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sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma pequena via... Para uma grande santidade


    Em uma esplêndida segunda-feira de outubro, um pequeno traslado conduzia o corpo de uma desconhecida carmelita vitimada aos vinte e quatro anos pela tuberculose. No cortejo iam uns poucos parentes e algumas religiosas.


Ao considerarem os nove anos transcorridos no silêncio claustral da jovem carmelita, as irmãs sentiram um grande desconcerto: “que fatos dignos de figurar na notícia fúnebre?”.
                               

Sta Teresinha com hábito de noviça
                Teresinha vivera uma santidade tão despercebida que olhos superficiais jamais conseguiriam captar a grandeza dos pequenos gestos impregnados de altíssima virtude. Diziam: “esta irmãzinha não fez nada que valha apena ser contado”. Tudo que restava de Teresinha na memória de suas companheiras de claustro era um sorriso afetuoso, e pouco mais do que isso. Mas na verdade, por trás daquele sorriso escondia-se um martírio silencioso, uma santidade exuberante vivida no dia-a-dia; em cada segundo; em cada suspiro; em cada pensamento; um coração abrasado de amor que os olhos não podiam ver.  

                     Para surpresa geral, alguns anos depois de sua morte, a humilde carmelita era enaltecida por S. Pio X como "a maior santa dos tempos modernos", e vinte e cinco anos mais tarde, em esplendorosa cerimonia na basílica de São Pedro, Teresinha era elevada aos altares. Daí por diante, a irradiação da humilde carmelita só fez crescer no orbe católico. Fora proclamada junto com S. Francisco Xavier, padroeira das missões, e em 1997, doutora da Igreja.


Canonizaçâo de Sta Teresinha na
Basílica de São Pedro


   Quanta glória alcançou a humilde carmelita que no dia de sua morte, não encontravam nenhum fato digno de figurar na notícia fúnebre.


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             A jornada espiritual de Teresinha inicia-se a partir do que ela chamara "a noite de sua conversão", quando abandonando os ressaibos de uma infância que se prolongava além de suas fronteiras, iniciava uma "caminhada de gigante" que iria culminar em uma nova forma de infância, sem melindres e birras, aquela infância que Nosso Senhor pediu no Evangelho a todos que queiram alcançar o reino do céu:
"...Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus”  (Mat 18, 2)."
   
    Desejosa da perfeição desde a mais tenra idade, sofria indizivelmente com sua impotência em alcançá-la!  

     “Sempre quis ser santa, mas quando me comparava com os santos, constatava haver, entre eles e eu, a mesma diferença que há entre o obscuro grão de areia pisado pelos transeuntes, e as altas montanhas cujos cimos se perdem no céu”.
 (Man. C  3).

    Teresinha queria trilhar os passos dos grandes santos, mas não encontrava em si, senão a pequenez de uma criança:
    “Sinto em mim outras vocações, a de um guerreiro, a de sacerdote, a de apóstolo, a de doutor, a o mártir; enfim, sinto a necessidade, o desejo de realizar para ti, Ó Jesus, as mais heróicas obras”.
 (Man. B 2).

    Mas a íngreme escada da perfeição a trilhar lhe abarrotava os ânimos: “De quantas mortificações era feita; de quantas virtudes?” Teresinha era uma “débil ave”, como se auto intitulava, e como uma débil ave poderia alcançar as sublimes alturas das grandiosas águias? Talvez Teresinha fosse uma débil ave, mas certamente tinha olhos e coração de destemida águia! E assim, pouco a pouco, empoleirada nas costas das grandiosas águias da Igreja (os grandes santos) foi desvendando os sublimes mistérios das alturas. Assim descobriu “novas luzes, e significados ocultos e misteriosos” (Man. A 83). Descobriu que se as grandes águias alcançam as majestosas alturas, não a fazem somente por suas forças, mas por seus corações que foram feitos para desbravar o infinito. E em seu peito --- Teresinha sabia --- havia o coração magnânimo de uma grande águia a palpitar.

    E descobriu que era o amor esta magnifica força misteriosa que impelia as grandes águias a  aventurar-se nas mais extremas alturas... Sim, Teresinha trazia “olhos e  o coração” de grande águia, mas escondidos na pequenez de uma avezinha. E com estes olhos e este coração, contemplaria as sublimes alturas.  

   Teresinha já não desanimava com sua pequenez e impotência; havia enfim encontrado repouso... Havia encontrado no âmago de seu ser uma nova visão do caminho:

“Enfim tinha encontrado repouso (...) compreendi que a Igreja tinha um coração, e que este coração arde de amor... compreendi que é o amor que leva os membros da Igreja a agir e que se, o amor viesse a se extinguir, os apóstolos não anunciariam mais o evangelho, os mártires se negariam a derramar seu sangue... compreendi que o amor abrangia todas as vocações, que o amor era tudo, que abrangia todos os tempos e lugares (...) então na minha alegria delirante exclamei: Ó Jesus, meu amor, enfim encontrei a minha vocação, é o amor!... sim, achei meu lugar na igreja, e este lugar ó meu Deus fostes vós que me destes...no coração da Igreja – minha mãe – serei tudo, serei o amor”.
 (Man. B 3).

    Por isso, a doutrina de Teresinha, é dignamente chamada de “divini amoris scientia” – ciência do amor divino.

  A ciência divina que emana de seus escritos nos revelam uma sabedoria sobrenatural, fruto de uma singular união esponsal com  coração de Jesus. Seu estilo é simples... Mas  inefavelmente belo e profundo.

   Aventurando-se nas sublimidades da ciência do amor, Teresinha, compreendeu que para ser grande não precisava realizar obras retumbantes e estupendas que impactassem o mundo, mas realizar obras impregnadas de grande amor, - mesmo que estas permanecessem na surdina, longe da admiração dos homens.
    Certamente estas obras fariam sorrir mais o bom Deus, que  escolheu o silêncio para realizar suas grandes obras. Assim foi com a silenciosa encarnação do verbo no seio da Virgem; sua infância e juventude silenciosa em Nazaré, e sua silenciosa ressurreição. Enfim, compreendeu Teresinha que o essencial não era fazer muito, mas amar muito, porque “nada é pequeno onde o amor é grande”.

Um dos lugares onde Teresinha pode contemplar sua pequena via fora no cotidiano da sagrada família de Nazaré, escrevia ela em sua "novissima verba":
“O que me agrada na vida da sagrada família, é de imaginá-la numa vida toda comum. Não tudo aquilo que nos contam, ou tudo aquilo que supomos. Por exemplo, contam que o menino Jesus depois de ter petrificado os pássaros da terra, assoprava sobre eles para lhes dar vida. Ah! De modo algum! O pequeno Jesus não fazia milagres inúteis deste tipo, mesmo que fossem para agradar sua mãe (...) tudo na vida deles ocorria como na nossa. Quantas penas, quantas decepções! Quantas vezes criticavam o bom São José! Quantas vezes recusamos pagar-lhe seus trabalhos! Quanto nos espantaria ao saber tudo quanto ele sofreu! (Novissima verba, 20 de agosto de 1897).

    A encontrou também no silencio do claustro com as flores diárias de pequenos sacrifícios cultivado com puro amor. Sofrer e amar, era o resumo desta via.
“Um dia no carmelo sem sofrimento, é um dia perdido.”  

O sofrimento é de fato o grande tesouro desta via! 
“O sofrimento, dizia Teresinha, é o nosso ganha-pão, e de tal modo é precioso que Jesus desceu a terra para possuí-lo!”. 

Em suas memorias, escreveu:
“O martírio, eis o sonho da minha juventude”. Teresinha sonhava com a palma do martírio, mas logo compreendeu que esta pequena via que agora trilhava, era um martírio diário sem derramamento de sangue.  Não precisava ser flagelada e crucificada como seu esposo adorado para lhe dar grandes provas de amor, ou murmurar o seu Santíssimo  nome na fogueira como Joana D´arc; podia oferecer o martírio diariamente ante tantas ocasiões que dir-se-iam: “insuportáveis”.

    Em coisas simples, Teresinha desprendia raios de heróica virtude. Eis mais um fato contado pela santa:
  "Encontra-se na, comunidade uma irmã que tem o dom de me desagradar em tudo, suas maneiras, suas palavras, seu caráter eram-me  muito desagradáveis, porém é uma santa religiosa que deve ser muito agradável a Deus. Não querendo entregar-me à antipatia  natural que sentia por ela, disse para mim mesma que a caridade não deveria assentar-se nos sentimentos, mas nas obras. Então apliquei-me em fazer por esta irmã o que faria  pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava por ela, oferecendo a Deus todas as suas virtudes e méritos. Sentia que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber elogios por sua obra, e Jesus, o artista das almas fica feliz quando, em vez de olharmos apenas o exterior, entramos no santuário intimo que ele escolheu para morar e admiramos sua beleza. Não me restringia a rezar muito pela irmã que me levava a tantos combates, procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis. Quando sentia-me tentada a responder-lhe de modo desagradável, contentava-me em  lhe dar meu mais agradável sorriso e procurava desviar a conversa, pois diz a imitação que é melhor deixar cada um no seu sentimento que entregar-se a contestação. Muitas vezes também, quando não estava no recreio (quero dizer, durante as horas de trabalho), tendo algum relacionamento de serviço com essa irmã, quando os combates se faziam violentos demais, fugia como desertora. Como ela ignorava completamente o que eu sentia por ela, nunca suspeitou os motivos do meu comportamento e estava persuadida de que o caráter dela me agradava. Um dia, no recreio, disse-me, aproximadamente as seguintes palavras com ar contentíssimo: “aceitarias dizer-me, irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim?” Pois cada vez que me olhais, vejo-vos sorrir! - Ah! O que me atraía era Jesus oculto no fundo da alma dela... Jesus que torna suave o que é amargo... Respondi que “sorria por estar contente em vê-la”  (obviamente não acrescentei que era do ponto de vista espiritual)” (Man. C 14).

Nestes pequenos gestos, Teresinha abraçava o seu martírio. E já que as grandes obras não se medem pela grandeza do ato, mas pela grandeza do amor com que é feita, logo, estes pequenos gestos poderiam ser postos lado a lado, com os estupendos martírios de tantos confessores da fé...  Conforme ensina São Luís de Montfort em seu "Tratado da Verdadeira Devoção: “A Virgem Santíssima agradou tanto a Deus com seus humildes trabalhos na pequena casa de Nazaré, quanto um São Lourenço estendido na grelha, por amor de Cristo”. Ambos agiram por amor de Cristo, mas quem poderá dizer quem amou mais?

Em outra ocasião nos narra Teresinha outra bela vitória sobre seu amor-próprio:

“Estava na lavanderia diante de uma irmã que me jogava água suja no rosto toda vez que levantava a roupa suja na tábua de bater. Meu primeiro movimento foi de recuar enxugando o rosto, a fim de mostrar à irmã que me aspergia que me prestaria serviço ficando quieta. Mas, pensei logo, que seria tolice recusar tesouros oferecidos tão generosamente. Evitei demonstrar minha luta. Esforcei-me por desejar receber muita água suja, de sorte que, no final passara a gostar desse novo gênero de aspersão e prometi a mim mesma voltar a este feliz  lugar onde se recebiam tantos tesouros.”

    Se Teresinha sentia na alma arder a chama sagrada de tantas vocações, “e o bom Deus nunca inspira desejos irrealizáveis”, Teresinha viveu todas as vocações no silêncio do claustro, com a insondável potencia do amor. Pois o amor era o coração da Igreja, era o sangue  que corria em suas veias, e que impulsionava todos os membros a agir. E que sem amor, a Igreja parava. 
Teresinha encontrou no amor a forma de ser tudo no corpo místico da Igreja, seria mártir, apóstolo, sacerdote, profeta, doutor... Pois é o amor que move as grandes vocações. Com razão a chama, a Santa Igreja de “Doctor Amoris” (Doutor do amor).  

     Sua pequena via, é a via do amor. Pois, conforme ensina o doctor mysticus (São João da Cruz): “o mais leve movimento de uma alma animada de puro amor, é mais proveitoso à Igreja  do que todas as demais obras reunidas ". (cf. Cântico Espiritual, Canção XXIX, 1)

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Teresinha trazia um amor extraordinário pela Igreja. Certa ocasião chegou a escrever o “credo” com o próprio sangue. “Sinto em mim a coragem de um cruzado...  E com que amor iria à guerra para  morrer em defesa da Igreja” (Man. B 2). Este amor pela Igreja, já era patente desde a mais tenra idade, quando muito pequena aprendera o catecismo palavra por palavra (Man. A,  37 ).

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     Com a saúde já debilitada, Teresinha costumava subir acabrunhada  longas escadas, oferecendo naqueles penosos passos, sacrifícios pelas almas, especialmente por aquelas que seriam conquistadas pelo labor de tantos missionários espalhados pelo mundo. Seu ardente amor pelas almas, expresso com tanta singeleza na sua intercessão abrasada pela salvação de todos (Man. C  34 - 35). Mostram-nos uma caridade heroica que ainda muito pequena já desprendia grandes fachos de luz. 

  Na infância, por acaso, ficara sabendo de um criminoso que seria executado por crimes hediondos. Teresinha então, ardeu de compaixão por aquela pobre alma que logo iria enfrentar a cólera divina. Sua angústia tornou-se maior quando soube que o criminoso havia se recusado a receber os últimos sacramentos. Seu coração não poupou sacrifícios por aquela alma. “A todo custo queria impedi-lo de cair no inferno” ((Man. A 45-46). Mas consciente de que nada podia sem os méritos infinitos do Bom Deus, pediu à sua irmã que mandasse celebrar uma Missa em sua intenção, sem lhe revelar que na verdade o fazia pela alma de um criminoso. Teresinha muito confiante na Misericórdia Divina, não pediu mais que um sinal. E este veio tão sutilmente, que se não fosse uma alma iluminada não teria percebido. No dia em que o infeliz Pranzine subiria ao cadafalso para ser justiçado, um gesto mudou seu triste fim: “Toma o crucifixo... e o beija três vezes’’ (Man. A 36).
Os lábios de 'meu “primeiro filho' foram colar-se às sagradas chagas! (Man. A 46). Pranzini  tornou-se o primeiro filho espiritual de uma virgem fecundíssima  que se formava.  

  Teresinha então se lançava com todo afinco a sua mais nobre missão, “conquistar muitas almas ao Divino Redentor”. Sábia que Jesus tinha uma sede ardente de almas, e “quanto mais lhe dava de beber, mais crescia em sua alma a sede” (Man. A 46)  

     Galgando a íngreme escada da perfeição, Teresinha chega a sua meta. Em 30 de setembro de 1897,  com os olhos fitos no crucifixo, entre suspiros, repetia emocionadamente o que professara a vida inteira: “oh! Eu o amo! meu Deus eu vos amo!”. E com um leve suspirar, o cândido passarinho alça voo aos braços de seu amado. 

Em uma de suas cartas – dirigida ao Padre Belliére – escrevera: “Não morro, entro para a vida” (Carta 244). E entrou para vida.
   Morria como sempre vivera. Entregara-se ao amor como avezinha impotente, empoleirada nas costas das grandes águias; alcançou as sublimes alturas e de lá deitou os olhos sobre o majestoso sol do amor, e atraiu para si, com seus frágeis gorjeios os fulgurantes raios da misericordia. 
Agora a avezinha de coração altivo ia definitivamente contemplar o majestoso sol do amor no dia eterno, e sobre a terra faria vir uma chuva de rosas.




quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Comunismo e a Igreja


Infinitas páginas narram a incompatibilidade da fé católica com os ideais materialistas do comunismo, todavia, o comunismo ainda é uma ideologia que arrasta numerosos membros da Igreja para as suas fileiras. Este texto não pretende ser mais eficaz ou mais eloquente do que tudo que já foi dito sobre essa ideologia nefasta. Ele busca simplesmente fazer coro a esta condenação que a Igreja repete desde o despontar desta ideologia no mundo.


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Há um único sonho a embalar o sangrento percurso revolucionário na história: a diabólica pretensão de criar uma civilização sem Deus. Mesmo que seus ideólogos neguem peremptoriamente essa intenção. 

Sob a foice e o martelo do comunismo e a custa de muito sangue, este "sonho" funesto esteve diversas vezes na iminência de se concretizar no mundo. Em uma destas ocasiões, no final dos anos 40, o comunismo soviético, que já havia se estendido por quase um terço da terra, tentou erguer, concretamente, uma cidade sem Deus. E a pedra angular daquele insano projeto foi lançada no coração da Polônia -- um dos países mais católicos do mundo --, em um distrito operário nos arredores de Krakóvia chamado Nowa Huta.
Alí, parecia, aos olhos comunistas, o cenário ideal para erguer esta nova civilização; arquitetada há tanto tempo pelos revolucionários. A civilização sem Deus, sem igreja, sem culto, sem sacerdotes e sem fé.

Mas, para a surpresa do Partido, os próprios operários que habitariam Nowa Huta ergueram em seu centro uma imponente cruz, e a seus pés, estabeleceram um fervoroso culto a Deus. 
Como era esperado, as autoridades comunistas trataram logo de levar ao chão aquele "incoveniente" simbolo e reprimir o culto que se fazia em torno dele. 

Por conseguinte, a derrubada da Cruz ocasionou uma onda de protestos pelo país, que durou três dias e deixou muitos mortos e feridos. Alí, o comunismo aprendeu que não seria tão fácil erguer uma cidade sem Deus no mundo.

* A pretensa "cidade sem Deus" estava dentro da circunscrição eclesiástica de uma das figuras mais importantes na luta contra o comunismo na época, o arcebispo Karol Woytiła (futuro João Paulo II), que viria a ter papel determinante nos rumos daquele projeto. 


Cruz de Nowa Huta

Daí por diante, uma luta continua se travava em torno da cruz de Nowa Huta. 

Na impotência de vencer a força da fé, a polícia comunista permitiu que a cruz permanecesse no local, mas sem a presença de fiéis em torno dela. Assim, não haveria quem a preservasse das intempéries do tempo, ou a substituísse quando estivesse deteriorada. Com o tempo, a cruz acabou ruindo, e a guarda passou a vigiar o local para que uma nova cruz não fosse erguida em seu lugar.

Porém, no dia do trabalhador (1 de maio), quando a guarda responsável por vigiar a cruz estava fora de seus postos, os fiéis corajosamente tomaram o local e ergueram uma nova cruz, e a partir daquele dia, a resistência tornou-se vez mais forte.

Em 1963, na noite de Natal, debaixo de forte chuva, uma multidão não se intimidou com o frio e a presença da polícia, e compareceu em peso sob a liderança de seu arcebispo para celebrar aos pés daquela cruz a Missa do Galo. 
O ato suscitou, inicialmente, alguns atritos, mas nada que impedisse o transcorrer do Santo Sacrifício.

No mesmo ano, vencendo todas as imposições, a cruz de Cristo é definitivamente fincada em "solo ateu" e, a pretensa cidade sem Deus torna-se um eloquente sinal da invencibilidade da religião no mundo.

* Em 1977 uma igreja começa a ser construída em Nowa Huta. 

A resistência que nascia em Nova Huta fora o inicio do vertiginoso efeito dominó que se desencadeou sobre toda a cortina de ferro erguida no leste europeu, levando a grande derrocada do comunismo bolchevique.

Ante o inevitável declínio comunista no leste Europeu, uma importante figura do PC, o general Wojciech Jaruzelski, reconheceu a principal responsável por aquela derrota: a Igreja.

Uma sociedade sem fé 

Mas o sonho comunista de construir uma sociedade sem Deus não morreu em Nowa Huta, tão pouco no desmoronar na cortina de ferro soviética, ele amadureceu com seus novos teóricos, Lukasz e Gramsci e toda a influente escola de Frankfurt deram nova roupagem aquela ideologia e novos planos de ação, mais inteligentes e eficazes. E a Igreja que um dia dera golpes fatais no bolchevismo, era, mais uma vez, vista como um grande empecilho para a realização da sociedade comunista no mundo. 

Assim, a estratégia leninista de iniciar a revolução com a tomada do Estado, deu lugar a uma nova estratégia mais meticulosa e eficaz, de "transformação das consciências" por meio da possse dos meios de produção cultural. Conquistar primeiro as mentes e os corações para depois conquistar o Estado, er ao plano. 
Atualmente vemos as estratégias Gramsciana e Lukacziana em pleno curso dentro de todas as instituíções da sociedade, inclusíve a Igreja, ou dir-se-ia, principalmente dentro da Igreja, que nas ultimas décadas tornou-se caixa de ressonância das ideias comunistas.

O comunismo encheu nossos púlpitos, nossas escolas, nossos rádios e jornais de discursos marxistas. Aprendeu com o tempo que transformar é muito mais vantajoso que perseguir. 

* O comunismo, dito ocidental, viu a religião crescer com a perseguição armada, a estratégia mudou. Não há mais domínio armado, há domínio psicológico. Não se conquista territórios... Se conquista corações. 

A Doutrina Comunista

A doutrina comunista postula que a vida é produto de forças cegas e ocultas, e que todos os princípios que regem nossa sociedade não são produtos de forças naturais ou superiores, mas foram forjados por uma classe que se sobressaiu na história (a burguesia) e deu origem a sociedade capitalista dominante. 

Para Marx, o homem nasceu livre e sem classe, a sociedade nasceu sem empregados e patrões; família, ou qualquer forma de contrato social... O modo de produção capitalista transformou isso, e o Manifesto Comunista de 1848 classificou os homens entre "oprimidos e opressores", que vivem em constante oposição. 
A opressão começa quando alguém toma posse do que é de todos, dando origem a propriedade privada, que consequentemente gera a relação de poder entre os homens, e daí por diante, a sociedade passa a ser uma continua luta de classes, entre opressores e oprimidos, que se digladiam constantemente em torno do Capital. 

Esta luta só terá fim, pensava Marx, mediante a revolução do proletariado, que inaugurará a sociedade igualitária e livre, abolindo todas as divisões de classes e por conseguinte, toda autoridade. Porém, quando a utopia saiu do papel para o terreno prático, o resultado foi catastrófico. 


** * **

Todo este ideal é inviável por ir contra a ordem natural das coisas... Mas, para Marx, não existe uma ordem natural, tudo é convenção social e passível de intervenção humana. 
Mas a desigualdade é um fator natural que faz parte da criação; querer nivelar todas as coisas, colocá-las no mesmo patamar é insano e inviável. Prova-nos todas as tentativas que culminaram em grandes tragédias: A China de Mao, a Cuba dos irmãos Castro, o Camboja de Pol-Pot, a Russia de Lenin e Stalin, são exemplos do que é a sociedade comunista... Terror, opressão, desigualdade e muito sangue derramado. O total oposto do que propõe a teoria comunista.

Apesar da tragédia que foi o comunismo na história, nos livros didáticos ele ainda é representado como o cândido ideal de uma sociedade sem classes, sem posses, onde tudo é de todos. Embora, por trás destes nobres ideais oculta-se a mais cruel tirania. 

A tragédia do comunismo é resultado mais que previsível dos preságios cínicos de Marx.
Porém, aos comunistas sempre resta o velho subterfúgio de afirmar que o comunismo não foi interpretado corretamente, tão pouco bem aplicado.  Mas aí surge a mais natural das perguntas: onde o comunismo deu certo? Se não deu certo em lugar nenhum, esta não é a prova mais segura de que ele é um grande erro?

Sobre as fajutas promessas do comunismo escreveu Mons. Fulton Sheen: “O comunismo entorpece os pobres, prometendo-lhes o que não lhes pode dar, a saber, um paraíso na terra”. (cf. SHEEN, Fulton. Comunismo: O ópio do povo)

Um sistema ateu

Em 1905 Lenin fez a seguinte afirmação: ‘‘O nosso programa comunista inclui a propaganda do ateísmo’’ (cf. Novoya Zhizn n. 28). E em sua carta a Gorki foi mais incisivo: "Deus é o inimigo pessoal da sociedade comunista". 
O Bezbojnik, jornal comunista, em 1934 assim se manifestava: ‘‘a educação comunista das crianças requer explicitamente a educação anti-religiosa’’. 
Não esqueçamos que para Marx, o grande mentor desta catástrofe, ‘‘a religião é o ópio do povo’’ (cf. MARX, Karl. A Crítica da filosofia do direito de Hegel). Logo, para o comunismo a religião precisa ser extirpada do mundo, mas antes disso, deve ser extirpada do coração do homem.

A Igreja em face do comunismo

Por estes e tantos motivos, o comunismo, desde suas origens, é reiteradamente condenado pela Igreja: de Pio IX à Bento XVI. A antinomia dos princípios é tão gritante que o Santo Padre Pio XI afirmou que "ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro comunista" (cf. Quadragesimo anno). E o motivo é óbvio: O materialismo intransigente, que é um de seus princípios básicos, não se coaduna  de nenhuma forma com as verdades eternas do Evangelho. 

Mas o ponto mais condenável deste sistema é sua visão hedionda do ser humano. O comunismo proclama que há uma só realidade universal: a matéria, e tudo deve ser explicado somente por este critério. Logo, tudo que não se explica materialmente, deve ser negado e combatido. 
Para o comunismo o único fim do ser humano é o fim econômico. Assim, simplifica o homem a uma simples molécula do organismo social, como tão bem observou João Paulo II:
"O  erro fundamental do socialismo é de caráter antropológico. De fato ele considera cada homem, simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social’’ (cf. Centessimus annus, n. 13). 

Para o comunismo, o homem é ainda "Um macaco que se humanizou pelo trabalho" (cf. Friedrich Engels. Sobre o trabalho na transformação do macaco em homem). 

Com visão tão odiosa do ser humano, como não combater esta doutrina? 
Portanto, não é em nome do capitalismo, da democracia, da religião ou de qualquer outro sistema que a Igreja condena e combate o comunismo, mas em nome da dignidade humana que ele ameaça. 

O principio da ‘‘igualdade absoluta’’, destrói a personalidade individual de cada homem e nega sua dignidade, colocando o na mesma posição de qualquer outra criatura. Como sua dignidade poderá ser respeitada por um sistema que de antemão decretou e o nivelou a uma mera molécula do sistema? 

Bento XV o classificou como o inimigo mais implacável dos princípios cristãos. (cf. Bento XV. Enc. Bonum sane). Sua essência é tão grave que o chamou Leão XIII de "peste mortífera que invade a medula da sociedade humana e a conduz a um perigo extremo" (cf. Enc. Quo Apostolici Muneris, 1878).  E por sua constituição maléfica, o comunismo é intrinsecamente mau em seus princípios e em seus métodos, não pode ser conciliado com a fé cristã. Por isso, todo aquele que adere a este nefando sistema, conforme decretou S. S Pio XII, no Decretum contra Communismum de 1949, está excomungado latae sententiae.

Tristes páginas deste regime: Resultados fatais da ideologia

Em sua história, o comunismo legou as páginas mais cruéis que já viveu a humanidade. Após a queda do muro de Berlin com a abertura dos arquivos dos países comunistas, foi revelado o horrendo pesadelo por trás daquele insinuante ideal.

De baixo da cortina de ferro, penavam populações inteiras sob a mais cruel tirania. Na obra monumental "le livre noir du comunisme: crimes, terreur et répression" (1997), organizada por vários historiadores, de esquerda, (Stéphanie Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Pannée, Andrzej Paczkowski, Karel Bartozek, Jean-Louis Margolin), afirma-se, com uma vasta documentação, que o comunismo em sua história fez mais de cem milhões de vítimas. 

Não houve país em que este sistema se implantasse, sem que o direito a liberdade não fosse suprimido e a discordância brutalmente  reprimida. 

O comunismo é minunciosamente opressor, o que unicamente importa é o lucro, obtido sob todas as formas, inclusive as mais desumanas. Por esta razão, chamou o Santo Padre João Paulo II a este sistema de um simples "capitalismo de estado" (cf. Centesimus annus, 35). Pois, se no capitalismo as riquezas ficam concentradas nas mãos de poucos, no comunismo ela fica toda nas mãos de um partido.

Casos revoltantes eram corriqueiros na sociedade comunista. A injustiça predominava na União Soviética e em seus congêneres. De 1930 a 1933 o partido comunista mandou 35 funcionários para o fuzilamento por causa de um fracasso na colheita. Em 1932 o Partido Comunista na União Soviética publicou uma nota advertindo os agricultores das fazendas coletivas que o roubo de uma simples espiga seria punido com a morte: “O culpado deve ser fuzilado e seus bens confiscados” (cf. Izvrtia, 8 de Agosto de 1932). 

Em 1935 o partido ordenava as crianças a partir dos 8 anos guardar as colheitas: “guardarão os campos mesmo durante a noite, desde que tenham oito anos” (cf. Moldaia Guardia, 17 de agosto de 1935). Estes são alguns exemplos para ilustrar a condição em que viviam os povos sob domínio comunista. 

Diante de tanta opressão, qualquer um que ousasse erguer-se contra o funesto sistema, podia ser no mínimo, enviado aos terríveis gullags (campos de trabalho forçado), -- grande símbolo da sociedade comunista, que ficavam nas regiões mais inóspitas da terra sem qualquer condição de sobrevivência aos seus condenados. 
Os horrores daqueles infernos brancos foram retratados esplendidamente por Danzig Baldaiev em suas mais de duzentas gravuras.


Prisioneiros em Gullag Soviético

Sabe-se que até crianças eram enviadas aos gullags. Qualquer manifestação contra o governo era reprimida com violência, como aconteceu em 1989 na praça da paz celestial (Tian´anmen, China) em que mais de sete mil (segundo os sobreviventes) foram enviadas literalmente para a paz celestial, antes, é claro de ter passado pelo inferno comunista.  

De 1932 a 1933 o Partido Comunista condenou a fome a Ucrânia, no famoso genocídio conhecido como “Holodomor”, onde pelo menos cinco milhões de pessoas morreram de inanição, por conta da supressão de alimentos feita pelo governo soviético. 


Ucranianos sob o Holodomor

O el paredon de Fidel Castro em Cuba até o ano de 1960 já havia mandado mais de 14.000 pessoas para o fuzilamento. 


Durante o Holodonor,
até o canibalismo foi praticado
 como forma de sobrevivência 

Na Romênia durante o sangrento regime do ditador Nicolas Ceausescu, além do número exorbitante de mortes promovidas pelo regime, um fato macabro marcou o despótico período. O ditador que sofria de leucemia, mandava exanguir os corpos de suas vítimas para fins terapêuticos. (cf. NBR-HANDELSBADLAD, Raymond Van de Boogard. Massagaf in Timisoara werd kerkhof van betrovwbaarheid). Cenas macabras como estas tornaram-se comuns debaixo da cortina de ferro comunista. 

Na Lituânia, o comunismo matou e mandou prender milhares de sacerdotes e fiéis leigos e todos quantos defendessem a liberdade. Estas tristes páginas encontram-se até hoje registradas simbolicamente nas milhares de cruzes e objetos sacros que se encontram na famosa ‘‘colina das cruzes’’ localizada no norte do país. 

Na Polônia, o terrível massacre de Katyn (1939-1941) deixou marcas indeléveis na alma daquele povo. 


Massacre de Katyn

O comunismo foi o maior flagelo que já se abateu sobre a terra. Causou mais mortes que todos os furacões, tempestades, terremotos e outros desastres naturais juntos... No entanto, ainda é sumamente louvado em nossas escolas e universidades, e tenebrosamente, é a ideologia mais propagada pelo mundo.

Conclusão

As tristes páginas do regime comunista na história, também nos revelam belos capítulos da resistência heróica do povo cristão. Vale lembrar a esplendorosa resistência espanhola no Alcácer, contra as nefandas forças comunistas que devastavam a Espanha. Igualmente, no México, o exuberante exemplo dos cristeros, que bradavam valorosamente contra os inimigos da fé. E em tantos países em que a nefasta ideologia comunista verteu sangue inocente, sempre existiu os mais belos exemplos de heroísmo e coragem, provando que o bem semre triunfa sobre o mal.

O comunismo tentou de todas as formas suprimir a religião, e com seu materialismo provar que não há Deus, mas só o que conseguiram, como esplendidamente afirmou Fulton J. Sheen, foi nos provar que há demônios.

Vimo-los (os comunistas) proscreverem a religião na Rússia, desterrarem o seu clero e matarem o seu povo. Vimo-los fecharem as Igrejas do México. Vimo-los crucificarem os padres na Espanha, abrirem os túmulos de religiosas e espalhar-lhes os restos mortais diante das portas da catedral. Vimos os seus museus anti-religiosos. Lemos sua literatura anti-Deus mas, tudo que o vimos e ouvimos fazerem contra a religião não nos convenceu de que não há Deus. Eles apenas nos convenceram que existem demônios. 
(Mons. Fulton J. Sheen, in Comunismo: o ópio do povo)



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

50 Anos de Vaticano II


Com a silenciosa convocação do ano da fé em comemoração aos 50 anos de abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965), desencadeou-se  na Igreja – mas que nos anos anteriores – sérias impugnações ao referido concílio. E tais impugnações, na maioria das vezes, partem de bons católicos que, naturalmente, sentem-se perplexos ante o turbilhão de mudanças que se seguiu na Igreja após o Vaticano II e a dessacralização e relaxamento da vida espiritual.



Mas, estas impugnações não nos revelam um fato novo na história da Igreja. Épocas semelhantes de contestação já se viram na história.

Vale lembrar a terrível crise que assolou a Igreja após o concílio de Nicéia (325). O período de crise foi tão avassalador que S. Basílio Magno chegou a comparar a situação da Igreja na época à uma batalha naval: 

‘‘Ao que se assemelha a situação atual? Assemelha-se à um combate naval". (cf. Tratado sobre o Espírito Santo, 75, p. 182-183). E em outro lugar, comparou o mesmo santo a Igreja pós-conciliar ‘‘à um barco em alto mar... Navegando a esmo, sem rumo, sacudida pela violência das ondas’’.

O mesmo se deu no ápice do grande cisma do ocidente, onde três papas reinavam, gerando grande confusão entre a cristandade. Santos taumaturgos chegaram a escolher o lado errado e combater o Papa legítimo. 

1688 anos nos separam do concílio de Nicéia mas, a situação atual da Igreja não é muito diferente da situação descrita por S. Basílio no século IV. 

A situação da Igreja do século XXI pode ser comparada à uma barca em mar revolto, sacudida pela violência das ondas. E este mar revolto, com toda justiça, pode ser associado ao modernismo dessacralizador que impera no seio da igreja. 

O filosofo Jean Guitton, amigo de Paulo VI, expressa com muita clareza, o sentimento que acomete a todos os bons católicos que leem os documentos conciliares: 

‘‘Quando leio os documentos concernentes ao modernismo, tal como ele foi definido por São Pio X, e os comparo com os documentos do Vaticano II, não posso deixar de ficar desconcertado. Porque, o que foi condenado como heresia em 1906, foi proclamado como sendo e, devendo ser, doravante a doutrina e o método da Igreja’’. (cf. GUITTON, Jean. Portrait du père Lagrange. Éditions Robert Laffont, Paris, 1992, p. 55-56). 

Como Jean Guitton, quem não sente tal desconcerto? 

Bento XVI  vê o problema de outra forma, não  no concílio, mas em uma perigosa interpretação feita dele, ao que o Santo Padre chamou sabiamente de ‘‘hermenêutica da descontinuidade (ou da ruptura)’’. 

Estaria o erro no Concílio ou na sua interpretação? Os textos conciliares deixaram margens para esta perniciosa interpretação? 

Não nos presumimos a autoridade adequada para julgar tal questão, mas de uma coisa estamos certos: atentar contra o concílio pode significar, atentar contra o Papa, afinal, já foram sete papas a aprová-lo, e atentar contra o Papa, como bem afirmou um certo pensador argentino, 'seria como cortar o galho em que se está sentado'. 

E se muitos se perguntam: como encarariam os grandes santos, se vivessem no século XXI, tais mudanças na Igreja advindas do Concílio? Creio que certamente se lamentariam bastante, mas, com mais certeza, creio que se lamentariam mais ainda com os que rompem com a Igreja e afrontam com duros golpes a pessoa do Papa.  

Pecam por desespero, por acharem a crise maior que o poder de Deus. Pecam por soberba, por acharem-se auto-suficiente o bastante para prescindir de toda a autoridade. Mesmo que a situação seja caótica, e até desesperadora, devemos sempre pensar em como os mestres de virtude, os santos, encararam esses momentos. 

Celebre é a frase de Sta Teresa de Ávilla, em que a grande mística expressa sua descomedida obediência à Igreja: ‘‘Em tudo me submeto ao que professa a Santa Igreja Católica’’. E Sto Inácio de Loyola vai mais longe em sua obediência filial. Escreve  o santo em seus Exercícios Espirituais: ‘‘Eu acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da Igreja assim o tiver determinado’’. 

Muito mais lamentável que os erros que se abatem sobre a Igreja é a postura cismática. Não é mais fácil expelir a fumaça de satanás, que como disse Paulo VI, "penetrou no templo de Deus", de dentro da Igreja do que de fora dela? 

Uma heresia faz grande mal à Igreja, um cisma não deixa de ser um mal menor. 

Entre afrontas e discordâncias internas e externas, a Igreja segue neste mar tempestuoso do século XXI, sob os braços sempre firmes do alvo timoneiro, guiado pelo Espírito Santo. 

Entre as milhões de vozes  que se erguem no mundo, emitindo tantas opiniões sobre a crise, continuo a ouvir aquele sobre o qual foi dito: ‘‘Tu és Pedro e sobre ti edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela’’. 

Portanto, Indubitavelmente a opinião mais significativa neste contexto sempre será a do Santo Padre, e sua visão sobre a crise em nada perde para os tantos críticos incisivos do concílio. 

Diz o Santo Padre: 

‘‘Surge a pergunta: por que a recepção do concílio em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do concílio ou como diríamos hoje, da sua correta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. 

Os problemas da recepção derivam do fato de que duas hermenêuticas contrarias se embateram e disputaram entre si [...] por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir como ‘‘hermenêutica da descontinuidade e da ruptura’’; não raro, ela pode valer-se da simpatia da mass media e também de uma parte da teologia moderna [...] a hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar’’. (cf. S. S Papa Bento XVI, discurso de 22 de dezembro de 2005). 

Embora muito se critique os textos dos documentos conciliares, o que foi aplicado em nossas igrejas não foi o Concílio Vaticano II, mas uma caricatura mal feita dele. 

Querer conter os ventos inovadores, saindo da Igreja é como abandonar o barco no meio do oceano. 

Assim encerra (Bento XVI) sua reflexão sobre o concílio: 

‘‘Se  o lemos e recebemos (o Vaticano II) guiados por uma justa hermenêutica, ele pode  ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja’’. (Discurso 22/12/05). 

Um fato simples e memorável na história da Igreja, mas de grande significância para a nossa consciência, foi um grito que ecoou dos lábios de milhões de jovens na praça de S. Pedro em abril de 1869 em audiência com o Papa Pio IX: 

‘‘Sim, até a morte’’, dizia o entusiasmado coro de jovens da Ação Católica em obediência as palavras de Pio IX. 

Façamos nosso este lindo brado: ‘‘até a morte!’’, ‘‘sempre com o Papa!’’. 

Sabemos  que em tempos de crise só está seguro quem está com  Papa.



Uma Igreja em crise





          
               Em todos os seus séculos, a barca da Igreja jamais navegou em mares tranquilos. Sempre teve que enfrentar mares revoltos. As perseguições sempre foram sua herança terrena. Foi isto que o mundo legou a seu Divino Fundador, e não poderia ser outra herança legada a seu copro místico: a Igreja.
A Igreja, nestes tempos modernos, nestes mesmos mares, entre novas tempestades, exclamará enfadonha aquela clássica frase de Cícero: "Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas"  (já vi outros ventos e enfrentei outras tempestades) (cf. Cícero, Familiares, 12, 25, 5).
Em todos os séculos da Igreja, em cada crise que se abatia sobre ela, sempre houve aqueles que anunciavam festivamente o seu fim; sempre existiram aqueles que em cada crise viam um sinal evidente de seu perecer, mas, estupefatos, viam-na sempre reerguer-se triunfantemente e prosseguir seu peregrinar na História. E uma crise sucede outra crise, e a Igreja avançava, imponente e gloriosa “entre as aflições dos homens e as consolações de Deus”. Os fatos que iremos narrar, evidenciam com muita clareza isso.



*** * ***

UMA IGREJA EM CRISE




            Do final do século XVIII ao início do século XIX, a Igreja enfrentou uma de suas maiores crises. 
Toda a Europa estava tomada pelos nefandos ares da Revolução Francesa, que há pouco tempo havia estourado na França de onde difundiu para o resto da Europa sua fumaça maligna. Os bens da Igreja eram confiscados; sacerdotes e fiéis eram guilhotinados.. Junto a estes terríveis males, no seio da Igreja vingava e prosperava a terrível heresia jansenista, que arrastava numerosos membros do clero às fileira da apostasia. 

A situação se agrava a cada dia, quando em 1796 as forças republicanas francesas, sob o comando de Napoleão Bonaparte (1769-1821), invadiram os Estados Pontifícios, e dois anos depois, em 1798, levam cativo o Santo Padre Pio VI (1775-1799) o enviando a um degradante exílio na França, – onde o pontífice faleceu em 1799.

Diante deste quadro desesperador, os inimigos da Igreja não hesitaram em proclamar o seu iminente fim. Os jornais iluministas estampavam festivamente em suas primeiras páginas le fin de l’Église. 
Nenhuma instituição humana poderia resistir a tantas adversidades! Mas a Igreja não era uma instituição humana, e iria provar isso no desenrolar daquele nebuloso período. 

Com Roma ocupada e o Papa morto, os cardeais precisavam eleger um novo pontífice, e isto, fora de Roma, por conta dos diversos perigos que ameaçavam o transcorrer daquele processo. Por conta deste perigo, foi escolhida como sede do conclave, uma ilha escondida, chamada San Giorgio Maggiore, em Veneza.

O Conclave durou um ano, e curiosamente, elegeu um cardeal com o mesmo nome da ilha em que acontecia o conclave. Giorgio, Giorgio Chiaramonti. E em ato de homenagem a seu sofrido predecessor, adota o nome de Pio VII.

Mas a alegria da cristandade com o novo papa dura apenas 8 anos.

Em 1809, o Papa recém eleito teria que enfrentar novamente a fúria do prepotente Napoleão Bonaparte, agora Imperador da França, que num ato tirânico, incorporava os estados pontifícios ao Império Francês. 
Em resposta, Pio VII emitiu nota de excomunhão ao tirano.
Ao ser comunicado da excomunhão, o Imperador respondeu sarcasticamente ao Cardeal Caprara: ‘‘Por causa disso, acaso irão cair as armas das mãos de meus soldados?’’.

Conforme narra o Conde de Ségur, durante a fracassada Campanha Napoleonica na Rússia, em 1812, os soldados de Napoleão se deram com um fato extraordinário. Suas armas tornaram-se demasiadamente pesadas para seus braços, de modo que era quase impossível carregá-las. (cf. SÉGUR, conde de, apud HERION, barón. Historia general de la Iglesia. 2º ed. Madrid: Ancos, 1854, t. VIII, p. 153).
Ainda em represália à excomunhão recebida, Napoleão – tal como fez a Pio VI –, mandou prender Pio VII em Savona, onde o Santo Padre permaneceu por quatro anos, até 1813, quando foi transferido para Fontainebleau, onde passou seu último ano de exílio.

Em 1813 acontecia a grande reviravolta. Napoleão sofre uma vergonhosa derrota em Leipzig, e no ano seguinte, é deposto, e – ironicamente –, exilado por dois anos na ilha de Elba, tal como fez a Pio VI. Após dois anos de exílio em Elba, Napoleão consegue fugir, e encetar um retorno ao poder, mas é definitivamente derrotado em 1815 na célebre batalha de Waterloo, e exilado em Fontainebleau, onde passou seus últimos seis anos de vida – o mesmo local onde exilou Pio VII.

Esta extraordinária reviravolta causou grande temor no povo francês perante a figura do Papa, de modo que se convencionou dizer na época: “Quem põe as mãos no Papa morre!”

O impiedoso Napoleão passou seus últimos anos no exílio onde morreu. Pio VII, seguiu avante na chefia da Igreja e reinou até 1823. E o prepotente grito de Napoleão: Je detruirai votre Église (Eu destruirei vossa Igreja), se perdeu no tempo, e a Igreja prosseguiu em seu peregrinar – tal como escreveu Santo Agostinho, “através da impiedade dos tempos, vivendo cá em baixo pela fé. E com paciência, espera a estabilidade da eterna morada, quando a justiça for restabelecida” (cf. De Civitate Dei, 18, 15, 2) – chegando aos sombrios dias do século XXI, novamente sacudida por duros golpes desferidos de todos os lados pelo mundo moderno, filho da Revolução Francesa.

Mas, o que são os golpes e as críticas de um mundo decadente à uma Igreja que há mais de dois mil anos é criticada e golpeada? O que são as perseguições para uma Igreja que há mais de dois mil anos é perseguida? O que são os anúncios de crise que se alardeiam sobre ela? Que crise é esta que se anuncia há mais de dois mil anos? Há mais de dois mil ameaçam destruí-la; há mais de dois mil anos anunciam o seu fim. O que vemos após estes presságios pessimistas do mundo? Uma Igreja que sempre ressurge imponente, enaltecida e gloriosa. Afinal, quem está em crise: a Igreja ou o mundo que a combate?
E por quê esta força e esta imponência? Porque a Igreja é divina! Porque é sustentada por seu Divino Fundador: Jesus Cristo.

Pode a Igreja vacilar? interroga Santo Agostinho, e responde: “A Igreja vacila se seu fundador vacilar, como Cristo não vacila, logo a Igreja há de durar até o fim dos tempos’’ (cf. Enarrat. in Psal. 103, ser. 2, n. 2). Verdade expressa há mais de dois mil anos e facilmente comprovada nestes mais de dois mil anos de História.

A Igreja foi gerada no calvário, e tal como seu fundador, sempre haverá de provar o seu cálice amargo e o traiçoeiro beijo de Judas, mas ao final, sempre ressuscita gloriosa com seu fundador.
O problema é saber se estaremos nela quando então triunfar.

O pérfido Voltaire com seu ódio abrasado ao cristianismo costumava dizer: ‘‘Estou cansado de ouvi dizer que bastaram doze homens para implantar o cristianismo no mundo, e quero provar que basta um para destruí-lo’’. O grito ameaçador de Voltaire se dissipou no vento da História, assim como o de Napoleão e tantos outros inimigos da religião que hoje encontram-se sepultados no tempo, enquanto a Igreja prossegue seu peregrinar rumo a eternidade.
O grande autor inglês G. K Chesterton escreveu que ‘‘os inimigos da Igreja já perderam a esperança de ver o seu fim’’. De fato, porque a Igreja é invencível, pois Cristo semper vincit! Onde estão os que pretenderam destruir a Igreja? Sepultados no silêncio.

Para encerrar, deixo uma verdade de fé, que nunca podemos esquecer.

Escreve S. Pio X:
‘‘A Igreja pode ser destruída ou perecer?
Não -- responde o pontífice --, a Igreja Católica pode ser perseguida, mas não pode ser destruída ou perecer. Ela há de durar até o fim do mundo, porque até o fim do mundo Cristo estará com ela’’.
(cf. Catecismo Maior de São Pio X, n. 176)



ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...