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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Reflexões sobre a fé






I PARTE


O que é a fé?

Os autores do Novo Testamento usaram a expressão πιστις (pistis) para se referir a uma força extraordinária que animava a caminhada do povo de Deus: a fé.
Pistis (a fé) também está  intimamente ligada a outra expressão, πιστος (pistós), que em nosso idioma pode ser traduzido por "confiança", demonstrando que 'confiar' e 'crêr' são atitudes inseparáveis. 
A ligação é tão patente que em alguns momentos, Nosso Senhor, ao invés de pedir que se tenha fé, pede que se tenha confiança. (cf. Mat 9, 2, 22)

Se não houvesse uma confiança cega em Deus, -- porque Ele é verdade --, o ato de crêr não poderia ser chamado de fé. 

Mas, neste ponto, muitos dirão: "confiar cegamente, não é irracional?". Respondo que não. A fé é uma força sobrenatural que nos leva a abandonar-nos cegamente, convictos de que "escolhemos a melhor parte", ou seja, a verdade. Abandonar-se cegamente no erro, não é fé, é impulso carnal, é concupiscência!
A fé é impulso puramente espiritual, que necessita, no entanto, do assentimento humano para manifestar-se. Tal como fizeram os apóstolos ao encontrarem a Cristo.

O que estes homens rudes, e muitos até analfabetos sabiam a respeito de Cristo? Como poderiam abandonar suas famílias e profissões para seguir um desconhecido, do qual, só sabiam o nome e alguns relatos, se não fosse um impulso divino?
Era uma força divina (a fé) que os impelia.

Mas, além disso, fé é uma confiança mais extrema que simplesmente abandonar o barco na praia. É ir além; é sair do barco em mar profundo, e caminhar sobre as águas. Foi isso que Nosso Senhor pediu a Pedro em uma noite no mar da Galiléia.
Toda renúncia que Pedro fez para seguir o Divino Mestre não foi suficiente para livrá-lo da dura pecha de "homem de pouca fé".
Pedro tinha fé, mas, segundo Jesus, era pouca. Ele esperava de Pedro uma fé que o levasse um 'pouco' além, a um total abandono nos braços de Deus. Pedro ainda temia, por que ainda não estava plenamente  convencido da divindade de seu Mestre. Mas, quando a chama da fé se acende em seu coração... O medo se vai. 
Por isso podemos contemplar um outro Pedro depois do Pentecostes, um Pedro abrasado pela fé.

Para melhor entender o que é a fé, basta analisar algumas de suas fabulosas manifestações.
Em uma delas, narrada no  Evangelho de São Mateus, notamos a primeira característica da fé: a confiança total no poder de Deus.

O apóstolo narra que enquanto Jesus descia o monte, um leproso o adorava dizendo: "Senhor (κυριε), se tu queres, podes me curar". (Mat 8, 3) 
O leproso estava totalmente convencido da divindade de Cristo, e acreditava que bastava o querer de Jesus para ser curado. 
Pedro duvidou deste poder, -- que o leproso estava totalmente convencido --, por isso foi chamado de homem de pouca fé. 

Na maioria das vezes em que Nosso Senhor repreende os apóstolos, -- os chamando de "homens de pouca fé" --, o motivo é este: duvidam de sua divindade. (cf. Mat 6, 30; 8, 23, 26; 14, 31; 16, 8).

Nas manifestações de fé que se contempla nos relatos evangélicos, além da total convicção na divindade de Cristo, percebe-se o total abandono a sua vontade. Neste sentido, s. S, o Papa Bento XVI define a fé como "um entregar-se confiante a um "Tu", que é Deus." ¹ 
Tal entrega não precisa do milagre para se convencer do poder de Deus, é um entregar-se confiante e desinteressado, é aquela fé que está expressa em um poema atribuído a Sta Teresa de Ávilla:
"Não me move, Senhor para Te amar
O Céu que me prometestes,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de Te ofender.
Tu me moves, Senhor, 
Move-me ver-Te pregado em uma Cruz e escarnecido.
Move-me ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte.
Move-me, enfim, o teu amor, 
E de tal maneira, que ainda que não houvesse Céu eu Te amaria,
E ainda que não houvesse inferno Te temeria.
Nada tens que me dar para que eu Te queira,
Pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
O mesmo que Te quero
Eu te quereria.
É esta fé que pretendo discorrer ao longo destas linhas.


Nota

1. Bento XVI. Audiência geral, praça de São Pedro, 24 de outubro de 2012.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O que é o conservadorismo?


Conservador é o individuo que ama os valores culturais sob os quais foi criado, e se recusa a rejeitá-los, não por medo da mudança, mas porque ele tem “consciência de que as coisas admiráveis, -- como belamente expressa Roger Scruton --, são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”; sabe que cada parte da sociedade em que vive é o resultado de séculos de contemplação e esforços humanos, e que não se pode descarta-las do dia para noite em detrimento de alternativas irrealistas e hipotéticas de uma nova sociedade. 

*** * ***


     Muito se tem falado em conservadorismo nas últimas décadas, porém, na maioria das vezes, de forma imprecisa e pejorativa. O termo, antes restrito aos círculos intelectuais, passou a fazer parte do vocabulário comum, -- assim como aconteceu com muitas outras expressões --, e tornar-se confuso pelo excesso de usos indevidos.
Tão grande foi a confusão criada em torno deste termo, que na maioria das vezes ele é encarado como uma nova ideologia, uma religião, um partido ou um dogma; coisas que não fazem nenhum sentido em face da atitude conservadora. 

A principio, podemos dizer que o conservadorismo é uma característica natural do temperamento humano.1 Observa-se este temperamento em quase todas as sociedades, do ocidente ao oriente. 
Conservador é o individuo que ama os valores culturais sob os quais foi criado, e se recusa a rejeitá-los, não por medo da mudança, mas porque ele tem “consciência de que as coisas admiráveis, -- como belamente expressa Roger Scruton --, são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”. (SCRUTON 2015, p. 9); sabe que cada parte da sociedade em que vive é o resultado de séculos de contemplação e esforços humanos, e que não se pode descarta-las do dia para noite em detrimento de alternativas irrealistas e hipotéticas de uma nova sociedade. Em outras palavras, o conservador não está disposto a trocar o certo pelo duvidoso.

A definição do conservadorismo como um “temperamento natural humano” é unanime entre os maiores nomes do pensamento conservador, (Hearnshaw, Burke, Kirk, Scruton et cetera) Oakeshott define o conservadorismo como uma conduta natural humana, não diferindo muito do sentido aqui exposto. Diz ele: “Nem uma crença, nem uma doutrina, mas uma forma de ser e estar”. No mesmo sentido, Russell Kirk define o conservadorismo como "um estado de espírito, um tipo de caráter, um modo de ver a ordem cívil e social" que está sustentada sobre um "conjunto de sentimentos, e não em um sistema de dogmas ideologicos". Portanto, antes de haver manuais sobre o conservadorismo ou mesmo uma definição precisa do termo, ele já existia no caráter das pessoas.

A origem deste termo (conservadorismo) é comumente atribuída ao filosofo irlandês Edmund Burke (1729-1797), que o definiu como referência a atitude natural de um povo em resposta a uma destruição radical de seus valores, como acontece em uma revolução. 
Ao cunhar o termo, Burke nada mais fez que conceituar um comportamento presente há milênios na humanidade. O próprio povo chinês respondeu as mudanças advindas da revolução maoísta, com claras amostras de conservadorismo. Onde quer que se instaure a revolução, se manifesta imediatamente em resposta o espírito conservador.

****

O conservadorismo, dizia Roger Scruton, é um sentimento que quase todas as pessoas maduras compartilham com facilidade (Scruton, 2015, p. 9) 
Neste sentido se pode dizer que o conservadorismo exige uma certa dose de maturidade para ser abraçado. Não à toa, o conservadorismo é mais comum em pessoas adultas do que em adolescentes.

O que o conservadorismo quer conservar?

Antes de tudo, valores! Valores que conduzem a um fim, o sumo bem! Tudo o que compõe e caracteriza a civilização ocidental nasceu tendo em vista este fim.

Contrapondo-se a atitude conservadora, está a atitude revolucionária, que é, antes de tudo, uma revolta contra a realidade natural, por encontrar nela, empecilhos para a plena satisfação dos instintos egoístas e sensuais do homem. Dessa torrente de orgulho e sensualidade nascem as várias ideologias que ameaçam a ordem social. 

Se a revolução tem como causa profunda o orgulho, o primeiro inimigo a ser derrotado será qualquer autoridade que esteja estabelecido na sociedade e imponha algum limite ao pleno gozo das bestialidades humanas. No encalço de satisfazer estas pulsões delirantes, três revoluções, -- a que ouso chamar "revoluções mater" --, se desencadearam na sociedade, gerando uma série de mudanças na visão e personalidade do homem ocidental: A pseudo-Reforma Protestante (1517), a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Comunista (iniciada por Marx no final do século XIX e levada avante até os nosso dias).
Primeiro, Lutero rebelou-se contra a autoridade do Papa, Robespierre contra a autoridade do Rei, e Marx, num único passo, contra todas as autoridades estabelecidas na sociedade, em nome de uma nova sociedade plenamente igualitária.

Estas revoluções modificaram profundamente a mentalidade ocidental. A começar pelo fim a que estava ordenada a ordem social desde os templos clássicos: a busca por um sumo bem. O homem passou a não busca mais um fim sublime, um sentido na existência, mas a satisfação plena de seus instintos, inclusive os mais bestiais. 
Daí nasce a sociedade bestializada em que vivemos. Por conta de um grave acidente de percurso que nos confinou no ambiente caótico moderno. A busca desenfreada pelo prazer que caracteriza nossa sociedade foi consequência direta das revoluções.

Se arrancando sua mascara, pergunta-se à Revolução: quem és tu? (...) Ela vos dirá: sou o ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo.

A revolução é o grande inimigo da civilização ocidental. E Poucos souberam defini-la tão bem como Mons. Jean-Joseph Gaumé, que assim escreve a seu respeito:

“Se arrancando sua mascara, pergunta-se à Revolução: quem és tu? Ela vos dirá: eu não sou o que pensam. Muitos falam de mim e bem poucos me conhecem. Não sou o carbonarismo, nem motim, nem troca de monarquia por república, nem substituição de uma monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Não sou nem os latidos dos jacobinos, nem os furores da Montagne, nem a guerrilha, nem a pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem a guilhotina, nem as execuções. Não sou nem Marat, nem Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzini, nem Kassut. Esses homens são meus filhos, mas não sou eu. Essas coisas são minhas obras, mas não sou eu. Esses homens e essas coisas são passageiras, mas eu sou um estado permanente. Sou o ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo. Sou a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus; sou a filosofia da revolta; a política da revolta; a religião da revolta; sou a negação armada; sou a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus; em uma palavra, sou a anárquia, porque quero ver Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque me chamo Revolução, ou seja, subversão, porque eu coloco em cima, aquele que segundo a lei eterna deveria star em baixo, e ponho a baixo Aquele que deveria estar em cima”.
(GAUME, 1856. p. 16-17)

E de fato, este é o significado mais preciso da Revolução: subversão. Subversão de toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem. 
Neste sentido, o conservadorismo apresenta-se como uma resposta ao espírito revolucionário.  
O conservadorismo despreza a tresloucada pretensão revolucionaria de criar um paraíso na terra, pois esta experiência geralmente culmina em novos infernos.

PS: 

Se nossa civilização nasceu com o fim de elevar o homem a um fim sublime, a nova civilização idealizada pelos revolucionário tem por objetivo final, satisfazer todos os instintos do homem, reconduzindo-o ao estado bárbaro. Eis porque todas as bestialidades humanas passam a ser legitimadas pelos revolucionários: Porque a Revolução é fundada sobre as perversões do coração humano.


Notas:


SCRUTON, Roger.  Como ser um conservador. 1. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2015. 
GAUME, Jean-Joseph. La Révolution, Recherches Historiques. I Tomo, Révolution Française. Paris, Librairees-éditeurs, 1856. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Uma crise estética


Por Erick Ferreira


    Os homens dos tempos modernos foram induzidos a apreciar como arte o absurdo, o tosco e o feio, através da chamada "arte moderna"; que exalta o absurdo e o desespero como princípios régios da hodierna criação artística. Assim, a arte moderna, coloca-se em direta oposição aos rigorosos critérios da estética e da metafísica que inspiravam a arte clássica. Princípios que tencionavam traduzir os anseios da alma por um sentido íntimo nas coisas [1] -- uma crença geral que acometia os homens antigos que viviam convencidos de que toda a existência é produto de um intelecto superior e que tudo está retamente ordenado para um fim sublime. Esses princípios da arte clássica foram hediondamente desprezados em nome de uma nova concepção, totalmente deslocada da racionalidade.

As concepções estéticas que  impulsionaram o gênio artístico de Michelangelo, Bernine, Da Vinci, Bach, Mozart, etc. estavam solidamente alicerçados sob os principios da filosofia clássica, que na busca do belo, concebiam a máxima finalidade de toda criação artística. 

O véu das virgens vestais, Raffaelle Monti

Assim nasceu a arte! De uma necessidade natural humana: a necessidade de contemplar e exprimir o belo. O belo que manifesta algumas de suas fagulhas na sutileza das formas, sons e cores da arte.

Em uma definição muito antiga, a arte foi chamada de recta ratio factibilium (a reta razão das criações), tudo isso para dizer que o artista busca um sentido nas coisas contra o desespero da condição decaída do homem. Parafraseando um grande teólogo do século XX, podemos dizer que "o mundo parece não conseguir entender-se sem a arte". 

Mas o que é o belo?

Os gregos antigos diziam que a beleza é "a expressão visível do bem". A união entre o conceito de bem e de belo era tão íntima que uma mesma palavra servia para referir-se a ambos: Kallos.

Sto Tomás de Áquino definia o belo como est id quod visum placet (aquilo que agrada a visão). De modo que se pode dizer que, a mesma sensação que nos causa o bem nos causa o belo.
Platão dizia que a beleza está na forma não na matéria, no eterno e não no corruptível. Portanto, não é possivel alcançar o belo materialmente, mas representá-lo vagamente, pois o belo transcende a matéria.
Seguindo estes princípios, a arte nos legou as mais impressionantes criações até o século XVIII.

Com o advento do século XIX, a arte deu um salto anti-metafísico, rompendo lamentavelmente com os principios estéticos que regiam a criação artística até então. 

Era o impressionismo que chegava com fúria bárbara, se lançando sobre os antigos cânones estéticos, e abalando tristemente o mundo da arte. 

O resultado desta derrocada foi trágico!

impressionismo se personificou com tal exatidão em um de seus maiores representantes, Vicent Van Gogh (1853-1890), cuja demência se traduzia em sua "arte" e se projetou nas produções subsequentes do impressionismo e suas vertentes.

Em 1917, seguindo os passos dos impressionistas, Marcel Duchamp choca o mundo ao expor em Nova York um urinol como sua obra prima. A "obra", intitulada fontain, se celebrizou, a ponto de ser eleita "a obra mais influente da arte moderna". Atualmente, a Fontain está avaliada em 3 milhões de Euros, mostrando com isso que, quanto mais uma obra contrariar os princípios clássicos da estética, mais valorizada será; quanto mais se distanciar do sentido de belo, mas ela será apreciada pelo mundo moderno.

Fontain, Marcel Duchamp

Nesta exposição chocante, Duchamp estabelece o principal objetivo da arte moderna: chocar! Mas chocar com o absurdo, exprimindo assim, uma total aversão a todo sentido que possa conter a existência.

Em 2006 um homem atacou a "obra prima" de Duchamp com um martelo. A polícia imediatamente o deteve, mas Duchamp explicou que o ato fazia parte da obra.

My Bed, Tracey Amin

Em 1999 a obra de Duchamp inspira outra obra grotesca dos tempos modernos: a tristemente afamada My bed de Tracey Emin, exposta na Tate Modern Gallery de Londres. A obra consistia numa cama desarrumada, com várias garrafas de vodka, preservativos e roupas manchadas de sangue. Durante a apresentação, dois homens nus invadiram a galeria, produzindo um "espetáculo inesperado". Consumiram as garrafas de vodka sobre a cama e se puseram a pular sobre ela. Os expectadores no ato, acreditando que o vandalismo fazia parte da exposição, aplaudiram extasiadamente o episódio. Mas de fato, o vandalismo fazia parte daquela obra, e fará parte de quase todas as obras da arte moderna. 
E o repertório de insanidades não se detém por aí, ela converge para um fosso cada vez mais profundo.

Em 2011, Michael Heizer finalizou sua "obra prima": Uma pedra bruta megalítica de 340 toneladas, exposta em Los Angeles, e já considerada uma das melhores obras da arte moderna.

Elevated Mass, Michael Heize

Todas estas manifestações irracionais que se convencionou chamar "arte moderna" alertam para os caminhos que a humanidade trilha, ou melhor, para os abismos que está sendo conduzida.

O homem moderno já está condicionado a uma perda gradual da noção estetico-cognitiva e uma das consequências mais graves disso é uma total aversão à beleza transcendente projetada nas coisas, posto que este é o abismo que a arte moderna quer conduzir a humanidade! A aversão ao belo!

Dessa questão nasce uma pergunta pertinente: É possível perder a capacidade de apreciar o belo?
Respondemos que sim! 

Quando o homem lança-se em um fosso de imoralidade e irracionalidade, perde a capacidade de apreciar o belo, pois sua visão se ofusca e sua razão se embota, retornando ao estado bárbaro. Os brutos não podem apreciar o belo, que exige consciência moral e reta razão para aprecia-lo! Portanto, somente homens racionais e morais possuem o senso do belo, ou podem desenvolvê-lo.

Sem este requisito, o homem cria sua própria concepção de beleza, como fazem os artistas modernos, baseado em seus mundos interiores, -- chafurdado de vícios --, de modo que, com a visão turva, o que era feio, a seus olhos, passa a ser belo, por lhe satisfazer pulsões desvairadas. E o que é mais agradável aos olhos de um psicopata senão tudo que lhe apetece os instintos, como a violência, o sexo...? 
Assim se forma uma grave psicopátia, característica de nossos tempos, algo que poderia ser chamado de kalofobia. [2]

O que será do homem sem a sublime e indispensável capacidade de apreciar o belo? Um desesperado! Um iconoclasta! Um bárbaro, etc.

Que caótico seria o mundo sem a arte! 

E é a este mundo caótico que a pseudo-arte moderna quer nos conduzir. Suas criações irracionais e disformes, exprimem a mais pura revolta contra todo o sentido. E isso é um poderoso antídoto para precipitar o homem no desespero e brindar o triunfo da barbárie. Pois, ao se tirar o sentido da vida, as leis morais, e a esperança metafísica... Se rompe a última fronteira que o separa das feras.

1. Hegel em seu "Curso de Estética (Vol. I) define a Estética como a "ciência do sentido". O termo provém do grego: "aisthesis", (percepção), de onde surge "aisthetikos", ou seja, "o que é capaz de perceber".
2. Kalofobia - junção das palavras gregas, kallos, beleza, e fobus, medo, aversão. Ou seja, aversão ao belo



domingo, 26 de junho de 2016

Os protestantes e a ascensão dos nazistas na Alemanha


    Sendo a Alemanha uma nação profundamente religiosa na época da ascensão de Hitler, de quem partiram os votos que o elevaram ao poder? Eis uma pergunta muito explorada nas decadas que se seguiram, e que motivou grandes injustíças e equívocos, nos quais, os católicos sempre saíram mais desfavorecidos.
Mas, alguns mapas estatísticos da época nos apresentam uma outra realidade. O historiador Erik von Kuehlt-Leddihn em seu livro Liberty or Equality (do qual, traduzimos partes anteriormente neste blog) apresenta alguns dados que nos mostram quem foram os maiores produtores de votos nazistas.

Após os mapas estatísticos, disponibilizamos mais um trecho traduzido da referida obra. 


porcentagem de votos nazistas, eleições de 31 de julho de 1932.
As áreas escuras do mapa mostram as regiões onde os nazistas tiveram maioria de votos. 
Áreas escuras do mapa mostram as regiões de maioria católica na época


    "A fim de chegar a um pleno entendimento dos aspectos profundos do nacional socialismo, fizemos alguns mapas estatísticos baseados na divisão do kreise1 alemão, mostrando a inter-relação de afiliações políticas e religiosas. 

Escolhemos como medida de comparação para a distribuição religiosa, o resultado do censo de 1934; e, como um índice para os votos nazistas, a eleição de 31 de julho de 1932 e março de 1933. (Este último foi decidido somente depois da deliberação prolongada. Mais duas eleições foram realizadas em novembro de 1932 e em março de 1933. A eleição de novembro mostrou um declínio dos votos nazistas, e não teve indicação máxima do potencial popular. As eleições de março foram realizadas sob a influência do incêndio de Reichstag,2 e também tivemos provas de que em certas áreas, especificamente no sudeste da Bavária, o resultado destas eleições foram fraudados).


          A comparação do mapa religioso com o mapa eleitoral demonstra, a primeira vista, que havia uma conexão muito óbvia entre os dois, e que as áreas protestantes, com raríssimas exceções, foram as maiores produtoras dos votos nazistas. Nos distritos protestantes onde os nazistas eram relativamente poucos, nós encontramos uma alta porcentagem de votos comunistas. Isto aconteceu especialmente na Saxônia Ocidental, e na Turíngia, com uma maioria de votos comunistas (a inclusão destas áreas, – ambas ao oeste do rio Elba –, na zona de ocupação soviética, colocando assim o domínio russo dentro de 120 milhas da fronteira holandesa, tinham, claramente, não só implicações estratégicas, mas políticas) Ainda assim, não se pode deixar de ficar impressionado com o aspecto religioso do mapa mostrando os votos nacionais socialistas. Um aspecto detectável somente após cálculos detalhados em relação aos votos comunistas.  E no mais, o comunismo, assim como o nacional socialismo, foram vigorosamente enfrentados pela Igreja Católica."


Notas:

1. Kreise, ou simplesmente Kreis é uma divisão administrativa de nível intermediário da Alemanha, entre os länder (estados federais) e os níves municipais.
2. O Incêndio de Reichstag foi o episódio ocorrido em 27 de fevereiro 1933, em que a sede do parlamento alemão, o Palácio de Reichstag, foi criminosamente incendiado. Este episódio foi essencial para a ascensão do nazismo na Alemanha. A culpa do incêndio recaiu sobre um ativista comunista da Holanda chamado Marinus van der Lubbe, mas até hoje não se sabe exatamente quem foi o autor do crime.




Fonte: Kuehlt-Leddihin, Erik von. Liberty or equality: the challenge of our time. Caldwel: The Caxton Printers, LTD, 1952.

p. 217-218

Tradução e notas: 

Erick Ferreira


segunda-feira, 13 de junho de 2016

As origens das ideologias totalitárias segundo Erik von Kuehnelt-Leddihn



Erik von Kuehnelt-Leddihn
(1909-1999)


       O nome chega a assustar os menos afeitos à língua germânica: Erik von Kuehnelt-Leddihn. Apesar do nome escabroso, Kuehnelt-Leddihn é um daqueles homens encantadores que a natureza costuma produzir raramente. Seu amigo William Buckley o definia como "o homem mais fascinante do mundo". Apesar do exagero da definição, Dr. Kuehnelt-Leddihn realmente era um homem excepcional. Intelectual de alta envergadura, falava oito línguas e conseguia ler em outras onze; historiador e jornalista; doutorou-se em ciências políticas pela universidade de Budapeste, e em Teologia pela universidade de Viena. Começou a publicar seus primeiros artigos ao 16 anos para um jornal de sua cidade.

Apesar de toda sua bagagem intelectual, Kuehlt-Leddihn é quase desconhecido no cenário acadêmico brasileiro. E não somente ignorado, diria até que seu pensamento fora banido pela intelligentzia, por representar um grande golpe a muitas de suas falácias. 

Um outro ponto marcante na vida do Dr. Kuehlt-Leddihn, que também não pode ser deixado de lado em qualquer coisa que se escreve a seu respeito, foi sua exuberante fé católica, Embora, esta fé tenha se eclipsado em partes por sua debandada ao liberalismo, (Dr. Kuehlt-Leddihn chegou a se auto proclamar “arqui-liberal”). A pesar disso, Dr. Kuehnelt-Leddihn sempre conservou devotado respeito à Igreja, chegando a defendê-la diversas vezes, especialmente em suas obras. Uma destas obras em que defende a Igreja de certas desonestidades intelectuais, é Liberty or equality: the challenge of our time (Liberdade ou igualdade: o desafio de nosso tempo), livro pouco conhecido em nosso país, com pouca, ou nenhuma edição brasileira (realmente desconheço se exista alguma), que ora apresentamos.

disponibilizamos um trecho da obra a nossos leitores.





Capítulo VI

HUS, LUTERO E O NACIONAL SOCIALISMO
A gênese de um movimento totalitário



Introdução


“Do ponto de vista da história das ideias, estamos convencidos de que Jan Hus1 exerceu alguma influência sobre Lutero, Mussolini, e sobre o partido Socialista Tcheco3 (o social-democrata). (Nós nos referimos aos precursores de Hus de forma muito superficial, já que quase todas as linhas da história conduzem a ele)
Lutero, por sua vez, junto com Calvino, através de um longo processo dialético, estimulou o crescimento da democracia moderna. A Revolução Francesa tem raízes que vão de Calvino, e talvez, também a Jansênio3. O Socialismo Tcheco gerou o Nacional Socialismo, que também assume alguma herança Hussita4 (Taboritas). Hus também inspirou o nacionalismo alemão do século XIX, e o nacionalismo alemão produziu Jahn5; Jahn influenciou Miroslav Tyrš6; Tyrš é a figura mais importante do nacionalismo tcheco. A democracia e o nacionalismo étnico operou na Europa mais rigorosamente.
Lutero é também um precursor de Hegel; Hegel é o mentor de Marx e Treitschke7, eis os inspiradores do socialismo, nacionalismo e estatismo. 

Marx deu sua doutrina à Alemanha, a Áustria, e de certo modo, ao Socialismo Tcheco. Treitschke, por outro lado, influenciou Schönerer8, e Schönerer influenciou Hitler.
Marx também está por trás do socialismo francês, que produziu Sorel9, que por sua vez, é admitidamente o pai espiritual do jovem socialista Mussolini, o admirador de Hus. E Mussolini influenciou Hitler.
          O Nacional Socialismo Tcheco (inspirado por Hus) provocou na Boêmia e na Moravia uma organização política Nacional Socialista entre os alemães destas duas províncias (O assim chamado Sudeto Alemão)10. Hitler, longe de ser o fundador do nazismo, apenas entrou em um pequeno, mas bem estabelecido movimento (até então)11.
       Quase todas estas ideologias – socialismo, nacionalismo étnico, fascismo, nacional socialismo dos tchecos, assim como dos alemães –, assumiram ser democráticas; mas nenhuma delas assumiu ser liberal. Todas foram hostis, de formas variadas, ao catolicismo. Todas tinham ancestrais em comum. Uma influenciou a outra intensamente, e sua pré-história não é senão uma repetição interminável e incessante de uma aliança incestual e endogâmica.

        Todas estas filosofias são anti-católicas, anti-monárquicas, e anti-tradicionais; elas se lançam unicamente para o futuro, querem construir uma nova sociedade, e se proclamam “iluminadas”. Elas se opõe à liberdade individual e são coletivistas; dividem os seres humanos em categorias especificas, e todas elas favorecem o surgimento de um Estado onipotente; elas são materialistas e se declaram “progressistas”. Tudo nelas tem afinidades com a Revolução Francesa. A maioria das lutas amargas que se travam entre elas é desesperada e impiedosa por conta de sua natureza fratricida. Elas não vêem no outro um estranho oponente. Mas, heresias se enfrentando com uma origem em comum”.


Notas:

1. Jan Hus (1369-1415) Reformador religioso tcheco. Um dos precursores de Lutero e Calvino. Foi excomungado oficialmente em 1410, e entregue ao braço secular que o condenou a fogueira.
2. Partido Socialista Tcheco ou Partido Social-democrata (Česka Strana Sociálně Demokratická) é um partido socialista fundado em 1878, inspirado na figura de Jan Hus, e que identifica como “centro-direita”.
3. Jansenius. (1585-1638) foi um heresiarca holandês. Fundador da heresia jansenista, que pregava uma moral rígida e ao mesmo tempo ineficaz, já que, para eles não importava o que se fizesse, os homens sempre serão incapazes de alcançar a misericórdia divina.  

4. Hussitas, ou Igreja Hussita, foi o movimento reformador e revolucionário que surgiu na Boêmia no século XV (Antes da rebelião de Lutero) inspirada por Jan Hus (1372-1452). O movimento mais tarde juntou-se as fileiras luteranas. Posteriormente, os Hussitas sofreram uma subdivisão interna em: Taboritas (radicais) e Utraquistas (moderados). Estes primeiros, seguidores radicais das ideias de Hus, causaram uma série de revoltas chamadas Guerras Hussitas (1419-1436). Que só foram debeladas quando os Utraquistas se uniram aos católicos para enfrenta-los.

5. Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), foi um pedagogo e nacionalista alemão. Por ter sistematizado e transformado a ginástica em modalidade esportiva, é considerado o “pai da ginástica”. Criou a Associação Turnwerein, um clube de ginástica que acabou tornando-se centro de discussões políticas e  abrigo dos nacionalistas alemães.

6. Miroslav Tyrš (1832-1884) filosofo tcheco, historiador da arte, organizador e fundador do movimento Sokol autor de Hod Olympický 1868 (A festa olímpica) O zákonech kompozice v umění výtvarněm, 1873 (A Lei da composição na arte) O zákonu konvergence při tvoření uměleckém, 1880 (A lei da convergência na criação artística) entre outras obras sobre arte.

7. Heinrich von Treitschke (1834-1896) foi um historiador, escritor e político, e acima de tudo, nacionalista alemão. Membro do Reichstag durante o Império Alemão.

8. Georg Ritter von Schönerer (1842-1921) foi um nacionalista radical, antissemita, e político que influenciou o pensamento de Adolf Hitler. Fundou o Partido Pangermânico na Áustria.

9. Georges Sorel (1847-1922) teórico francês do sindicalismo revolucionário, marxista, e com algumas influencias anarquistas. É considerado a maior influência de Benito Mussolini.

10. Região que correspondia na época a 30.000 km2 da então Checoslováquia (atualmente República Tcheca e Eslováquia). Nesta região nasceu o Partido Alemão dos Sudetos, que reivindicou a adesão ao terceiro Reich. Acontecimento que culminou na chamada “Crise dos Sudetos” em 1938. Um dos acontecimentos que precederam a ascensão do Nacional Socialismo na Alemanha.

11. Hitler assumiu o controle do NSDAP em 1920, mas antes de sua ascensão, o nazismo já existia como ideologia de caráter nacionalista, eugenista e antissemita no pensamento dos supracitados autores, como expõe Kuehlt-leddihn. 




KUEHLT-LEDDIHN, Erik von. 
Liberty or equality: the challenge of our time. 
Caldwell: The Caxton Printers, LTD, 1952.
Cap. 6, p. 209-211.

Tradução e Notas:
Erick Ferreira

domingo, 5 de junho de 2016

99 anos de Fátima e muita coisa a se esclarecer


por Erick Ferreira

Há exatos 16 anos, o Santo Padre o Papa João Paulo II tornava público uma das questões mais intrigantes dos últimos séculos: o Terceiro Segredo de Fátima.

E a revelação, carregada de expectativas, causou indizível decepção a multidão que se comprimia para a solene revelação em Roma
Quem estava à espera de impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro a se desenrolar na história, certamente ficará desiludido, escreveu o Cardeal Ratzinger na ocasião. E de fato, desilusão era a palavra a traduzir o sentimento de todos em relação às indecifráveis palavras que ora se apresentavam como o tão aguardado "Terceiro Segredo de Fátima".

Cardeais Bertone e Ratzinger na ocasião da apresentação do terceiro segredo

16 anos depois daquele histórico e emblemático 26 de Junho de 2000, as inquietações e desconfianças em torno do "Segredo"  revelado não se desfizeram, ao contrário, só aumentaram com o tempo, e as respostas  apresentadas aos inevitaveis questionamentos que nasciam não se mostravam muito  satisfatórias.

A grandiosidade do evento que fora Fátima e a expectativa que sua mensagem causava não poderia encerrar-se como algo, que nas palavras do próprio Cardeal Ratzinger, "não revelavam nenhum grande mistério, ou rasgasse o véu do futuro". Era decepcionante demais para os ânimos inquietos da humanidade. A longa expectativa estava reduzida a nada? Se sim, por que tanta resistência em revelar este "Segredo"? Resistência que se estendeu por quase um século. E por que Nossa Senhora, que sempre fora tão clara em suas mensagens, não se faria entender naquela que é talvez a maior revelação mariana da história? 
São perguntas inevitáveis que nasciam constantemente.

O modo como aquele envelope branco chegou a nós, está em volto em mais mistérios do que o próprio mistério nele contido (sic)

Sabe-se que no ano de 1943, enquanto irmã Lúcia estava no convento das irmãs doroteias na Espanha, uma ordem formal do bispo de Leiria, D. José da Silva, lhe foi enviada para que escrevesse a terceira parte do Segredo. 
Na ocasião, Ir. Lúcia estava gravemente enferma, e junto a enfermidade corporal, padecia de terrível angustia, de modo que seu estado lhe impossibilitava escrever. 
Lúcia demorou cerca de três meses para concluir aquelas poucas linhas que atualmente conhecemos como o "Terceiro  Segredo". Encerrando o texto só em janeiro de 1944.

Ao terminar, enviou a D. José da Silva com uma advertência: "...este (o terceiro segredo) será lido ao mundo inteiro após a sua morte ou em 1960,  o que quer que acontecesse primeiro". 
Quando questionada porquê o segredo deveria ser revelado somente em 1960, Ir. Lúcia respondia: "Porque a Santíssima Virgem assim o deseja". 

D. José da Silva, ao receber o envelope com o segredo, temeu a responsabilidade da matéria, e recusou-se a conhecer seu conteúdo, enviando-o imediatamente ao Vaticano, onde fora guardado no arquivo secreto do Santo Ofício.

Primeira folha do manuscrito enviado por Lúcia a D. José da Silva

Em Roma, Pio XII reinava soberano no sólio de Pedro, e demonstrou claros interesses em dar a conhecer ao mundo o conteúdo do Segredo assim que chegasse a data marcada para a sua revelação (1960). 
Porém, um acontecimento "inesperado" muda repentinamente os rumos daquele episódio: a morte de Pio XII no dia 9 de Outubro de 1958. Deixando a seu sucessor a tarefa de revelar ao mundo o tão esperado "Terceiro Segredo de Fátima".

Chegando a data da revelação pública, por algum imprevisto, o sucessor de Pio XII, o papa João XXIII, adia a revelação do "Segredo", causando grandes especulações mundo a fora. 
Conta-se que após a leitura, o Papa João XXIII teria dito aos seus assistentes: "Questo non è per i nostri tempi" (Isso não é para o nosso tempo). Verdade ou não, aquele estranho imprevisto merece boas explicações.

O Vaticano no dia 8 de fevereiro emitiu nota oficial à imprensa declarando que o conteúdo do segredo não seria revelado, e um dos motivos alegados, lançava certa confusão sobre as aparições:
"Apesar de a Igreja reconhecer as aparições de Fátima, não se compromete a garantir a veracidade do que os três pequenos pastores dizem ter ouvido de Nossa Senhora", dizia a nota. Assim o "segredo" permaneceu no silêncio dos arquivos secretos do Santo Ofício até o dia 27 de março de 1965, quando o sucessor de João XXIII, o Papa Paulo VI requereu ao Santo ofício que o enviasse o conteúdo do segredo. Este teve conhecimento do conteúdo, porém, mais uma vez se recusou a revelá-lo, aumentando ainda mais as expectativas e as especulações.

16 anos depois, um acontecimento trágico ocorre em Roma, colocando o "segredo" de Fatima no centro de discussões: O atentado sofrido pelo Papa João Paulo II no dia 13 de Maio de 1981, dia de Nossa Senhora de Fátima e de suas aparições.

Na ocasião, o papa alega ter sido salvo pela "mão materna de Nossa Senhora" que "desviou a trajetória da bala". 
Talvez, motivado pelo acontecimento, o papa deseja conhecer o conteúdo do segredo, porém, ao conhecê-lo, como acontecera anteriormente com seus predecessores, se recusa a revelá-lo. Mas, resolve cumprir solenemente um dos pedidos feitos pela Santíssima Virgem: a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em 1984, conforme dispõe a Segunda Parte do Segredo: 
“..., virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz...”

Mas, o tão aguardado "Terceiro Segredo" iria permanecer no silêncio por mais algum tempo.
Mas, as pressões a partir daquele trágico 13 de Maio de 1981 aumentaram vertiginosamente, e o Vaticano via-se intimado a revelar ao mundo o conteúdo do segredo. 
Passando-se dez anos após os atentados de 1981, em visita a Fátima no ano 2000, o papa João Paulo II decide tornar público o conteúdo do segredo.

Na ocasião em que o conteúdo fora apresentado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, os Cardeais Ratzinger e Sodano se arriscaram a tecer uma interpretação da mensagem. O cardeal Sodano se antecipando, afirmou: "Os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do segredo pertencem ao passado". Afirmação que é reiterada pelo Cardeal Ratzinger: "Os diversos acontecimentos na medida em que são apresentados, pertencem ao passado".

Tentou-se convencer o mundo que o evento Fátima alí se encerrava com a revelação do terceiro segredo. Porém, nove anos depois, o cardeal Ratzinger ia ao local das aparições, agora como Bento XVI, e de forma inequívoca afirma: "Iludir-se-ia quem pensasse que a mensagem de Fátima esteja concluída" (Homília, 11 de maio de 2010, Fátima). Três anos depois daquela visita à Fátima, Bento XVI renuncia.

Pastorinhos de Fátima.
Da esquerda para a direita: Lúcia, Francisco e Jacinta

16 anos após aquela revelação pública, e quase 100 anos das inenarráveis aparições de Fátima, a questão ainda parece pendente para a humanidade, e o mundo volta a se perguntar: Foi de fato revelado o terceiro segredo? E há muitas razões para fazer este questionamento.
A Igreja não parece a mesma. O mundo vive uma grave crise de fé tal qual não se teve noticia na história. O presente parece assumir contornos assustadores; a dessacralização atingiu seu vértice e invade todos os ambientes, inclusive o seio da Igreja, e isso não seria objeto de alerta da Santíssima Virgem? Que segredos estariam por trás de tantos fatos inexplicáveis em torno daquele pequeno envelope?

Em meio a este grande imbroglio que se tornou a mensagem de Fátima e seu trajeto até os nossos dias, muitas lácunas ficaram em branco: A inexplicável relutância de quatro pontifices (excluindo João Paulo I); e tantos eventos misteriosos que envolveram este percurso e ainda inquietam a humanidade exigem sérios esclarecimentos. Mas, como "não há nada que esteja oculto que não venha a ser manifesto" (S. Marcos 4, 22), aguardamos ansiosos o dia em que todas as lacunas sejam preenchidas, quer nesta vida ou na outra... Mas com uma certeza: Enquanto as "contracenas" deste evento não forem esclarecidas, a mensagem profética de Fátima não estará encerrada.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

De onde veio este papo de fundamentalismo


por Pe. José Eduardo de Oliveira e Silva

Quando você expõe um argumento racionalmente, com todo rigor metodológico, apresentando fontes primárias, documentação farta, e o seu interlocutor lhe fixa o rótulo de “fundamentalista”, inicialmente você tolera, mas depois começa a desconfiar que a recorrência da ideia não é casual…
De fato, hoje em dia, quanto mais uma pessoa repete chavões como quem pontifica infalivelmente, respaldado pelo chorum uníssimo da coletividade, mais é necessário averiguarmos qual a origem do bordão, essa sim, quase sempre infalivelmente ignorada pelo acusador.
O termo em questão foi uma invenção de teólogos conservadores presbiterianos e batistas que, por volta de 1910, para se distinguirem de teólogos “liberais”, acabaram por se autodenominarem “fundamentalistas”.
Contudo, a noção de “fundamentalismo” sofreu uma mutação, e esta sua nova acepção foi criada propositalmente para liquidar com a resistência religiosa ao secularismo-laicismo imposto pelos agentes globalistas com sua nova ética relativista.
Numa obra muito conhecida sobre o tema, Karen Armstrong afirma que o “fundamentalismo” é um fenômeno recente, característico do final do século passado.
“Um dos fatos mais alarmantes do século XX foi o surgimento de uma devoção militante, popularmente conhecida como ‘fundamentalismo’, dentro das grandes tradições religiosas. Suas manifestações são às vezes assustadoras. Os fundamentalistas não hesitam em fuzilar devotos no interior de uma mesquita, matar médicos e enfermeiras que trabalham em clínicas de aborto, assassinar seus presidentes e até derrubar um governo forte. Os que cometem tais horrores constituem uma pequena minoria, porém até os fundamentalistas mais pacatos e ordeiros são desconcertantes, pois parecem avessos a muitos dos valores mais positivos da sociedade moderna. Democracia, pluralismo, tolerância religiosa, paz internacional, liberdade de expressão, separação entre Igreja e Estado – nada disso lhe interessa” (Karen Armstrong, Em nome de Deus. O Fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2009, p. 9).
Pouco mais abaixo, a autora explicita ainda mais o motivo pelo qual seria necessário enquadrar os tais “fundamentalistas”: “Em meados do século XX acreditava-se que o secularismo era uma tendência irreversível e que nunca mais a fé desempenharia um papel importante nos acontecimentos mundiais. Acreditava-se que, tornando-se mais racionais, os homens já não teriam necessidade da religião ou a restringiriam ao âmbito pessoal e privado. Contudo, no final da década de 1970, os fundamentalistas começaram a rebelar-se contra essa hegemonia do secularismo e a esforçar-se para tirar a religião de sua posição secundária e recolocá-la no centro do palco” (Ibidem, p. 10).
Karen Armstrong
Em outras palavras, a preocupação fundamental da autora é assegurar aos agentes secularistas que continuem expandindo-se vorazmente, corroendo as raízes religiosas do ocidente, confinando os “religiosos” em sua intimidade até que os mesmos sejam totalmente aniquilados, e o homem pós-moderno possa continuar sendo alvo de um projeto pseudo-civilizatório irreligioso.
“No início de seu monumental Projeto Fundamentalista, em seis volumes, Martin E. Marty e R. Scott Appleby afirmam que todos os ‘fundamentalismos’ obedecem a determinado padrão. São formas de espiritualidade combativas, que surgiram como reação a alguma crise. Enfrentam inimigos cujas políticas e crenças secularistas parecem contrarias à religião. Os fundamentalistas não vêem essa luta como uma batalha política convencional, e sim como uma guerra cósmica entre as forças do bem e do mal. Tentam aniquilá-lo e procuram fortificar sua identidade sitiada através do resgate de certas doutrinas e práticas do passado. Para evitar contaminar-se, geralmente se afastam da sociedade e criam uma contracultura; não são, porém, sonhadores utopistas. Absorveram o Racionalismo pragmático da modernidade e, sob a orientação de seus líderes carismáticos, refinam o ‘fundamental’ a fim de elaborar uma ideologia que fornece aos fiéis um plano de ação. Acabam lutando e tentando ressacralizar um mundo cada vez mais cético” (Ibidem, p. 11).
A obra citada por Karen Armstrong é a maior enciclopédia sobre o  “fundamentalismo”, composta em cinco volumes, escrita ao longo de quatro anos e conduzida sob os auspícios de – nada mais, nada menos que – a Fundação MacArthur, que patrocina centenas de projetos de pesquisa científica.
Trata-se de uma ação coordenada e inteligente para bloquear a resistência religiosa à Nova Ordem Mundial pela via da estigmatização verbal: qualquer tipo de pretensão pública da religião ou das pessoas religiosas deve ser taxada implacavelmente como “fundamentalista”.
Para eles, a religião deve ser aprisionada na vida privada, até desaparecer por completo. Toleram momentaneamente conviver com ela, desde que se restrinja à intimidade de cada indivíduo e não tenha nenhuma incidência na coletividade. E tudo em nome de um secularismo que precisa se impor, a despeito da reação espontânea do povo, que anseia pela transcendência, pela espiritualidade.
O pior é que muitos que se presumem espertos, até mesmo dentro da Igreja, acabam por apregoar justamente este conceito, construído para exterminá-los. Caíram numa armadilha preparada justamente para não ser percebida, e caíram feito patinhos. Sucumbiram à sua própria ausência de fundamentos e, chamando os outros de “fundamentalistas”, não perceberam que foram induzidos a fazê-lo e que o uso indiscriminado do termo “fundamentalismo” favorece unicamente um esquema de poder.

Publicado no site da Agência Zenit.


ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL

  ATO DE DESAGRAVO PARA OS DIAS DE CARNAVAL (Se possível, diante do Ssmo. Sacramento exposto)     C oração dulcíss...