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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Lucto et emergo



Os campos tranquilos da Holanda são preservados há séculos da destruição por grandes diques poçantes erguidos para conter a fúria dos mares. As pessoas que vivem na Holanda, especialmente em uma das cidades mais ameaçadas por inundações, (Nieuwekerk Aan de Ijssel), -- de um lado pela maré alta, de outro, por eventuais inundações dos rios que a cortam --, desfrutam de imperturbável e invejável tranquilidade.
Mas, aquela serenidade que experimentada pelos holandeses de Nieuwekerk, é garantida pela segurança daqueles diques erguidos por grandes sacrifícios humanos, que caso venham se romper, a tragédia é incomensurável!

Grande dique da Zeeland, construído entre 1927 a 1933

A ilha de Zeeland, -- onde está situada Nieuwekerk --, área de maior risco de inundações, está a sete metros abaixo do nível do mar. Algumas vezes, esta ilha, teve sua serenidade abalada com o rompimento repentino de seus diques, ceifando milhares de vidas, mas a Zeeland sempre se ergue, e enfrenta com bravura a fúria do mar, erguendo diques mais poderosos que os anteriores. 

Em sua bandeira está estampada o lema que traduz sua luta secular contra os mares. Lucto et emergo (Luto e emerjo).


Digamos, que alguém se erga e comece a vociferar contra aqueles diques "repressores" que impedem os mares de "avançarem" sobre a Holanda. Obviamente, todos o reputariam por um  louco em potencial, incapaz de viver em sociedade.  
No entanto, diariamente se erguem muitos insanos contra os diques morais da humanidade que há séculos preservam a sociedade das mais avassaladoras tragédias!
Quantos males vimos brotar do abandono das leis naturais e divinas? Males bem mais destrutivos que as inundações na Zeeland, resultantes de rompimentos de diques marítimos. 
A mesma Holanda que se ergue imponente contra o avanço do mar, não é capaz de impedir sua degradação moral.
A Holanda que evangelizou o mundo, com um numero excepcional de missionários, hoje é tomada pelo paganismo; a Holanda de tantos santos e até mártires, hoje é a terra da prostituição legalizada e enaltecida, onde mulheres são expostas em vitrines como mercadorias; onde jovens se afundam nas drogas, que podem ser facilmente encontradas em cada esquina.

Mulheres nas vitrines, Distrito da Luz Vermelha, Amsterdan

O país que venceu a fúria dos mares, não evitou sua auto-destruição!

*****

Martíres de Gorkum (Holanda)

A Holanda do século XXI não é mais a Holanda serena de outrora. A Holanda dos santos e dos mártires; a Holanda dos missionários; a Holanda que luta contra os mares, já foi submersa pela devassidão.

O último senso religioso realizado no país apontou que apenas 5% de sua população católica ainda vai à Igreja. A future for religious heritage apresentou um dado ainda mais assustador: o país só tem 179 seminaristas, e pelo menos 700 igrejas serão entregues ao uso profano por conta da ausência de fiéis. 

O que se pode dizer sobre este triste cenário da Igreja na Holanda?

A Holanda, historicamente, também protagonizou tristes cenas de rebeldia contra a Santa Sé. De lá veio a rebelião que naturalizou a comunhão na mão; de lá veio uma terrível iconoclastia que levou homens santos ao martírio; de lá veio o movimento da devotio moderna, que culminou em novas e terríveis heresias; de lá veio o terrível cisma dos chamados "vetero-católicos" que se opunham a infalibilidade pontifícia. Enfim, com tantas sementes de rebelião plantadas ao longo de sua história, só poderiamos esperar frutos amargos no futuro.


terça-feira, 26 de julho de 2016

De filha primogênita da Igreja à filha errante


Notre-Dame de Paris, símbolo da França antiga

“Um dia virá -- espero que não seja tão longe -- no qual a França, como Saulo no caminho de Damasco, cairá rodeada por luz celestial e escutará uma voz: Por quê me persegues? Levanta-te, limpa as tuas manchas, reaviva teus sentimentos e vai-te outra vez, como filha primogênita da Igreja, levar o meu Nome a todos os povos e a todos os reis da terra!" 

(Pio X. Alocução consistorial. 
Vi ringrazio, de 29 de novembro de 1911, Acta Apostolicae Sedis, Typis Polyglottis Vaticanis, Roma, 1911, p. 657)




            Em tempos mais remotos, e mais cristãos também, a França foi chamada le Royaume de Marie (o reino de Maria), por conta de magníficas manifestações da Mãe de Deus em suas terras, dentre as quais, as mais célebres foram as Lourdes, La Salette, Rue du bac, Pontmain, Valenciennes, Tilly-sur-Seulles...

Alem destas magnificas aparições marianas, a França foi favorecida com aquela que foi chamada por alguns pontifices "a grande revelação": As aparições do Sacré Cœur de Jesus (Sagrado Coração de Jesus) a Sta Margarida Maria Alacoque entre 1673 e 1675. 


Nestas aparições, o Coração de Jesus pedia ardentemente a consagração da França a Ele para livrá-la de um flagelo iminente. Os apelos do Sagrado Coração de Jesus não foram ouvidos e, um século depois, a França era castigada com uma das maiores catástrofes que já se abateram sobre suas terras: a sangrenta Revolução Francesa.

Passando-se 57 anos do terror revolucionário, a Divina Providência mais uma vez vinha alertar a França. Agora, por meio da Virgem Santíssima. 

Em La Salette, lugarejo que mal figurava no mapa, humildes crianças transmitidam uma mensagem aterradora vindo de Deus à França e ao mundo:
“Ao primeiro golpe de sua espada fulgurante [refere-se a Deus], as montanhas e a natureza inteira tremerão de espanto, porque as desordens e os crimes dos homens transpassarão a abóbada celeste. Paris será queimada, e Marselha engolida [pelas águas]".
Novos castigos viriam sobre a França, e mais uma vez a Divina Providência os vinha alertar.
170 anos depois dos alertas de La Salette, a França já não pode mais ser chamada, como outrora, le royaume de Marie -- tornou-se indigna deste nome--; tão pouco, ainda pode ser chamada "filha primogênita da Igreja", seria até blasfêmia assim chamá-la, pois, na atualidade, esta filha desgarrou-se miseravelmente da casa paterna; negou sua primogenitura; rasgou suas vestes batismais, tornando-se filha errante e difusora de toda espécie de erros sobre a terra... E agora, devastada, se vê entregue a seus inimigos, que em outros séculos a temiam. Hoje a saqueiam e a arruinam livremente. Paris está em chamas! 

Mas, em meio ao caos que se alardeia em suas terras, uma luz desponta do passado -- como praticamente tudo de bom que ainda resta nesta nação. Há mais de 100 anos, São Pio X, assim profetizava:
“Um dia virá - espero que não seja tão longe - no qual a França, como Saulo no caminho de Damasco, cairá rodeada por luz celestial e escutará uma voz: Por quê me persegues? Levanta-te, limpa as tuas manchas, reaviva teus sentimentos e vai-te outra vez, como filha primogênita da Igreja, levar o meu Nome a todos os povos e a todos os reis da terra!" 
Esperamos ansiosos o momento em que a terra dos cruzados desperte de seu longo torpor, e volte a entoar o temível Dieu le veut, incutindo o velho temor nas faces de seus inimigos.





                           *** * ***



St Bernard prêchant la II Croisade à Vézelai en 1146, Émile Signol (1804-1892)



“O Senhor quer provar vosso zelo e saber se há entre vós quem deplore Sua desgraça e defenda Sua causa. Apressai-vos então a assinalar vossa coragem, de tomar as armas pela defesa do nome cristão, vós, cujas províncias são tão fecundas em jovens e valentes guerreiros, se é verdade o que a vossa fama diz, transformai em santo zelo este valor odioso e brutal que vos arma frequentemente um contra o outro, e vos faz perecer com as vossas próprias mãos. 
Eu vos ofereço, nação belicosa, uma ilustre ocasião de lutar sem perigo, de vencer com glória, de morrer com vantagens. Sois ávidos de glória e sois hábeis e sábios negociantes. Eis o expediente para vos dar fama e vos enriquecer: Tomai a Cruz!"

Com estas palavras, há 862 anos, São Bernardo conclamava a França para a II Cruzada em defesa da cristandade. Chamado que os francos atenderam prontamente com seu brado vibrante, Dieu le veut! (Deus o quer)

Outrora, quando a Igreja sofria graves ameaças, como as que vinham do oriente através dos muçulmanos, os primeiros a se erguerem em sua defesa eram os francos.
Reconhecidos mundo a fora por sua bravura, os francos eram um dos poucos povos na terra que conseguiam incutir temor nas faces maometanas.

A França de outrora, sinalizava, como poucas nações no mundo, a alma do ocidente. Nela resplandecia o brio da civilização ocidental, seja em sua cultura, como em sua espiritualidade. 
E isso já se mostrava patente há 1.500 anos, quando a França era a primeira nação a aderir oficialmente ao catolicismo. Adesão que lhe rendeu dos sumos pontífices a insígne distinção de "filha primogénita da Igreja".
Hoje o espírito cruzado está extinto, a França de S. Bernardo, Luis IX, Joana d'Arc, Urbano II deu lugar a França da sodomia e da covardia; do ímpio Charlie Hebdo; dos parlamentos genocidas e do povo sem fé. Desde a Revolução Francesa, constantes movimentos nasceram para extirpar às raízes católicas da França. E hoje, a França despojada de suas raízes, tornou-se vulnerável a todas as incursões, bárbaras.

O Dieu le veut dos cruzados cessou, dando lugar ao terrível brado maometano: 'Alahu Akbar'.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

O que é uma Ideologia




A ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem,
É a violação do primeiro e do decimo mandamento,
Se quisermos empregar a linguagem da ordem judaica; é a “nossos”,
“A doença do espírito” empregando a linguagem de Ésquilo e Platão.¹

Eric Voegelin  





            Ideologia é mais uma das palavras que se popularizou com o uso indiscriminado até perder-se a compreensão de seu sentido. 
À principio, qualquer dicionário define ideologia como o conjunto de crenças religiosas, filosóficas, jurídicas, sociais e políticas que caracterizam um grupo ou classe social. Neste sentido, se pode falar em ideologia cristã, (embora o cristianismo não seja uma ideologia, no verdadeiro sentido da palavra, como explicaremos mais adiante), ideologia burguesa, ideologia marxista, ideologia nacionalista, etc. 
Mas este termo vai um pouco além desta definição dicionarial. O termo foi cunhado no contexto revolucionário francês (1789-1801) por Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy (1754-1836), -- ou simplesmente Destutt de Tracy --, em seu livro Les Elements d’Ideologie (1801). 
No livro, Destutt de Tracy apresenta a Ideologia como a “análise das sensações e das ideias”.

Tracy, junto com seus discípulos, planejava uma grande reforma educacional que lançasse na lata de lixo todas as lições deixadas pelo regime monárquico e clerical que tanto abominavam. E até receberam o apoio de Napoleão Bonaparte.

Os ideólogos acreditavam piamente que rejeitando a religião e a metafísica, e guiando-se por ideias puramente abstratas, poderiam alcançar um sistema natural de leis, que a religião e a metafísica enterraram. 
Para Tracy, as sensações são a única fonte de nossos conhecimentos, e segui-las, a única forma de alcançar o estado ideal de sociedade e de ser humano.

Desde Tracy, os ideólogos sempre foram ferrenhos inimigos da religião, da tradição, dos bons costumes e das convenções naturais.

Quando "a Ideologia" de Destutt de Tracy foi aplicada na França, ela mostrou-se um fracasso. 
O imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), sabendo do resultado desastroso das teses de Tracy, aplicou a ele e a seus discípulos a pecha de “deformadores da realidade”; e John Adams chamou à ideologia de “ciência da idiotice”. 
A partir de então, a tese de Destutt de Tracy passou a ser vista como algo ridículo e obsoleto, indigno de qualquer atenção.

50 anos depois, o conceito de Ideologia foi drasticamente alterado por Karl Marx (1818-1883) e seus epígonos. Na Ideologia Alemã, Karl Marx apresenta a Ideologia como um sistema de ideias de uma classe dominante para assegurar sua hegemonia sobre as classes oprimidas. 
Marx concebia a sociedade como uma relação entre dois elementos: uma infra-estrutura (base econômica) que dava origem a uma super-estrutura (a ideologia) que são o conjunto de crenças jurídicas, filosóficas, sociológicas que regula as relações sociais. Deste modo, os marxistas acreditavam que todos os elementos que compõe a sociedade são produtos de um fator econômico que reproduz a injustiça na sociedade, e a regula por meio de "aparelhos ideológicos". 
Para modificar esta realidade, Marx propunha uma profunda transformação na economia (infra-estrutura) que por conseguinte desfaria toda a realidade ideológica, que nasce desta base economica. 
Desta visão, decorre aquela atitude característica de todo marxista de julgar qualquer ideia ou doutrina como a expressão dos interesses de poder de uma classe, de uma cultura ou de uma raça. 
Portanto, para os marxistas, a ideologia é uma weltanschauung (visão de mundo em geral) que produz a realidade que vem a ser, a partir dos marxistas ocidentais, uma continua interação entre percepção e linguagem, gerando uma falsa consciência nas massas e mascarando a opressão de uma classe sobre outra.

Em uma carta dirigida a Engels, Marx entende as ideias e normas dominantes que regem a sociedade, como uma “mascara ilusória revelada aos explorados como um padrão de conduta, para dominar e gerar apoio moral a dominação.”²
Logo, para os marxistas, em seu ódio visceral contra um tal “sistema de ideias dominantes”, – que se propunham combater –, a forma mais eficaz de vencê-lo, seria através de um novo sistema de ideias que o substitua, um sistema que estabeleça uma sociedade igualitária e perfeita³. 

Analisando este conceito de ideologia desenvolvido pelos marxistas, chegamos a inevitável conclusão de que eles (os marxistas) se encaixam perfeitamente no próprio conceito que criam e prometem combater! São eles os verdadeiros ideólogos da história! São eles que criam uma falsa consciência nas massas para estabelecer uma relação mais cruel de dominação na sociedade. Onde quer que tenha se aplicado os ideais marxistas, viu-se estabelecer a mais horrenda relação de dominação e opressão. 

A Ideologia, portanto, é um embuste revolucionaria que aponta no outro os próprios interesses, que colocará em prática assim que chegar ao poder. 

Neste sentido, podemos classificar como ideologia ao fascismo, ao nazismo, ao comunismo, ao anarquismo, ao nacionalismo e a muitas outras doutrinas que confundem a opinião publica sobre supostos interesses ocultos por trás de todas as instituições e sistemas que regem a sociedade, escondendo e justificando seus nefastos interesses por trás de uma hipotética promessa de uma sociedade mais justa, que despontará quando o tal "sistema opressor" for vencido. 

O ideólogo crê que as massas necessitam da sua ideologia para viver e ser, e que a realidade em que estas pessoas estão situadas é produto de interesses escusos, e elas (as pessoas), são as vítimas destes interesses, contra os quais, devem se rebelar. Assim, os retira de um suposto sistema de interesses e os lança dentro de outro sistema de interesses bem mais monstruoso. Como aconteceu com o povo russo, saindo do czarismo para entrar no regime mais sanguinário da história: o comunismo.


Para algo ser de fato uma ideologia, precisa conter em si a presunção suficiente de ser capaz de transformar a realidade social, e a própria natureza humana em vista de um übermensch (super-homem), -- como dizia Nietzsche --, e de uma sociedade hipotética.
Quem detém tal pretensão é no mínimo um futuro tirano, como o foram os representantes de todas as ideologias. (4)

Por fim, toda ideologia possui um caráter messiânico, que se opõe veementemente ao cristianismo. Todas elas pretendem inaugurar o reino de Deus sobre a terra, em direta oposição ao reino de Cristo. "Meu reino não é deste mundo", dizia Nosso Senhor.
E nesta presunção diabólica, as ideologias sempre acabam instaurando o inferno na terra

Um toque de realismo sempre desfaz o falso brilho da ideologia. Todos, indistintamente, tivemos em algum momento esta louca pretensão de criar ou esperar um mundo do nosso jeito, nos rebelando contra algum elemento imutável da realidade, recusando aceitá-lo.
Ao descobrir que a realidade não depende de nosso querer, e que não possuímos o poder para modificá-la em sua essência, a ideologia, que ora nos atraía, retorna a sua condição real de mero "delírio psicótico" e seus arautos, meros dementes, ou como bem chamou Napoleão Bonaparte: simples deformadores da realidade.



Notas:

1. Eric Voegelin, Ordem e história: Israel e revelação. Vol. 1. São Paulo, Loyola, 2009, p. 32.
2. Apud Russell Kirk. A política da prudência, É realizações, 2014. p. 93. 
3. Os marxistas não entendem o homem como o produto de fatores naturais e predeterminados, nem a sociedade como a consequência natural e inevitável das conclusões racionais da humanidade em busca de sua conservação e aperfeiçoamento, mas, exclusivamente como a expressão dos interesses de uma classe que triunfou por meio da opressão ao longo da história, moldando o homem e a sociedade, tal como ele é, e o confinando dentro de uma matriz ideológica que é resultado da exploração e da ganância da classe opressora, e por isso, eles, os marxistas, quais 'paladinos da justiça' se apresentam para desconstruir a sociedade burguesa e reconduzi-la ao seu estado original, de perfeição e de felicidade. Esta pretensão tresloucada sempre culminou nas maiores tragédias que se teve notícia na história.
4. Sendo a ideologia uma forma de mascarar a realidade em nome de uma ordem de dominação, os movimentos ideológicos tornam-se um refúgio seguro para psicóticos, esquizoides e caracteropatas ressentidos com a realidade em que se recusam viver. 
O caráter esquizóidal e caracteropático são transtornos de personalidade identificados pelo psiquiatra polônes Andrzej Lobaczeviski em seu livro "Ponerologia".
Estas duas espécies de transtornos, segundo o psiquiatra, possuem papeis importantes como agentes patológicos nos processos da gênese do mal.
O caráter esquizóidal é característicos em "pessoas psicologicamente solitárias, que começam a se sentir melhor em alguma organização humana, nas quais se tornam zelotes de alguma ideologia, religiosos intolerantes, materialistas ou partidários de uma ideologia com características satânicas". Por vezes, estas pessoas, para evitar as impressões negativas que causam nos outros a partir de contato físico direto, optam por se dirigirem a sociedade através da palavra escrita, escondendo assim suas personalidades excêntricas. Entre as figuras esquizoidais identificadas por Lobaczeviski, destaca-se Karl Marx e Friedrich Engels.
O psiquiatra polonês citando Frostig, define Engels e Marx como "fanáticos esquizoidais". 
Já os caracteropatas, possuem como traço comum "o embotamento afetivo e a falta de sentimento das realidades psicológicas". Lobaczeviski o identifica como o resultado de deformação negativa do caráter, decorrente de lesões no tecido cerebral. Uma personalidade histórica identificada por Lobaczeviski com este tipo de transtorno foi o imperador germânico Guilherme II. 


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Reflexões sobre a fé






I PARTE


O que é a fé?

Os autores do Novo Testamento usaram a expressão πιστις (pistis) para se referir a uma força extraordinária que animava a caminhada do povo de Deus: a fé.
Pistis (a fé) também está  intimamente ligada a outra expressão, πιστος (pistós), que em nosso idioma pode ser traduzido por "confiança", demonstrando que 'confiar' e 'crêr' são atitudes inseparáveis. 
A ligação é tão patente que em alguns momentos, Nosso Senhor, ao invés de pedir que se tenha fé, pede que se tenha confiança. (cf. Mat 9, 2, 22)

Se não houvesse uma confiança cega em Deus, -- porque Ele é verdade --, o ato de crêr não poderia ser chamado de fé. 

Mas, neste ponto, muitos dirão: "confiar cegamente, não é irracional?". Respondo que não. A fé é uma força sobrenatural que nos leva a abandonar-nos cegamente, convictos de que "escolhemos a melhor parte", ou seja, a verdade. Abandonar-se cegamente no erro, não é fé, é impulso carnal, é concupiscência!
A fé é impulso puramente espiritual, que necessita, no entanto, do assentimento humano para manifestar-se. Tal como fizeram os apóstolos ao encontrarem a Cristo.

O que estes homens rudes, e muitos até analfabetos sabiam a respeito de Cristo? Como poderiam abandonar suas famílias e profissões para seguir um desconhecido, do qual, só sabiam o nome e alguns relatos, se não fosse um impulso divino?
Era uma força divina (a fé) que os impelia.

Mas, além disso, fé é uma confiança mais extrema que simplesmente abandonar o barco na praia. É ir além; é sair do barco em mar profundo, e caminhar sobre as águas. Foi isso que Nosso Senhor pediu a Pedro em uma noite no mar da Galiléia.
Toda renúncia que Pedro fez para seguir o Divino Mestre não foi suficiente para livrá-lo da dura pecha de "homem de pouca fé".
Pedro tinha fé, mas, segundo Jesus, era pouca. Ele esperava de Pedro uma fé que o levasse um 'pouco' além, a um total abandono nos braços de Deus. Pedro ainda temia, por que ainda não estava plenamente  convencido da divindade de seu Mestre. Mas, quando a chama da fé se acende em seu coração... O medo se vai. 
Por isso podemos contemplar um outro Pedro depois do Pentecostes, um Pedro abrasado pela fé.

Para melhor entender o que é a fé, basta analisar algumas de suas fabulosas manifestações.
Em uma delas, narrada no  Evangelho de São Mateus, notamos a primeira característica da fé: a confiança total no poder de Deus.

O apóstolo narra que enquanto Jesus descia o monte, um leproso o adorava dizendo: "Senhor (κυριε), se tu queres, podes me curar". (Mat 8, 3) 
O leproso estava totalmente convencido da divindade de Cristo, e acreditava que bastava o querer de Jesus para ser curado. 
Pedro duvidou deste poder, -- que o leproso estava totalmente convencido --, por isso foi chamado de homem de pouca fé. 

Na maioria das vezes em que Nosso Senhor repreende os apóstolos, -- os chamando de "homens de pouca fé" --, o motivo é este: duvidam de sua divindade. (cf. Mat 6, 30; 8, 23, 26; 14, 31; 16, 8).

Nas manifestações de fé que se contempla nos relatos evangélicos, além da total convicção na divindade de Cristo, percebe-se o total abandono a sua vontade. Neste sentido, s. S, o Papa Bento XVI define a fé como "um entregar-se confiante a um "Tu", que é Deus." ¹ 
Tal entrega não precisa do milagre para se convencer do poder de Deus, é um entregar-se confiante e desinteressado, é aquela fé que está expressa em um poema atribuído a Sta Teresa de Ávilla:
"Não me move, Senhor para Te amar
O Céu que me prometestes,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de Te ofender.
Tu me moves, Senhor, 
Move-me ver-Te pregado em uma Cruz e escarnecido.
Move-me ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte.
Move-me, enfim, o teu amor, 
E de tal maneira, que ainda que não houvesse Céu eu Te amaria,
E ainda que não houvesse inferno Te temeria.
Nada tens que me dar para que eu Te queira,
Pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
O mesmo que Te quero
Eu te quereria.
É esta fé que pretendo discorrer ao longo destas linhas.


Nota

1. Bento XVI. Audiência geral, praça de São Pedro, 24 de outubro de 2012.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O que é o conservadorismo?


Conservador é o individuo que ama os valores culturais sob os quais foi criado, e se recusa a rejeitá-los, não por medo da mudança, mas porque ele tem “consciência de que as coisas admiráveis, -- como belamente expressa Roger Scruton --, são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”; sabe que cada parte da sociedade em que vive é o resultado de séculos de contemplação e esforços humanos, e que não se pode descarta-las do dia para noite em detrimento de alternativas irrealistas e hipotéticas de uma nova sociedade. 

*** * ***


     Muito se tem falado em conservadorismo nas últimas décadas, porém, na maioria das vezes, de forma imprecisa e pejorativa. O termo, antes restrito aos círculos intelectuais, passou a fazer parte do vocabulário comum, -- assim como aconteceu com muitas outras expressões --, e tornar-se confuso pelo excesso de usos indevidos.
Tão grande foi a confusão criada em torno deste termo, que na maioria das vezes ele é encarado como uma nova ideologia, uma religião, um partido ou um dogma; coisas que não fazem nenhum sentido em face da atitude conservadora. 

A principio, podemos dizer que o conservadorismo é uma característica natural do temperamento humano.1 Observa-se este temperamento em quase todas as sociedades, do ocidente ao oriente. 
Conservador é o individuo que ama os valores culturais sob os quais foi criado, e se recusa a rejeitá-los, não por medo da mudança, mas porque ele tem “consciência de que as coisas admiráveis, -- como belamente expressa Roger Scruton --, são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”. (SCRUTON 2015, p. 9); sabe que cada parte da sociedade em que vive é o resultado de séculos de contemplação e esforços humanos, e que não se pode descarta-las do dia para noite em detrimento de alternativas irrealistas e hipotéticas de uma nova sociedade. Em outras palavras, o conservador não está disposto a trocar o certo pelo duvidoso.

A definição do conservadorismo como um “temperamento natural humano” é unanime entre os maiores nomes do pensamento conservador, (Hearnshaw, Burke, Kirk, Scruton et cetera) Oakeshott define o conservadorismo como uma conduta natural humana, não diferindo muito do sentido aqui exposto. Diz ele: “Nem uma crença, nem uma doutrina, mas uma forma de ser e estar”. No mesmo sentido, Russell Kirk define o conservadorismo como "um estado de espírito, um tipo de caráter, um modo de ver a ordem cívil e social" que está sustentada sobre um "conjunto de sentimentos, e não em um sistema de dogmas ideologicos". Portanto, antes de haver manuais sobre o conservadorismo ou mesmo uma definição precisa do termo, ele já existia no caráter das pessoas.

A origem deste termo (conservadorismo) é comumente atribuída ao filosofo irlandês Edmund Burke (1729-1797), que o definiu como referência a atitude natural de um povo em resposta a uma destruição radical de seus valores, como acontece em uma revolução. 
Ao cunhar o termo, Burke nada mais fez que conceituar um comportamento presente há milênios na humanidade. O próprio povo chinês respondeu as mudanças advindas da revolução maoísta, com claras amostras de conservadorismo. Onde quer que se instaure a revolução, se manifesta imediatamente em resposta o espírito conservador.

****

O conservadorismo, dizia Roger Scruton, é um sentimento que quase todas as pessoas maduras compartilham com facilidade (Scruton, 2015, p. 9) 
Neste sentido se pode dizer que o conservadorismo exige uma certa dose de maturidade para ser abraçado. Não à toa, o conservadorismo é mais comum em pessoas adultas do que em adolescentes.

O que o conservadorismo quer conservar?

Antes de tudo, valores! Valores que conduzem a um fim, o sumo bem! Tudo o que compõe e caracteriza a civilização ocidental nasceu tendo em vista este fim.

Contrapondo-se a atitude conservadora, está a atitude revolucionária, que é, antes de tudo, uma revolta contra a realidade natural, por encontrar nela, empecilhos para a plena satisfação dos instintos egoístas e sensuais do homem. Dessa torrente de orgulho e sensualidade nascem as várias ideologias que ameaçam a ordem social. 

Se a revolução tem como causa profunda o orgulho, o primeiro inimigo a ser derrotado será qualquer autoridade que esteja estabelecido na sociedade e imponha algum limite ao pleno gozo das bestialidades humanas. No encalço de satisfazer estas pulsões delirantes, três revoluções, -- a que ouso chamar "revoluções mater" --, se desencadearam na sociedade, gerando uma série de mudanças na visão e personalidade do homem ocidental: A pseudo-Reforma Protestante (1517), a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Comunista (iniciada por Marx no final do século XIX e levada avante até os nosso dias).
Primeiro, Lutero rebelou-se contra a autoridade do Papa, Robespierre contra a autoridade do Rei, e Marx, num único passo, contra todas as autoridades estabelecidas na sociedade, em nome de uma nova sociedade plenamente igualitária.

Estas revoluções modificaram profundamente a mentalidade ocidental. A começar pelo fim a que estava ordenada a ordem social desde os templos clássicos: a busca por um sumo bem. O homem passou a não busca mais um fim sublime, um sentido na existência, mas a satisfação plena de seus instintos, inclusive os mais bestiais. 
Daí nasce a sociedade bestializada em que vivemos. Por conta de um grave acidente de percurso que nos confinou no ambiente caótico moderno. A busca desenfreada pelo prazer que caracteriza nossa sociedade foi consequência direta das revoluções.

Se arrancando sua mascara, pergunta-se à Revolução: quem és tu? (...) Ela vos dirá: sou o ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo.

A revolução é o grande inimigo da civilização ocidental. E Poucos souberam defini-la tão bem como Mons. Jean-Joseph Gaumé, que assim escreve a seu respeito:

“Se arrancando sua mascara, pergunta-se à Revolução: quem és tu? Ela vos dirá: eu não sou o que pensam. Muitos falam de mim e bem poucos me conhecem. Não sou o carbonarismo, nem motim, nem troca de monarquia por república, nem substituição de uma monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Não sou nem os latidos dos jacobinos, nem os furores da Montagne, nem a guerrilha, nem a pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem a guilhotina, nem as execuções. Não sou nem Marat, nem Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzini, nem Kassut. Esses homens são meus filhos, mas não sou eu. Essas coisas são minhas obras, mas não sou eu. Esses homens e essas coisas são passageiras, mas eu sou um estado permanente. Sou o ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo. Sou a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus; sou a filosofia da revolta; a política da revolta; a religião da revolta; sou a negação armada; sou a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus; em uma palavra, sou a anárquia, porque quero ver Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque me chamo Revolução, ou seja, subversão, porque eu coloco em cima, aquele que segundo a lei eterna deveria star em baixo, e ponho a baixo Aquele que deveria estar em cima”.
(GAUME, 1856. p. 16-17)

E de fato, este é o significado mais preciso da Revolução: subversão. Subversão de toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem. 
Neste sentido, o conservadorismo apresenta-se como uma resposta ao espírito revolucionário.  
O conservadorismo despreza a tresloucada pretensão revolucionaria de criar um paraíso na terra, pois esta experiência geralmente culmina em novos infernos.

PS: 

Se nossa civilização nasceu com o fim de elevar o homem a um fim sublime, a nova civilização idealizada pelos revolucionário tem por objetivo final, satisfazer todos os instintos do homem, reconduzindo-o ao estado bárbaro. Eis porque todas as bestialidades humanas passam a ser legitimadas pelos revolucionários: Porque a Revolução é fundada sobre as perversões do coração humano.


Notas:


SCRUTON, Roger.  Como ser um conservador. 1. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2015. 
GAUME, Jean-Joseph. La Révolution, Recherches Historiques. I Tomo, Révolution Française. Paris, Librairees-éditeurs, 1856. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Uma crise estética


Por Erick Ferreira


    Os homens dos tempos modernos foram induzidos a apreciar como arte o absurdo, o tosco e o feio, através da chamada "arte moderna"; que exalta o absurdo e o desespero como princípios régios da hodierna criação artística. Assim, a arte moderna, coloca-se em direta oposição aos rigorosos critérios da estética e da metafísica que inspiravam a arte clássica. Princípios que tencionavam traduzir os anseios da alma por um sentido íntimo nas coisas [1] -- uma crença geral que acometia os homens antigos que viviam convencidos de que toda a existência é produto de um intelecto superior e que tudo está retamente ordenado para um fim sublime. Esses princípios da arte clássica foram hediondamente desprezados em nome de uma nova concepção, totalmente deslocada da racionalidade.

As concepções estéticas que  impulsionaram o gênio artístico de Michelangelo, Bernine, Da Vinci, Bach, Mozart, etc. estavam solidamente alicerçados sob os principios da filosofia clássica, que na busca do belo, concebiam a máxima finalidade de toda criação artística. 

O véu das virgens vestais, Raffaelle Monti

Assim nasceu a arte! De uma necessidade natural humana: a necessidade de contemplar e exprimir o belo. O belo que manifesta algumas de suas fagulhas na sutileza das formas, sons e cores da arte.

Em uma definição muito antiga, a arte foi chamada de recta ratio factibilium (a reta razão das criações), tudo isso para dizer que o artista busca um sentido nas coisas contra o desespero da condição decaída do homem. Parafraseando um grande teólogo do século XX, podemos dizer que "o mundo parece não conseguir entender-se sem a arte". 

Mas o que é o belo?

Os gregos antigos diziam que a beleza é "a expressão visível do bem". A união entre o conceito de bem e de belo era tão íntima que uma mesma palavra servia para referir-se a ambos: Kallos.

Sto Tomás de Áquino definia o belo como est id quod visum placet (aquilo que agrada a visão). De modo que se pode dizer que, a mesma sensação que nos causa o bem nos causa o belo.
Platão dizia que a beleza está na forma não na matéria, no eterno e não no corruptível. Portanto, não é possivel alcançar o belo materialmente, mas representá-lo vagamente, pois o belo transcende a matéria.
Seguindo estes princípios, a arte nos legou as mais impressionantes criações até o século XVIII.

Com o advento do século XIX, a arte deu um salto anti-metafísico, rompendo lamentavelmente com os principios estéticos que regiam a criação artística até então. 

Era o impressionismo que chegava com fúria bárbara, se lançando sobre os antigos cânones estéticos, e abalando tristemente o mundo da arte. 

O resultado desta derrocada foi trágico!

O impressionismo se personificou com tal exatidão em um de seus maiores representantes, Vicent Van Gogh (1853-1890), cuja demência se traduzia em sua "arte" e se projetou nas produções subsequentes do impressionismo e suas vertentes.

Em 1917, seguindo os passos dos impressionistas, Marcel Duchamp choca o mundo ao expor em Nova York um urinol como sua obra prima. A "obra", intitulada fontain, se celebrizou, a ponto de ser eleita "a obra mais influente da arte moderna". Atualmente, a Fontain está avaliada em 3 milhões de Euros, mostrando com isso que, quanto mais uma obra contrariar os princípios clássicos da estética, mais valorizada será; quanto mais se distanciar do sentido de belo, mas ela será apreciada pelo mundo moderno.

Fontain, Marcel Duchamp

Nesta exposição chocante, Duchamp estabelece o principal objetivo da arte moderna: chocar! Mas chocar com o absurdo, exprimindo assim, uma total aversão a todo sentido que possa conter a existência.

Em 2006 um homem atacou a "obra prima" de Duchamp com um martelo. A polícia imediatamente o deteve, mas Duchamp explicou que o ato fazia parte da obra.

My Bed, Tracey Amin

Em 1999 a obra de Duchamp inspira outra obra grotesca dos tempos modernos: a tristemente afamada My bed de Tracey Emin, exposta na Tate Modern Gallery de Londres. A obra consistia numa cama desarrumada, com várias garrafas de vodka, preservativos e roupas manchadas de sangue. Durante a apresentação, dois homens nus invadiram a galeria, produzindo um "espetáculo inesperado". Consumiram as garrafas de vodka sobre a cama e se puseram a pular sobre ela. Os expectadores no ato, acreditando que o vandalismo fazia parte da exposição, aplaudiram extasiadamente o episódio. Mas de fato, o vandalismo fazia parte daquela obra, e fará parte de quase todas as obras da arte moderna. 
E o repertório de insanidades não se detém por aí, ela converge para um fosso cada vez mais profundo.

Em 2011, Michael Heizer finalizou sua "obra prima": Uma pedra bruta megalítica de 340 toneladas, exposta em Los Angeles, e já considerada uma das melhores obras da arte moderna.

Elevated Mass, Michael Heize

Todas estas manifestações irracionais que se convencionou chamar "arte moderna" alertam para os caminhos que a humanidade trilha, ou melhor, para os abismos que está sendo conduzida.

O homem moderno já está condicionado a uma perda gradual da noção estetico-cognitiva e uma das consequências mais graves disso é uma total aversão à beleza transcendente projetada nas coisas, posto que este é o abismo que a arte moderna quer conduzir a humanidade! A aversão ao belo!

Dessa questão nasce uma pergunta pertinente: É possível perder a capacidade de apreciar o belo?
Respondemos que sim! 

Quando o homem lança-se em um fosso de imoralidade e irracionalidade, perde a capacidade de apreciar o belo, pois sua visão se ofusca e sua razão se embota, retornando ao estado bárbaro. Os brutos não podem apreciar o belo, que exige consciência moral e reta razão para aprecia-lo! Portanto, somente homens racionais e morais possuem o senso do belo, ou podem desenvolvê-lo.

Sem este requisito, o homem cria sua própria concepção de beleza, como fazem os artistas modernos, baseado em seus mundos interiores, -- chafurdado de vícios --, de modo que, com a visão turva, o que era feio, a seus olhos, passa a ser belo, por lhe satisfazer pulsões desvairadas. E o que é mais agradável aos olhos de um psicopata senão tudo que lhe apetece os instintos, como a violência, o sexo...? 
Assim se forma uma grave psicopátia, característica de nossos tempos, algo que poderia ser chamado de kalofobia. [2]

O que será do homem sem a sublime e indispensável capacidade de apreciar o belo? Um desesperado! Um iconoclasta! Um bárbaro, etc.

Que caótico seria o mundo sem a arte! 

E é a este mundo caótico que a pseudo-arte moderna quer nos conduzir. Suas criações irracionais e disformes, exprimem a mais pura revolta contra todo o sentido. E isso é um poderoso antídoto para precipitar o homem no desespero e brindar o triunfo da barbárie. Pois, ao se tirar o sentido da vida, as leis morais, e a esperança metafísica... Se rompe a última fronteira que o separa das feras.

1. Hegel em seu "Curso de Estética (Vol. I) define a Estética como a "ciência do sentido". O termo provém do grego: "aisthesis", (percepção), de onde surge "aisthetikos", ou seja, "o que é capaz de perceber".
2. Kalofobia - junção das palavras gregas, kallos, beleza, e fobus, medo, aversão. Ou seja, aversão ao belo



domingo, 26 de junho de 2016

Os protestantes e a ascensão dos nazistas na Alemanha


    Sendo a Alemanha uma nação profundamente religiosa na época da ascensão de Hitler, de quem partiram os votos que o elevaram ao poder? Eis uma pergunta muito explorada nas decadas que se seguiram, e que motivou grandes injustíças e equívocos, nos quais, os católicos sempre saíram mais desfavorecidos.
Mas, alguns mapas estatísticos da época nos apresentam uma outra realidade. O historiador Erik von Kuehlt-Leddihn em seu livro Liberty or Equality (do qual, traduzimos partes anteriormente neste blog) apresenta alguns dados que nos mostram quem foram os maiores produtores de votos nazistas.

Após os mapas estatísticos, disponibilizamos mais um trecho traduzido da referida obra. 


porcentagem de votos nazistas, eleições de 31 de julho de 1932.
As áreas escuras do mapa mostram as regiões onde os nazistas tiveram maioria de votos. 
Áreas escuras do mapa mostram as regiões de maioria católica na época


    "A fim de chegar a um pleno entendimento dos aspectos profundos do nacional socialismo, fizemos alguns mapas estatísticos baseados na divisão do kreise1 alemão, mostrando a inter-relação de afiliações políticas e religiosas. 

Escolhemos como medida de comparação para a distribuição religiosa, o resultado do censo de 1934; e, como um índice para os votos nazistas, a eleição de 31 de julho de 1932 e março de 1933. (Este último foi decidido somente depois da deliberação prolongada. Mais duas eleições foram realizadas em novembro de 1932 e em março de 1933. A eleição de novembro mostrou um declínio dos votos nazistas, e não teve indicação máxima do potencial popular. As eleições de março foram realizadas sob a influência do incêndio de Reichstag,2 e também tivemos provas de que em certas áreas, especificamente no sudeste da Bavária, o resultado destas eleições foram fraudados).


          A comparação do mapa religioso com o mapa eleitoral demonstra, a primeira vista, que havia uma conexão muito óbvia entre os dois, e que as áreas protestantes, com raríssimas exceções, foram as maiores produtoras dos votos nazistas. Nos distritos protestantes onde os nazistas eram relativamente poucos, nós encontramos uma alta porcentagem de votos comunistas. Isto aconteceu especialmente na Saxônia Ocidental, e na Turíngia, com uma maioria de votos comunistas (a inclusão destas áreas, – ambas ao oeste do rio Elba –, na zona de ocupação soviética, colocando assim o domínio russo dentro de 120 milhas da fronteira holandesa, tinham, claramente, não só implicações estratégicas, mas políticas) Ainda assim, não se pode deixar de ficar impressionado com o aspecto religioso do mapa mostrando os votos nacionais socialistas. Um aspecto detectável somente após cálculos detalhados em relação aos votos comunistas.  E no mais, o comunismo, assim como o nacional socialismo, foram vigorosamente enfrentados pela Igreja Católica."


Notas:

1. Kreise, ou simplesmente Kreis é uma divisão administrativa de nível intermediário da Alemanha, entre os länder (estados federais) e os níves municipais.
2. O Incêndio de Reichstag foi o episódio ocorrido em 27 de fevereiro 1933, em que a sede do parlamento alemão, o Palácio de Reichstag, foi criminosamente incendiado. Este episódio foi essencial para a ascensão do nazismo na Alemanha. A culpa do incêndio recaiu sobre um ativista comunista da Holanda chamado Marinus van der Lubbe, mas até hoje não se sabe exatamente quem foi o autor do crime.




Fonte: Kuehlt-Leddihin, Erik von. Liberty or equality: the challenge of our time. Caldwel: The Caxton Printers, LTD, 1952.

p. 217-218

Tradução e notas: 

Erick Ferreira


ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...