O movimento mais tarde juntou-se as fileiras luteranas. Posteriormente, os Hussitas sofreram uma subdivisão interna em: Taboritas (radicais) e Utraquistas (moderados). Estes primeiros, seguidores radicais das ideias de Hus, causaram uma série de revoltas chamadas Guerras Hussitas (1419-1436). Que só foram debeladas quando os Utraquistas se uniram aos católicos para enfrenta-los.

5. Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), foi um pedagogo e nacionalista alemão. Por ter sistematizado e transformado a ginástica em modalidade esportiva, é considerado o “pai da ginástica”. Criou a Associação Turnwerein, um clube de ginástica que acabou tornando-se centro de discussões políticas e  abrigo dos nacionalistas alemães.

6. Miroslav Tyrš (1832-1884) filosofo tcheco, historiador da arte, organizador e fundador do movimento Sokol autor de Hod Olympický 1868 (A festa olímpica) O zákonech kompozice v umění výtvarněm, 1873 (A Lei da composição na arte) O zákonu konvergence při tvoření uměleckém, 1880 (A lei da convergência na criação artística) entre outras obras sobre arte.

7. Heinrich von Treitschke (1834-1896) foi um historiador, escritor e político, e acima de tudo, nacionalista alemão. Membro do Reichstag durante o Império Alemão.

8. Georg Ritter von Schönerer (1842-1921) foi um nacionalista radical, antissemita, e político que influenciou o pensamento de Adolf Hitler. Fundou o Partido Pangermânico na Áustria.

9. Georges Sorel (1847-1922) teórico francês do sindicalismo revolucionário, marxista, e com algumas influencias anarquistas. É considerado a maior influência de Benito Mussolini.

10. Região que correspondia na época a 30.000 km2 da então Checoslováquia (atualmente República Tcheca e Eslováquia). Nesta região nasceu o Partido Alemão dos Sudetos, que reivindicou a adesão ao terceiro Reich. Acontecimento que culminou na chamada “Crise dos Sudetos” em 1938. Um dos acontecimentos que precederam a ascensão do Nacional Socialismo na Alemanha.

11. Hitler assumiu o controle do NSDAP em 1920, mas antes de sua ascensão, o nazismo já existia como ideologia de caráter nacionalista, eugenista e antissemita no pensamento dos supracitados autores, como expõe Kuehlt-leddihn. 




KUEHLT-LEDDIHN, Erik von. 
Liberty or equality: the challenge of our time. 
Caldwell: The Caxton Printers, LTD, 1952.
Cap. 6, p. 209-211.

Tradução e Notas:
Erick Ferreira

ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...