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domingo, 5 de abril de 2020

Jejum Dominical? Qual a orientação da Igreja?






       Um grande reboliço se formou sobre a licitude do jejum e da penitência no Domingo, após a convocação nacional para esta pratica num Domingo de Ramos. O jejum, conforme observa Sto Tomás, é ordenado por dois motivos: “Delir a culpa e elevar a mente às coisas espirituais” (Suma Teológica, II-II, Q. 147, Art. 5) E neste sentido, podemos dizer que o chamado à pratica por parte de nossas autoridades é extremamente louvável, especialmente em tempos tão tormentosos como estes que ora atravessamos. No entanto, a data escolhida não foi a mais adequada (Domingo de Ramos). Cabe ainda ressaltar que o presidente, a quem é imputado a origem da convocação, não indicara o domingo como o dia para o ato; sua intenção fora a de propor um dia de abstinência para “gente ficar livre desse mal o mais rápido possível” (referindo-se ao coronavírus), conforme suas palavras. A indicação do domingo partiu de parlamentares e líderes pentecostais e, rapidamente ganhou repercussão.

No entanto, sabemos que faz parte da tradição da Igreja abster-se de jejum e penitência em dias de solenidade e aos Domingos, onde o maior jubilo da cristandade é celebrado. E essa percepção remonta aos primeiros séculos do cristianismo. 

O Sínodo de Gangra, ocorrido em 340, terceiro século da era cristã, condenava de forma enfática a prática do jejum e da penitência no domingo: “Se alguém sob pretensão de ascetismo, jejuar no domingo, seja anátema” (Canon XVIII). Evidentemente, a condenação não ficara desprovida de grandes controvérsias, que inclusive saltaram daquele tempo para nossas redes sociais em defesa da convocação. Santo Agostinho, que inclusive é citado em defesa do Jejum no Domingo, afirmou um século depois do supracitado concílio: “Omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia”. (Epistula 55, 28). E o mesmo santo, nos deixara ainda esta frase mais enfática sobre o assunto: “Jejuar em dia de domingo é grande escandá-lo” (Carta a Casulano, 36, 27. 396)
E tais controversias tiveram lugar em uma época em que a Igreja combatia diversas heresias, entre as quais, o marcionismo, cerdonismo, priscilianismo e o maniqueismo, que tinham por hábito jejuar aos domingos, exigindo leis enérgicas, como a que fora promulgada em um cânon do Concílio de Braga (561-563) onde se dizia: “Se alguém não venera de verdade o dia do nascimento de Cristo segundo a carne, mas finge venerá-lo, jejuando nesse dia e no domingo, porque não crê que Cristo tenha nascido da verdadeira natureza do homem, como o disseram Cerdon, Marcião, Maniqueu e Prisciliano, seja anátema” (Papa Julio III, I Sínodo de Braga, 1 de maio de 561)
Houve algumas mitigações com o tempo, mas a compreensão da matéria sempre foi a mesma, sendo posteriormente consagrada no velho Código de Direito Canônico (1917) –– substituído em 1983 com a promulgação do novo código por João Paulo II ––, no seguinte Cânon: “Aos Domingos e dias de preceito (exceto dias de preceito durante a Quaresma), as leis do jejum e da abstinência não se vinculam” (Can. 1252, § 4) O que todavia, o novo Código, embora tenha suprimido, nos deixou indícios de que esta compreensão permanece, conforme nos indica João Paulo II em sua encíclica Dies Domini: "Historicamente, ainda antes de ser vivido como dia de repouso aliás não previsto então no calendário civil — os cristãos viveram o dia semanal do Senhor ressuscitado sobretudo como dia de alegria. “Que todos estejam alegres, no primeiro dia da semana”: lê-se na Didascália dos Apóstolos (100). A manifestação da alegria era visível também no uso litúrgico, mediante a escolha de gestos apropriados (101).  

Sto. Agostinho, fazendo-se intérprete da consciência geral da Igreja, põe em evidência tal caráter da Páscoa semanal: “Omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia.” (nº 55)

E por que não se deve jejuar no domingo? 

Conforme fora dito na referida citação, o domingo é o dia da alegria da ressurreição e da vida, o dia em que os dissabores de uma vida de penitência costumam ser mitigados, com espaço para raras exceções, como as impostas pela própria graça sobrenatural aos santos penitentes que viveram uma vida ininterrupta de penitência.
Por outro lado, os defensores do suposto chamado presidencial, servindo-se de Sto Tomás, e até de Sto Agostinho, costumam mencionar um trecho dos comentários do santo doutor aos Dez Mandamentos, onde se lê: “[no Domingo também] devemos afligir nosso corpo com com jejuns (...) e isto duas vezes mais do que nos outros dias".
Todavia, neste trecho, Sto Tomás refere-se ao que ele chama de “jejum por alegria”, que ele distingue do “jejum por penitência” –– “impróprio dos dias de alegria” (cf. idem) –– conforme está exposto na Suma Teológica (II-II, Q. 14, art. 5), onde o santo doutor afirma: “A Igreja não obriga a nenhum jejum em todo o tempo Pascal, nem nos dias de domingo. E não estaria isento de pecado quem jejuasse em tais dias, contra o costume do povo cristão, que como diz Agostinho, deve ser tido como lei; ou o fizesse por algum erro como o praticam os Maniqueus, que julgam necessário tal jejum. Contudo, o jejum em si mesmo é louvável em todo tempo, conforme o diz Jerônimo: Oxalá pudéssemos jejuar sempre!” (ibidem)

Leve-se em conta também o fato de que, somos obrigados, há algumas horas antes da comunhão eucarística, em conservar uma abstinência temporária de alimentos, que não deve ser interpretada como jejum ou penitência. Mas isso não vem ao caso. O fato é que o Domingo não é dia para jejum e penitência, embora, a Igreja não julga que peca aquele que assim proceda.  


____________________________
*A doutrina oficial da Igreja determina como obrigatória o jejum e a abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira santa, a todo indivíduo maior de 18 anos, (sendo facultado a partir dos 14 anos completo) e em plena posse de suas faculdades mentais, derivando daí, a necessidade de se fazer o mesmo nas sextas e quartas do ano, salvo os dias em que solenidades sejam celebradas nestes dias.

domingo, 27 de outubro de 2019

Um Sínodo para celebrar o paganismo



     

        O Sínodo da Amazônia encerrou-se neste domingo (27) com a consolidação de uma nova doutrina, totalmente estranha ao catolicismo: "A ecologia integral". No penultimo dia do Sínodo, o Papa Francisco realizou um simbólico pedido de desculpas pelo roubo e lançamento no rio Tibre de três imagens de um ídolo pagão que estavam em uma importante Igreja de Roma. Este gesto cheio de simbolismo, só ratificou a percepção clara que ficou deste Sínodo como uma grande celebração do paganismo e o despontar de uma nova Igreja, totalmente estranha à Igreja Católica e alheia a sua doutrina tradicional. 
No documento final do Sínodo, essa percepção ficou ainda mais clara com o grande alarido ecológico em torno da suposta ameaça global  à Amazônia (tão dramática, aos olhos do pontífice, quanto a situação da Igreja na China, Oriente Médio e partes da África, onde a Igreja, há séculos é massacrada) tendo como centro um suposto “desaparecimento do território e seus habitantes” e o chamado a “abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da ‘casa comum’ e a defesa da Amazônia”, e, em seguida, como era esperado, a proposta de “mudanças radicais” para salvá-la. As notas de pseudo-ciência se proliferam pelo documento para corroborar a tese central. Uma delas, no número 2, se apresenta nos seguintes termos: “Está comprovado cientificamente que a desaparição do Bioma Amazônico terá um impacto catastrófico para o conjunto do planeta”. Em partes, terá seus impactos inegáveis, no entanto, não tão catastróficos como se alardeia, como observa o climatologista Ricardo Felício (https://www.youtube.com/watch?v=w-76mhHuRoo)
Houve também uma reafirmação na ideologia do aquecimento global antropogênico, que também, já está amplamente desacreditada. Todavia, a Igreja, ressoa as velhas  propostas de movimentos de esquerda, pela “diminuição de emissão de dióxido de carbono na atmosfera e outros gases relacionados ao efeito estufa” (n. 77).
Sente-se nas entrelinhas uma profissão de fé no credo do “bom sauvage”, além de um claríssimo apelo pagão. Segundo o documento, os povos nativos – incluindo-se, é claro, os povos indígenas mais selvagens – “vivem em harmonia consigo mesmos, com a natureza, com os seres humanos e com o ser supremo, já que há uma intercomunicação entre todo o cosmos, onde não há excludentes, nem excluídos, e onde podemos forjar um projeto de vida plena para todos. Tal compreensão de vida se caracteriza pela conectividade e harmonia de relações entre a água, o território e a natureza, a vida comunitária e a cultura, Deus e as diversas forças espirituais.” O que eles queriam dizer com “diversas forças espirituais?”. Outro trecho que explicita essa perspectiva pagã que orienta o texto se lê no número 14: “A vida das comunidades amazônicas ainda não afetadas pelo influxo da civilização ocidental se reflete na crença e nos ritos sobre o atuar dos espíritos da divindade, chamados de inumeráveis maneiras, com e no território, com e em relação com a natureza”. Em suma, em vez de difundir entre os povos a cultura cristã, há um convite a uma “conversão cultural”. Uma cultura superior deve curvar-se a uma cultura inferior. O Evangelho de Cristo deve cessar sua ação sobre a humanidade para ouvir o paganismo. “O colonialismo é a imposição de determinados modos de viver de uns povos sobre outros, tanto econômica, cultural ou religiosamente. Recusamos uma evangelização de estilo colonialista” (n. 55). A beleza, a arte, a alta-cultura, devem ser colocadas de lado, e em seu lugar, as pobres expressões e criações da cultura indígena, cuja pobreza se deve antes por não haver alcançado um desenvolvimento mais profundo. O índio também deve ter acesso as grandes criações culturas, a elevada erudição que o Ocidente nos legou. Todavia, a esse demonizado colonialismo, que inclui também a evangelização e conversão de povos nativos e a destruição de suas culturas, se deve o poder que hoje Francisco dispõe para falar ao mundo e ser ouvido como inquestionável autoridade religiosa. Sem ele, hoje, a Igreja não teria saído do Cenáculo de Jerusalém. Há um trato sem precedentes ao paganismo em todo documento. Em vez do chamado evangélico a conversão, a Igreja Ecológica de Francisco propõe dialogo e um conhecimento mais profundo dessas tradições. “Estas tradições merecem ser conhecidas, entendidas em suas próprias expressões e em sua relação com o bosque e a mãe terra (...) Para isso, é necessário que as Igrejas da Amazônia desenvolvam iniciativas de encontro, estudo e diálogo com os seguidores destas religiões”. Note-se que o convite a convertê-los está totalmente fora de cogitação nesta proposta. E lembremos que o maior dever do cristão para com os pagãos é anunciar a eles o Evangelho de Nosso Senhor, e leva-los à obediência da fé (cf. Rom 1, 5). Os pentecostais, a seu modo estão fazendo isso, e sendo muito mais bem-sucedidos do que os católicos. O que diria Nosso Senhor que nos apresentou o desejo divino para a humanidade em uma frase tão sucinta como esta “que todos conheçam o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo seu enviado” (cf. Jo 17, 3) Para Francisco e os bispos sinodais, os pagãos já não merecem conhecer o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo. O Documento pós sinodal deixou claro que não. E o que diriam os santos em face de tais absurdos? Eles que sempre conservaram grande horror à heresia e ao paganismo. O patrono da Europa, S. Bento, conforme escreve seu santo biografo, o papa S. Gregório Magno, ao chegar ao monte Cassino, que outrora fora consagrado pelos costumes e ignorância ao oráculo de Apólo, o santo encontrou um bosque dedicado a um ídolo pagão, onde, conforme as palavras do santo biografo, “acorria a dementada multidão dos infiéis com sacrílegos sacrifícios. Chegando aí o homem de Deus, derrubou o ídolo, demoliu o altar, pôs fogo ao bosque, e consagrou o templo à honra de S. Martinho e no altar de Apolo estabeleceu o culto a S. João Batista. Depois voltou-se à pregação, levando à verdadeira fé as populações que viviam ao redor". (S. Gregório Magno. Dial. III. 3). Atitude semelhante tivera S. Bonifácio diante de uma sacrílega árvore dedicada ao culto pagão. E quantos homens e mulheres foram martirizados por recusarem-se a prestar reverência a deuses pagãos. Quão distante estão estes santos da Igreja ecológica de Francisco. Uma Igreja que combateu com denodo o avanço de tantas heresias e do paganismo, simplesmente, deu lugar a uma Igreja que passou a tolerá-los e até a abraçá-los. como se seus erros não custassem a salvação de muitos. Papas convocaram cruzadas contra hereges e pagãos, foram implacáveis em seus escritos contra qualquer erro que se apresentasse ao horizonte dos fiéis; percorreram os mais tenebrosos mares para converter a verdadeira fé os homens de regiões mais longínquas, para em pleno século XXI todo o seu sacrifício ser lançado no lixo em nome do mero diálogo. 

S. Bonifácio levando ao chão árvore dedicada ao culto pagão


O que diria toda a tradição que há dois milênios ecoa em uníssono o mesmo brado, que fora tão enfaticamente condensado por Pio XI nestas palavras: “Não é lícito promover a unidade dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente eles se separaram" (Mortalium Animos, n. 16), e que fora belamente sacralizado em um dos dogmas mais desagradáveis para a turba ecumenista, conforme a famosa formula de S. Cipriano: Extra Ecclesiam nulla salus (Fora da Igreja não há salvação) (cf. De Unit. Eccl. Cath. 6, 3) Não há muito o que se dizer sobre este Sínodo, tudo o que ele prega já está condenado de antemão por miríades de santos, pelas páginas das Sagradas Escrituras e de um magistério vastíssimo. Diante de toda a dessacralização que se verificou durante esses dias, com o olhar complacente do Papa, onde ficaria o maior de todos os mandamentos, que nos ordena junto com a obrigação de amar a Deus acima de todas as coisas, o intimato: "não terás outros deuses diante de mim"? 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O dia em que o Menino Jesus venceu a doutrinação comunista: A extraordinária aparição do Menino Jesus na Hungria


Professora e Alunos em Escola de Budapeste (Hungria) da Época das aparições


Uma das primeiras medidas que um país sofre ao ser dominado pelo comunismo é a implantação do ateísmo institucional e a perseguição à religião. Na Hungria, país de tradição católica vigorosa, essa medida foi levada aos extremos quando o comunismo dominou o Estado. Um currículo ateu fora implantado nas escolas e as grandes festas cristãs foram abolidas. 

A poucos meses do Natal, em 1956, os católicos húngaros viviam na expectativa assombrosa de mais um ano "sem celebrar o nascimento do Rei dos Reis". Aquele estado de coisas não seria facilmente digerido por aquele povo. Mas, a Divina Providência preparava um evento extraordinário para aquele ano, que o tornaria um dos mais memoráveis da história húngara.

Em uma escola para moças de Budapeste, uma professora chamada Gertrudes -- destacada pela fidelidade aos princípios do Partido e o ódio descomunal ao cristianismo -- doutrinava intensamente suas alunas. Era uma como as demais, que tinham como missão suprema, roubar a fé católica de suas pupilas. Porém, paradoxalmente, na sala de Gertrudes, havia um elemento desconcertante. Sua aluna mais dedicada e inteligente era exatamente a mais fervorosa da escola. A aluna prodigiosa, que tinha seis anos na época, chegara a fazer uma petição a seu pároco, Fr. Norbert, para receber a comunhão diariamente, e, assim, melhor enfrentar os ataques que sofria na escola sob o comando impiedoso de sua professora. Fr. Norbert, após alguma resistência, acabou cedendo aos desejos da mocinha. 

Após alguns dias de comunhão diária, a professora notou que havia uma chama de devoção intensa em Angela que chegava a deixar sinais em seus traços fisionômicos.
Em 17 de setembro, a professora, através de uma inspiração satânica, elaborou um plano para melhor escarnecer do que chamava de “superstições antigas que infestavam a escola”.
De forma terna, a professora, argumentou diante dos alunos que só existem coisas que podem ser vistas e tocadas. E para demonstrar essa afirmação, pediu a Angela que deixasse a sala. Enquanto Angela estava fora, ouviu seus colegas a chamarem de volta. Ao entrar, a menina sentiu algo estranho no ar.
A professora dirigindo-se a Angela e ao resto da turma, dizia: “Vocês podem ver Angela, porque Angela é uma pessoa viva,  alguém que podemos ver, ouvir e tocar. Quando a chamamos, ela nos ouve. Mas suponhamos que deveríamos chamar o Menino Jesus, em quem alguns de vocês parecem acreditar... Vocês acham que Ele iria ouvi-los?”.
Um silêncio fúnebre tomou a sala por alguns instantes, até algumas vozes o romperem:

“Sim, nós podemos”.

A professora, tendo como alvo Angela, voltou-se a ela, e lhe perguntou: “O que você acha, Angela?”

Angela, sem titubear, respondeu: “Sím, Ele pode nos ouvir”.

A professora com uma grande gargalhada a desafiou:

“Então o chame?”

Diante disso, uma visível intimidação fez-se presente na classe. Angela, porém, permaneceu inalterável em sua fé, e com um gesto audaz e corajoso, se colocou a frente da turma, e com voz forte lhes incitou: “Escutem meninas, disse ela intrepidamente, vamos todos chama-lo Vinde Senhor Jesus”.As meninas da turma, inspiradas por sua coragem, atenderam ao chamado, e juntas, num coro, começaram a chamar: 

“Vinde Menino Jesus!”

A professora, tomada de ódio, ficou perplexa ante aquela reação inesperada. Prestes a interromper aquele coro “indesejado” das formas mais enérgicas, eis que a porta da sala se abriu de forma brusca e um brilho fulgurante tomou todo o ambiente; uma luz que se intensificava a cada instante, conforme as testemunhas descreveram, e no meio daquele clarão, um grande globo de luz do qual jorrava luz ainda mais intensa. Todos lançaram-se no chão, inclusive a professora. E aos olhos de todos, o globo se abriu revelando um menino de feições angélicas e incomparáveis. Seu sorriso de uma beleza cativante enlevou por alguns instantes a todos em inexprimível extase. Repentinamente, o globo se fechou. Deixando a todos com grande paz e alegria. Após aquele espetáculo, algumas ainda correram a porta para ver mais algum sinal daquela extraordinária aparição, mas nada mais havia, além do sentimento inapagável em seus corações. Todos começaram então a gritar: “Ele veio!”. Fr. Norbert coletou aquele testemunho das meninas que ficaria célebre na Hungria, dando origem a um dos cultos mais populares e fervorosos ao Menino Jesus.    

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O humilde Cura d'Ars





                Era uma sexta-feira de fevereiro de 1818, uma velha caleça abarrotada de móveis, com seu balançar sonoro seguia pela poeirenta estrada rumo a Ars. A certa altura do caminho, os viajantes sentem-se desorientados. Por graça de Deus, cruza o caminho dos viajantes um pastorzinho de 12 anos. Era Antoine Givré que providencialmente passava por lá naquele momento. O Pe. Vianney aproxima-se dele, e com seu jeito amável, conforme acrescenta a tradição, lhe propõe esta maravilhosa escolha: "Tu me mostras o caminho de Ars; e eu te mostrarei o caminho do céu". Antoine Givré prontamente cumpriu a promessa e o Padre Vianney a sua: mostrou o caminho do céu a Antoine e à toda Ars.


A pequenina Ars


 "Que pequenina é Ars!" foi o primeiro pensamento que veio a mente do padre Vianney - como acrescenta um de seus biógrafos - ao avistar aquele pequeno aglomerado de casinhas graciosamente agrupadas em torno da velha paróquia.
 Em Ars a fé desvanecia e o mundanismo se alastrava impetuosamente na vida de seus moradores. Um padre missionário que passou por aquela região, deixou ao Bispo está grave observação:
"Ensinar o catecismo às crianças é difícil, por causa de sua ignorância e incapacidade; a maior parte delas só tem a distingui-las dos animais o batismo".
Foi isto que o Pe. Vianney encontrou em Ars, um paganismo escancarado. "Deixai uma paróquia vinte anos sem um vigário, dizia o santo, e logo os animais passarão a ser adorados".  Ars já estava prestes a isto.
Um povo que ainda ia à Igreja por tradição familiar, mas no dia-a-dia vivia um ateísmo prático. Os costumes encontravam-se extremamente corrompidos; a frequência aos sacramentos era quase nula; os bailes e serões aos domingos eram o grande atrativo daquele povo.
Antes de ser enviado para Ars, haviam dado este conselho desafiador a Vianney: "Não há muito amor de Deus, nesta paróquia, terei vós, que o despertá-lo". Mas o que o Pe. Vianney encontrou foi a ausência de muito mais do que a caridade, faltava em Ars os elementos morais básicos de uma comunidade minimamente cristã. O santo teria muito que se sacrificar e sofrer por aquela paróquia. A começar, é claro, por despertar o amor naqueles corações endurecidos. E isto o fez prontamente, com a confiança de que ao ser despertado o amor, o resto viria em acréscimo. Despertada a incomensurável força do amor nos corações, dele faria o grande impulsor de seu apostolado.
Às noites passava largas horas ensaiando seus sermões, e no púlpito bradava com fúria divina contra a vida dissoluta de seus paroquianos. No silêncio, intensificava sua vida de penitência e oração. Nas primeiras noites deixou de lado a cama e passou a dormir no chão; privou-se dos prazeres do paladar, contentando-se com batatas cozidas, diminuiu as horas de sono, chegando a dormir três horas por noite, e submetia-se dia após dia as mais extremas mortificações.
"Meu Deus, concedei-me a conversão de minha paróquia, sujeito-me a sofrer o que quiserdes, durante toda a minha vida", tornara-se a sua oração constante.
       Lutou com denodo para extinguir as blasfêmias e a ignorância religiosa: "Este pecado (a ignorância religiosa), dizia ele, condenará mais almas do que todos os outros juntos".
Para vencê-la, intensificou a catequese junto aos moradores. Em pouco tempo, suas catequeses atraiam multidões que vinham até de outras cidades para ouvi-lo.
A ira de Deus, que como diz as Escrituras, se acendia contra toda impiedade (Rom 1, 18) nos lábios de Vianney. Contra os taberneiros vociferava com fúria divina... "Vós vereis arruinados todos aqueles que aqui abrirem tabernas". E de fato, todos os intentos dos taberneiros já não prosperava mais naquela cidade, estes se viram obrigados a procurar outra atividade. Era implacável o santo na reforma dos costumes.

A célebre luta para extinguir os bailes e as danças

Mas, um dos desafios que mais impunha resistência aos ardores daquele incansável cura eram os bailes! E o santo não cessava de bradar em seus sermões contra eles:
"As pessoas que entram num salão de baile - dizia cheio de santa indignação -, deixam à porta o seu Anjo da guarda e o demônio o substitui lá dentro, de modo que há tantos demônios em um baile quanto há dançantes".

Mandara esculpir como epigrafe em um oratório dedicado a S. João Batista a tão sucinta frase: "A sua cabeça foi o preço de uma dança".
Nesta luta, o santo usou de grande argúcia. Tratou de converter as moças - "sabia que não haveria bailes sem elas". Seus fervorosos sermões começaram a incutir um grande temor no coração das mulheres da comunidade e, estas, compungidas pelas candentes palavras do cura, logo abandonariam os bailes e a vida frívola e abraçariam a vida modesta na "Confraria do Rosário", fundada pelo santo.
A decepção dos jovens que frequentavam os bailes foi enorme quando lá chegaram e não encontraram as mulheres. O ódio destes mancebos fogosos logo se acendeu contra o cura, que acabou - literalmente - com suas festas. Mas, logo perceberam sua impotência diante de um santo, e sossegaram. E os bailes... Acabaram, enquanto a paróquia da cidade tornara-se tão atraente quanto eles. Lá estava Deus, a santidade de seu pároco assinalava sua divina presença, e não deixava margens a enganos. Entre um pedaço do paraíso que irradiava daquela paróquia ninguém o trocaria por qualquer prazer mundano.

Porém, o santo notando que muitos jovens sentiam desejo natural de se divertir, implantou na paróquia diversões saudáveis e puras, que ajudavam a mente e o corpo! "Diverti-vos, mas não pequeis", lembrava a máxima do santo educador da juventude: S. Filipe Neri.
O Santo conferiu as festas religiosas, um grande brilho. Com a ajuda de seu amigo, o conde de Garets, a festa de Corpus Christi adquiriu a pompa real que as cerimônias ao Rei do Universo evocam.
A mendacidade do povo estava sendo extirpada, os ímpios sossegaram por um tempo, mas o artífice de todo mal não. O bem que fazia às almas, atraiu a fúria do demônio, que via a cada dia seu reino sofrer duras derrotas.

O cura d'Ars e o demônio


O terror que incutia a santidade do Pe. Vianney nas potências infernais era tamanha que certa ocasião o demônio confessou pela boca de um possesso: "Se houvessem dois padres como o cura d'Ars no mundo, meu reino estaria perdido".

A partir do momento em que o Pe. Vianney, empenhou todas as suas forças para salvar até o ultimo de seus paroquianos, começou a padecer na carne a ira do inferno.

As noites na casa paroquial, a partir de 1823, nunca mais foram as mesmas. O Demônio passou a investir com toda a fúria contra o santo que lá habitava. Tudo começou em uma noite sinistra, quando o relógio marcava dez horas. O cura ouviu fortes batidas na porta da canônica (casa paroquial). Abriu a janela para ver quem era, mas não viu ninguém. O barulho cessou! Por algum tempo, mas recomeçou de forma até mais assustadora à meia noite. Os sinistros acontecimentos persistiram por algumas noites, O santo desceu a escada para saber quem batia, e novamente não havia ninguém. A cena se repetiria nas noites seguintes. O santo a princípio suspeitou de ladrões que tencionavam lhe roubar os ricos paramentos presenteados pelo conde de Garets. Redobrou então a segurança. Após transmitir o estranho ocorrido a seus paroquianos, imediatamente, bravos jovens se ofereceram à vigiar a casa paroquial. O primeiro a se oferecer foi o carpinteiro Andre Verchére, que por conseguinte, testemunhou as horripilantes manobras que o demônio orquestrava contra o cura. À noite, André Verchére, passou em vigília na casa paroquial junto ao cura para surpreender os supostos ladrões. Mas como nada aconteceu, recolheu-se à um quarto providenciado pelo cura. Por volta de uma da manhã, o carpinteiro foi surpreendido por violentas batidas na porta da sala. Imediatamente, Andre, empunhou a espingarda e esquivou-se na janela para surpreender os ladrões, mas, não viu nada. E o barulho continuou, menos forte, porém, mais assombroso. "Minhas pernas começaram a tremer, contou André, e eu fiquei aterrorizado uns oito dias". O cura D'Ars naquele momento veio até o rapaz com uma lâmpada e lhe fez a pergunta óbvia: "ouviu o barulho?", "sim, é claro!",  respondeu Verchére, completamente assustado.
Após aquela noite sinistra, o santo ainda convidou Verchére a passar mais uma noite na casa paroquial, mas o rapaz recusou com um bem humorado basta: "Senhor cura, para mim chega de sustos".
Mas os horrores não cessaram na casa paroquial, até o santo convencer-se de quem estava lhe roubando o sono. Aquele que era o mais prejudicado com suas orações e sacrifícios: o demônio.
A cada noite as ações do demônio contra o cura se intensificavam. Chegando, inclusive, a pôr fogo na casa canônica.


A fama de santidade

O cura d´Ars em vida gozava de tal fama de santidade que toda França acorria a pequena Ars para vê-lo. O sobrenatural tornou-se parcela de seu cotidiano. Acontecimentos extraordinários cercavam sua existência. Diziam que ele podia ler as consciências; que era temido pelo demônio; que levitava; que falava com Nossa Senhora, etc.
"A castidade brilhava em seu olhar", dizia uma testemunha da época. (cf. Arch. Secret. Vat. t. 3897, p. 304) Um advogado que visitara Ars para ver o padre Vianney voltava maravilhado para sua cidade contando a todos: "Vi Deus em um homem".Qual o segredo de tantos prodigios? O santo respondia com simplicidade: "O padre, antes de tudo, deve ser homem de oração" (Ibidem t. 227 p. 33)

Um dia, um pároco veio se lamentar-se ao Cura d'Ars do triste estado em que encontrava-se sua paróquia e das poucas conversões que nela aconteciam. "Já fiz de tudo", dizia o triste pároco.
Eis a resposta desafiadora do padre Vianney:
"Rezastes? Chorastes? Gemestes e suspirastes? Jejuastes? Fizestes vigílias? Dormistes no chão duro? Fizestes penitências corporais? Enquanto não fizestes isso, julgueis que não fizestes tudo". ( t. 227, p, 53)

O santo do confessionário

Em média, o santo passava 15 horas por dia no confessionário, começando pela extrema madrugada, pessoas passavam meses em Ars para confessarem-se com o cura d´Ars. Diante da dureza de um pecador empedernido, as lagrimas corriam rapidamente na face do cura, "Por que chorais?", perguntou um penitente de coração endurecido. "Oh, meu amigo, eu choro porque vós não chorais".

Este foi o grande santo de Ars, cujos feitos jamais poderiam ser contidos em livros. 

S. João Maria Vianney,
Rogai por nós!


sexta-feira, 26 de julho de 2019

O perigo da apostasia


Detalhe de Fallen Angel, de Alexandre Cabanel (1868)

                      O Catecismo da Igreja (1992) define a apostasia como “o repúdio total da fé cristã”. E não é qualquer repúdio, ou qualquer pessoa a repudiar, para considerarmos um flagrante caso de apostasia. Um repudio a fé só pode ser considerado apostasia quando feito por alguém que foi cristão e que o faz com a plena consciência de afrontar a fé. S. Pedro, ao falar desta espécie de corruptela espiritual, assim dizia: “Se depois de fugir às imundícies do mundo pelo conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, e de novo seduzidos se deixam vencer por elas, o último estado se torna pior do que o primeiro. Assim, lhes fora melhor não terem conhecido o caminho da justiça do que, após tê-lo conhecido, desviarem-se do santo mandamento que lhes foi confiado” (II Pedro 2, 20-21)
Ao percorrer as páginas biográficas da maioria dos inimigos da Igreja, nos deparamos com alguns momentos de suas vidas onde a fé era vivida com fervor. Assim o foram Marx, Nietzsche, Lutero, Henrique VIII, boa parte dos padres pedófilos e outros criminosos. 
O sórdido Henrique VIII, antes de apostatar, fora intrépido defensor da fé católica e do Papado, chegando inclusive a receber a insigne honraria de Defensor Fidei (Defensor da Fé) do Papa Leão V por conta de sua arguta defesa dos sete sacramentos contra as insinuações de Lutero em uma obra intitulada Assertio septem sacramentorum. Alguns anos depois, o monarca tornava-se o cruel perseguidor da Igreja e do Papado. O mesmo ocorrera com Robespierre, que narra-se que na adolescência fora fervoroso católico, e até considerou entrar para o seminário. O suprassumo do revolucionarismo moderno, Karl Marx na infância, fora cristão tão devoto que chegara a escrever um livro com conselhos de boa vivência cristã intitulado: “sobre a união dos fiéis com Cristo” Também se encontra uma fase de devoção cristã na vida de Nietzsche e Simone de Beauvoir. Esta última tinha a “Imitação de Cristo” como livro de cabeceira e teria desejado entrar para a vida religiosa.
Mas o que fizera estes homens e mulheres, de admirável devoção cristã, tornarem-se implacáveis inimigos da fé e da Igreja? A apostasia, é o nome que damos à esta reviravolta. Estes homens e mulheres esmoreceram em certo momento de suas vidas, e o pecado entrou em seus corações, lá deitando raízes profundas, e assim, cumprir-se em suas vidas o que advertira Nosso Senhor: "Quando um espírito impuro sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso. Como não o encontra, diz: ‘voltarei para a casa de onde saí’, Chegando, encontra a casa desocupada, varrida e em ordem. Então vai e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando, passam a viver ali. E o estado final daquele homem, torna-se pior do que o primeiro. Assim acontecerá a esta geração perversa” (Mateus 12, 43-45) Nosso Senhor, diz que “o lugar estava desocupado”’, querendo dizer que, após nos libertarmos de um mal, devemos ocupar o seu lugar com o bem, do contrário, o mal voltará a se apossar daquele espaço, e de uma forma ainda mais intensa que da primeira. Por esta razão, Dificilmente um apostata volta atrás em seu caminho de desordens.



Mas há casos em que a razão da apostasia não foi exatamente um descuido na vida espiritual, mas uma revolta profunda à Igreja em face do mau exemplo de seus representantes. A este caso, podemos citar o Imperador Juliano, o apostata, cuja história fora marcada por uma grande tragédia protagonizada por um pretenso cristão. “Criança de seis anos, narra Bento XVI, Juliano assistira ao assassinato de seu pai, de seu irmão e de outros familiares pelas guardas do palácio imperial; essa brutalidade atribuiu-a ele ─ com razão ou sem ela ─ ao Imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos, uma vez por todas”. 
A quantos a fé cristã não está desacreditada em razão da má conduta de seus membros? Como pedir à uma vítima de um membro desonesto da Igreja que confie no seu julgamento e na sua justiça? Em geral, tais pessoas, se veem entulhadas de traumas e sentimentos confusos e desordenados que fazem repelir de imediato qualquer referência à religião, tornando-se desta forma, ao mesmo tempo, apóstata e vitima de outro apostata que, teoricamente, não repudiou publicamente a fé, mas o fez com seus atos. Há, portanto, apóstatas públicos e outros velados, cujos atos não escondem o estado de apostasia em que se confinaram. Por esta razão, a apostasia é um fenômeno a que todos estamos vulneráveis. Com o descuido de nossa vida espiritual, amanhã, podemos nos tornar o apóstata que ontem condenávamos. Cabe não confiar demasiadamente em nossa força, pois ninguém sabe, além de Deus, até quando perseverará no caminho do bem, por isso cabe rezar e implorar a Deus diariamente a graça da perseverança final. Sem esta graça, ninguém permaneceria nem um minuto no caminho do bem.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A mentalidade revolucionária



                        Antes de confluir para a política, para a cultura, para a religião, para a economia, a revolução, como toda revolta, começa no coração do homem, que se vê como deus e senhor, e por esta “augusta condição”, acredita que a natureza existe unicamente para satisfazê-lo. Esta insana pretensão que acomete qualquer individuo no alto de sua imaturidade, pode ser curada nas suas primeiras manifestações (geralmente na adolescência) com uma boa dose de realismo, se não, ela se alarga vertiginosamente, atingindo níveis colossais e indomáveis, até se converter numa grande explosão de ódio contra a ordem imodificável da natureza e seus inevitáveis percursos.

A revolução, portanto, tem um inicio tímido em alguns indivíduos soberbos que presunçosamente acreditam haver encontrado a formula mágica para todos os problemas  da humanidade. O problema se deflagra quando estes indivíduos excêntricos encontram outros que seguem a mesma perspectiva, – e tristemente, não são poucos os que partilham desta visão distorcida de si e da realidade.

Em uma “santa aliança”, estes indivíduos se associam para cumprir aquela “sagrada” missão que seus egos lhe impõem: transformar o mundo. Por amor a humanidade? Certamente não. Nunca se viu nenhum revolucionário capaz de fazer a mínima caridade que estava dentro de suas possibilidades. Pelo contrário, abundam relatos da avareza, mesquinhez e ingratidão de suas vidas. A Marx se deve os piores defeitos morais que um individuo possa ter. J. J Rousseau, fora cruel e arrogante, chegando a colocar seus filhos em um orfanato para não ter com eles nenhuma responsabilidade; Voltaire, fora mercador de seres humanos. Quase todos os revolucionários eram indivíduos cheios de defeitos morais, no entanto, autossuficientes, a ponto de pensar que seriam capazes de corrigir o mundo, ao mesmo tempo em que eram incapazes de corrigir o menor de seus defeitos.  

Estes indivíduos, numa espécie de surto auto-deificante, acreditavam que suas personalidades, sua moral e suas visões de mundo, era a medida padrão a ser adotada por toda a humanidade, de modo que o mundo não poderia evoluir se não adequar-se a sua visão de mundo e seu padrão de comportamento.
O que leva um indivíduo a atingir tal nível de prepotência? Em séculos bem remotos, os sábios cunharam um termo para referir-se a um fenômeno misterioso que habitava o coração do homem, e de onde emanavam todas as barbaridades que a humanidade fora capaz de perpetrar. Chamaram-na "filaucia" (do grego "philia", amor, amizade, e "autós", próprio), ou seja, o amor próprio. Mas antes de demonizar este fenômeno natural do temperamento humano, devemos explicar que o mal não é o amor-próprio, mas o desvio de sua função natural.

Todas as pessoas devem conservar amor próprio, pois se não o tiverem, não saberão conservar amor a mais nada. Porém, como tudo nesta vida exige regras, o amor próprio também tinha seus limites. O limite que o amor próprio exigia, era a consciência das limitações humanas, tais como: nossa limitada inteligência, nossa enganosa bondade, nossa triste mortalidade, nossa fragilidade e efemeridade. Tais limitações são simplesmente ignoradas por um espírito revolucionário, cujo amor próprio exacerbado, acabou por desaguar na terrível ilusão de uma falsa superioridade moral, intelectual, e espiritual, de modo, que o revolucionário que chega a ignorar sua condição de simples mortal, concluindo como o prepotente Nietzsche: “Eu sou deus”.

Se o individuo se auto-deifica através de um amor próprio desordenado, na sua crença particular não haverá espaço para outra lei e nem para os imprevisíveis da vida. Frases como: “Tenho minhas próprias leis” ou “Eu faço meu destino”, são típicas da mentalidade revolucionária. A mentalidade revolucionária, portanto, funda-se numa escabrosa ilusão auto imposta. Mas como ninguém pode se enganar totalmente, o revolucionário adquiri ódio brutal a verdade, e por isso, distorce diabolicamente a realidade a seu bel-prazer para justificar suas crenças. Estas crenças particulares e absurdas têm implicações devastadoras: “Se não há um Deus nem uma lei natural e divina, – pois todo homem é um deus com sua própria lei –, logo, tudo é permitido em nome dessa lei e de sua falsa divindade”. Foram conclusões como estas que fizeram a mente de todos os revolucionários que despontaram na história. E são conclusões como estas que germinam silenciosamente na cabeça de numerosos adolescentes que mal alcançaram a consciência de si, mas já se acreditam aptos para mudar o mundo. 


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Reductio Ad Fascismum



Nota Preliminar:

Uma atitude constante nos debates modernos é a redução do oponente a figura de Hitler. O filosofo Leo Strauss, em 1950, chamou a esta postura de Reductio ad Hitlerum (cf. Natural Right and History, c. II)
Por se conhecer bem o peso psicológico desta comparação, passou-se a abusar dela, em níveis demenciais, de modo que, a reductio ad Hitlerum tornou-se o grande argumento de quem não tem argumento.
O advogado Mike Goldwin observa em seu afamado Goldwin’s Law que na modernidade, a medida que uma discussão avança, especialmente discussões políticas e religiosas, é comum, a certa altura do debate, que um dos lados – especialmente o que se ver mais desfavorecido – apelar para a reductio ad Hitlerum. Portanto, se você ainda não foi rotulado com esta infame pecha, prepare-se!
Mas esta postura retórica tornou-se ainda mais insana com a introdução daquilo que ouso chamar reductio ad fascismum, quando toda oposição à pautas esquerdistas é imediatamente classificada como fascismo; desequilibrando, mesmo que parcialmente, o discurso do oponente.
A recorrência desta postura exige algumas reflexões


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É clássica a atitude das massas acéfalas alinhadas em torno do ideal marxista que ao ouvir qualquer discurso que desentoe do que foi condicionado a crer na tertúlia revolucionária, aplica imediatamente ao oponente a velha pecha de fascista.
Na maioria das vezes o xingamento não faz nenhum sentido e o individuo que o profere não faz a mínima ideia de seu significado, mas tal redução é uma arma verbal que costuma ser muito eficaz para neutralizar a ação do oponente.
A inconsciência das turbas que se utilizam deste recurso lembra uma famosa experiência da psicologia moderna realizada por Ivan Pavlov (1849-1936). Pavlov tentou provar que algumas reações, aparentemente biológicas, são auto-impostas ou forjadas por relações condicionadas entre estímulos externos e respostas internas (cf. Conditioned Reflexed: an investigation of the physiolical activity of the cerebrl cortex).

Para provar a teoria, Pavlov submeteu alguns cães a uma experiência, na qual, a princípio notou uma relação entre a salivação (resposta incondicionada) e a comida (estimulo incondicionado). A experiência consistia em fazer os cães associarem a chegada da comida ao toque de uma campainha (estimulo neutro – estimulo que não produz resposta).
Com a repetição diária daquela relação, com o tempo, os cães começaram a salivar com o simples soar da campainha, mesmo que em seguida não houvesse comida.
Pavlov chamou a este comportamento de resposta condicionada, ou seja, aprendida com a repetição exaustiva de uma relação entre dois fatores incomuns.

A técnica simples de Pavlov ajudou a descobrir a condicionalidade de certas reações químicas, tornando a experiência um marco do Behaviorismo.
O problema é que as experiências de Pavlov deixaram de ser aplicados em cães e passaram a ser aplicadas em massa, por décadas, as reduzindo a um estado de dependência mórbida a um comando, mesmo que este, fosse completamente absurdo, como vemos se reproduzir nas ações e nos gritos de ordem característico das hordas esquerdistas. Todos percebem a incongruência dos chavões e das atitudes, menos os que os proferem.

Quase um século após a experiências em Riazan, as conclusões de Pavlov continuam sendo aplicadas em larga escala, sob novo cenário, e novos instrumentos. No lugar da refeição canina, se colocou o contraditório, que passa a ser estimulado com frequência torturante, de modo que, com o tempo, os indivíduos condicionados, passavam a fazer associações sem nexos, e acreditar na coerência da associação.

A associação constante entre expressões pejorativas a pessoas ou grupos, mesmo que uma coisa não tenha a mínima relação com a outra, fez as hordas revolucionárias agirem como os cães de Pavlov, de modo que, basta ao antílope a frente soar a campainha diante do oponente, que a matilha inteira se colocava a salivar raivosamente, e proferir o insólito xingamento (fascista!), mesmo que não faça a mínima ideia do que ele signifique, ou mesmo, do que esteja fazendo.

Mas o que é esse tal fascismo?

O termo fascista usado a torto e a direito pelos militantes de esquerda, já perdeu completamente o sentido pelo uso indiscriminado, e passou a ser usado como mero instrumento de pressão psicológica. Ou seja, se você não é de esquerda, você é automaticamente fascista!
Para esquerda não importa o sentido de uma palavra, importa que ela pode ser usada de forma arbitrária, e contrária a seu significado, como arma verbal.
Por exemplo: a esquerda pega as palavras mais bonitas de um idioma e as aplica as coisas mais horrendas (como aborto; invasão de terras; eutanásia, etc) para torná-las belas; ou pega os adjetivos mais odiosos e os aplica a seus inimigos, com o fito de torná-los odiados por todos. Esta tem sido a ponta de lança das esquerdas há décadas (Palavras empregadas de forma arbitrária)
E como caixa de ressonância para este delírio linguístico, se usam as turbas ensandecidas de idiotas úteis, geralmente recrutados em cursinhos populares, faculdades e escolas públicas, onde há décadas o discurso marxista imperou.
Sempre que questiono a um desses militantes que berram alucinadamente palavras de ordens nos protestos sobre o que é fascismo, o indivíduo se vê perdido em densas trevas, sua frio, tenta enrolar, mas não esconde a patente ignorância em relação ao termo que aplica a torto e a direito aos oponentes. E por certo, se conhecesse o termo com o qual se esgrime, jamais o utilizaria tão irresponsavelmente.

Nenhuma característica do que é classicamente conhecido como fascismo se assemelha ao que se convencionou chamar modernamente de Direita. O fascismo é um movimento estato-cêntrico, caracterizado por um partido único de massa (como faz parte dos sonhos do Partido Comunista em qualquer uma de suas ramificações), que se impunham pela violência; pelo culto irrestrito a um líder (como fazem nos partidos de esquerda com seus líderes); exaltação da coletividade sobre a individualidade, e o tão conhecido espírito corporativista.
Portanto, um esquerdista ao xingar o oponente de “fascista”, nada mais faz do que projetar sua própria imagem no adversário, cumprindo com exatidão a velha máxima atribuída a Lenin: “Xingue-os do que você é!” Portanto, qualquer xingamento que hoje você venha aplicar a um esquerdista, amanhã ele aplicará a você. Esta tem sido uma prática recorrente em suas ações.

Até grandes combatentes do fascismo como Charles de Gaulle, e Winston Churchill, receberam da esquerda o rotulo difamante de fascista. Este último, antevendo que aquela atitude seria uma das marcas características da esquerda nascente, afirmou profeticamente: “Os fascistas do futuro, se chamarão a si mesmos de antifascistas”.

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Antes de mais nada, cabe lembrar que o próprio Mussolini sempre recusou rotular o fascismo dentro do clássico espectro político (Esquerda e Direita). Mas, é importante lembrar também que, o que se entende atualmente por Direita tem como uma de suas características principais, a defesa de maior liberdade individual em relação ao Estado; o total oposto do que foi o fascismo, que tinha como lema: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”. Quem sempre esteve mais próximo deste lema?
Mas este detalhe, obviamente, não basta para convencer um cérebro esquerdista, entorpecido por décadas de pesada manipulação e doutrinação ideológica, de que o fascismo tem origens marxistas. É necessário recorrer a mais detalhes. Portanto, voltamos nossos olhos ao pai do Fascismo: Benito Mussolini.

Benito Mussolini (1883-1945) teve sua formação política desenvolvida dentro da filosofia socialista. Desde a infância, sob a tutela do pai Alessandro Mussolini, um fervoroso comunista, que inclusive lhe deu o nome de Benito em homenagem ao revolucionário mexicano Benito Suarez, até sua adesão formal ao Partido Socialista Italiano entre 1901 a 1914, onde chegou, inclusive, a liderá-lo em 1912.
Mussoline ainda teve como sua grande inspiração ideológica o escritor e sindicalista francês George Sorel (1847-1922), fundador de uma das correntes revisionistas do marxismo clássico. Mussolini assimilou devotamente as teses de Sorel, exposta em seu livro Reflexions sur la violence, no qual defendia a tese de que a revolução do proletariado deveria ser forjada por meio da violência. O fascismo foi, sem dúvida, um dos braços mais famosos das teses de Sorel.
Em contrapartida, alegam as esquerdas: “Mussolini perseguiu comunistas!”
Ora, e quem mais perseguiu comunistas na história senão os próprios comunistas? Stalin perseguiu ferrenhamente os trotskistas, e por isso Stalin deixou de ser considerado comunista?
A verdade é que o fascismo quis se impor como uma doutrina original, em oposição direta as suas raízes comunistas, algo corriqueiro entre os movimentos comunistas.

Em “La Dottrina del Fascismo” (1935), escrito por Mussolini e Gentile (este último, um fervoroso hegeliano, como fora Marx), dizia:
“O fascismo é contra o socialismo [...] Mas, na órbita do Estado organizador, o Fascismo quer que sejam reconhecidas as exigências reais que deram origem aos movimentos socialista e sindicalista, fazendo-as valer no sistema corporativo, que concilia os diversos interesses na unidade do Estado” (Cap. I, VIII). E no mesmo opusculo, se confessa que as fontes teóricas do fascismo advém do socialismo.
O ódio que o fascismo descarregou sobre o marxismo mais tarde, não apaga toda influencia que este exerceu sobre sua origem. Não à toa o fascismo fora chamado il figlio bastardo del comunismo (O filho bastardo do comunismo).

Além das conhecidas acusações de que o fascismo fora um movimento de direita, ainda se levanta a afirmação absurda de que Mussolini era católico. Algo ainda mais risível diante do conhecido anti-catolicismo de Mussolini expresso em algumas de suas obras, como as blasfemas Christo è Cittadino (Cristo e cidadão) e l’amante del cardinale (A amante do Cardeal). Nas quais, o duce desfere golpes terríveis à imagem de Cristo e a Igreja Católica.

No entanto, apesar de seu anti-catolicismo, o ditador concebeu o fascismo de forma religiosa – como toda a religião política:
“O fascismo é uma concepção religiosa, onde o homem é encarado sob o ponto de vista da sua relação com uma lei superior [...] elevando (o individuo) a membro de uma sociedade espiritual [o fascismo]”. (La Dottrina del Fascismo, I, V)
Esta sociedade espiritual deveria ter o Duce como deus, e o fascismo como religião.

*** * ***

Assim como toda a esquerda, o fascismo é “anti-individualista”. O estado deve ser a força motriz da consciência e da vontade humana. Por isso, a massificação é uma das fortes características do fascismo.
O Fascismo fala em nome da liberdade, mas de uma liberdade tirânica. Mussolini resume a liberdade fascista nestes termos:
“A liberdade do Estado e do individuo no Estado, uma vez que, para o fascista, tudo está concentrado no Estado e nada existe de humano ou de espiritual, e muito menos tem valor, fora do Estado” (La Dottrina del Fascismo, I, VII). O fascismo é assumidamente totalitário. Sem oposições, classes, somente um Estado Soberano, controlado por um partido.
As massas fascistas do tempo de Mussolini não diferem em nada das atuais militâncias esquerdistas que vemos por aí gritando palavras de ordem. Muitos desses acéfalos, crê piamente que está se lançando contra o fascismo, sem perceber que estão combatente a própria imagem projetada em seus inimigos e reproduzindo fielmente os ideais que moveram o espírito de Benito Mussolini.

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Segundo o Dictionnaire Historique des Fascismes et du Nazisme de Serge Berstein e Pierre Milza: “Não existe nenhuma definição universalmente aceita do fenômeno fascista, nenhum consenso, por menor que seja, quanto à sua abrangência, às suas origens ideológicas ou às modalidades de ação que o caracterizam”.


ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...