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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

A Apostasia de Roma segundo um Cardeal


Cardeal H. Edward Manning (1888, Inglaterra, 1892)


A apostasia da cidade de Roma através do vigário de Cristo, e sua destruição pelo Anticristo, pode ser um pensamento tão novo para muitos católicos que eu penso que seria bom recordar o texto dos teólogos de maior reputação. Primeiro, Malvenda que escreve expressamente sobre o assunto, e declara, assim como a opinião de Ribera, Gaspar Melus, Viegas, Suarez, Belarmino e Bosius que Roma deve apostatar da fé, afugentar o vigário de Cristo e retornar ao seu antigo paganismo. As palavras de Malvenda são: “Mas a própria Roma nos últimos tempos do fim do mundo retornará a sua antiga idolatria, grandeza e poder imperial. Ela expulsará seu pontífice, completamente apostata da fé cristã, perseguirá terrivelmente a Igreja, derramará o sangue dos mártires com mais crueldade do que nunca, e recuperará seu estado anterior de abundante riqueza, ou até maior do que tinha sob seus primeiros governantes”. 

Lessius diz: “nos tempos do Anticristo, Roma deverá ser destruída, como vemos abertamente no décimo terceiro capítulo do livro do Apocalipse;” e outra vez: “A mulher a quem vistes é a grande cidade, que tem o reino acima dos reis da terra, na qual é significada Roma em sua impiedade, tal como foi no tempo de São João, e deverá ser outra vez no fim do mundo.”  E Belarmino: “No tempo do Anticristo, Roma deverá ser desolada e queimada, como aprendemos do décimo sexto verso do décimo sétimo capítulo do Apocalipse.” Palavras nas quais o jesuíta Erbermann comenta como se segue: “Todos nós confessamos com Belarmino que o povo romano, um pouco antes do fim do mundo, retornará ao paganismo e expulsará o romano pontífice”. 

Viegas, sobre o capítulo XVIII do Apocalipse diz: “Roma, na última era do mundo, após ter apostatado da fé, alcançará grande poder e esplendor de riqueza, e sua influência será amplamente difundida por todo o mundo, e florescerá grandemente. Vivendo na luxúria e abundância de todas as coisas, ela cultuará ídolos e mergulhará em todo tipo de superstição, e prestará honra a falsos deuses. E por causa da vasta efusão do sangue dos mártires que foi derramado sob os imperadores, Deus irá vinga-los com mais severidade e justiça, e ela será totalmente destruída, e queimada por um terrível e tormentoso incêndio”.   

Finalmente, Cornélio, a lápide, resume o que pode ser dito como a interpretação comum dos apóstolos. Comentando sobre o mesmo capítulo XVIII do Apocalipse, ele diz: “Estas coisas são para ser entendidas da cidade de Roma, não aquela que é, nem aquela que foi, mas aquela que deverá ser no fim do mundo. Pois, a então cidade de Roma retornara à sua antiga glória, e da mesma forma a sua idolatria e outros pecados, e deverá ser tal qual ela foi no tempo de São João, sob Nero, Domitiano, Décio etc. Pois, de cristã ela deve se tornar outra vez pagã. Deve lançar fora o pontífice cristão e o fiel que adere a ele. Deverá perseguir e arrasá-los. Deverá rivalizar com a perseguições dos imperadores pagãos contra os cristãos... Pois, assim como vemos, Jerusalém foi primeiro pagã sob os cananeus; segundo, fiel sob os judeus; terceiro, cristã sob os apóstolos; quarto, pagã sob os romanos; e quinto, sarracena sob os turcos”.

Tal, eles acreditam, será a história de Roma: Pagã sob os imperadores; cristã sob os apóstolos; fiel sob os pontífices; apostata sob a Revolução e pagã sob o Anticristo. Somente Jerusalém poderia pecar tão formalmente e cair tão baixo; pois só Jerusalém foi tão escolhida, iluminada e consagrada. E como nenhum povo já foi tão intenso em suas perseguições a Jesus como os judeus, então eu temo que nenhum será mais implacável contra a fé do que os romanos.     


- Cardinal Henry Edward Manning, The Present Crisis of The Holy See tested by prophecies, London: Burns&Lambert, 1861. Tradução minha

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Novidade: Revista Legião Eucarística a caminho!

 






 

Com a graça de Deus, em dezembro, lançaremos a primeira edição eletrônica de nossa revista Legião Eucarística. As primeiras edições estarão disponíveis gratuitamente em versão digital a quem possa interessar. Pedimos a sua ajuda para que possamos difundi-la a mais pessoas através da versão física, qualquer valor será bem vindo:

Ajude-nos:

Bradesco S.A

Conta 5728

Agência 7343-1 


Ajude-nos nessa missão! 

Aos contribuintes, reservaremos um espaço de honra em nossa revista, e ainda colocaremos seus nomes e o de suas famílias em nossas orações diárias. Deus o abençoe

domingo, 5 de abril de 2020

Jejum Dominical? Qual a orientação da Igreja?






       Um grande reboliço se formou sobre a licitude do jejum e da penitência no Domingo, após a convocação nacional para esta pratica num Domingo de Ramos. O jejum conforme observa Sto Tomás é ordenado por dois motivos: “Delir a culpa e elevar a mente às coisas espirituais” (Suma Teológica, II-II, Q. 147, Art. 5) E neste sentido, podemos dizer que o chamado à pratica por parte de nossas autoridades é extremamente louvável, especialmente em tempos tão tormentosos como estes que ora atravessamos, no entanto, a data escolhida não foi a mais adequada (Domingo de Ramos). Cabe, no entanto, ressaltar que o presidente, a quem é imputado a origem da convocação, não indicara o domingo como o dia para o ato, sua intenção fora a de propor um dia de abstinência para “gente ficar livre desse mal o mais rápido possível” (referindo-se ao coronavírus), conforme suas palavras. A indicação do domingo partiu de parlamentares e líderes pentecostais e rapidamente ganharam repercussão.

No entanto, sabemos que faz parte da Disciplina da Igreja abster-se de jejum e penitência em dias de solenidade e aos Domingos, onde o maior jubilo da cristandade é celebrado. E essa percepção remonta aos primeiros séculos do cristianismo. 

O Sínodo de Gangra, ocorrido em 340, terceiro século da era cristã, condenava de forma enfática a prática do jejum e da penitência no domingo: “Se alguém sob pretensão de ascetismo, jejuar no domingo, seja anátema” (Canon XVIII). Evidentemente, a condenação não ficara desprovida de grandes controvérsias, que inclusive saltaram daquele tempo para nossas redes sociais em defesa da convocação. Santo Agostinho, que inclusive é citado em defesa do Jejum no Domingo, afirmou um século depois do supracitado concílio: “Omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia”. (Epistula 55, 28). E o mesmo santo, nos deixara ainda esta frase mais enfática sobre o assunto: “Jejuar em dia de domingo é grande escânda-lo” (Carta a Casulano, 36, 27. 396)
E tais controversias tiveram lugar em uma época em que a Igreja combatia diversas heresias, entre as quais, o marcionismo, cerdonismo, priscilianismo e o maniqueismo que tinha por hábito jejuar aos domingos, exigindo leis enérgicas, como a que fora promulgada em um cânon do Concílio de Braga (561-563) onde se dizia: “Se alguém não venera de verdade o dia do nascimento de Cristo segundo a carne, mas finge venerá-lo, jejuando nesse dia e no domingo, porque não crê que Cristo tenha nascido da verdadeira natureza do homem, como o disseram Cerdon, Marcião, Maniqueu e Prisciliano, seja anátema” (Papa Julio III, I Sínodo de Braga, 1 de maio de 561)
Houve algumas mitigações com o tempo, mas a compreensão da matéria sempre foi a mesma, sendo posteriormente consagrada no velho Código de Direito Canônico (1917) –– substituído em 1983 com a promulgação do novo código por João Paulo II ––, no seguinte Cânon: “Aos Domingos e dias de preceito (exceto dias de preceito durante a Quaresma), as leis do jejum e da abstinência não se vinculam” (Can. 1252, § 4) O que todavia, o novo Código, embora, tenha suprimido, nos deixou indícios de que esta compreensão permanece, conforme nos indica João Paulo II em sua encíclica Dies Domini: "Historicamente, ainda antes de ser vivido como dia de repouso aliás não previsto então no calendário civil — os cristãos viveram o dia semanal do Senhor ressuscitado sobretudo como dia de alegria. “Que todos estejam alegres, no primeiro dia da semana”: lê-se na Didascália dos Apóstolos (100). A manifestação da alegria era visível também no uso litúrgico, mediante a escolha de gestos apropriados (101). S. Agostinho, fazendo-se intérprete da consciência geral da Igreja, põe evidência tal caráter da Páscoa semanal: “Omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia.” (nº 55)

E por que não se deve jejuar no domingo? Conforme fora dito na referida citação, o domingo é o dia da alegria da ressurreição e da vida, o dia em que os dissabores de uma vida de penitência costumam ser mitigados, com espaço para raras excessões, como as impostas pela própria graça sobrenatural aos santos penitentes que viveram uma vida ininterrupta de penitência.
Por outro lado, os defensores do suposto chamado presidencial, servindo-se de Sto Tomás, e até de Sto Agostinho, costumam mencionar um trecho dos comentários do santo doutor aos Dez Mandamentos, onde se lê: “[no Domingo também] devemos afligir nosso corpo com com jejuns (...) e isto duas vezes mais do que nos outros dias".
Todavia, neste trecho, Sto Tomás refere-se ao que ele chama de “jejum por alegria”, que ele distingue do “jejum por penitência” –– “impróprio dos dias de alegria” (cf. idem) –– conforme está exposto na Suma Teológica (II-II, Q. 14, art. 5), onde o santo doutor afirma: “A Igreja não obriga a nenhum jejum em todo o tempo Pascal, nem nos dias de domingo. E não estaria isento de pecado quem jejuasse em tais dias, contra o costume do povo cristão, que como diz Agostinho, deve ser tido como lei; ou o fizesse por algum erro como o praticam os Maniqueus, que julgam necessário tal jejum. Contudo, o jejum em si mesmo é louvável em todo tempo, conforme o diz Jerônimo: Oxalá pudéssemos jejuar sempre!” (ibidem)

Leve-se em conta também o fato de que, somos obrigados, há algumas horas antes da comunhão eucarística, em conservar uma abstinência temporária de alimentos, que não deve ser interpretada como jejum ou penitência. Mas isso não vem ao caso. O fato é que o Domingo não é dia para jejum e penitência, embora, a Igreja não julga que peca aquele que assim proceda.  


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*A doutrina oficial da Igreja determina como obrigatória o jejum e a abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira santa, a todo indivíduo maior de 18 anos, (sendo facultado a partir dos 14 anos completo) e em plena posse de suas faculdades mentais, derivando daí, a necessidade de se fazer o mesmo nas sextas e quartas do ano, salvo os dias em que solenidades sejam celebradas nestes dias.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A Devoção Tupiniquim






            Gilberto Freyre, em seu clássico "obrigatório" para o academicismo brasileiro[i], observa que no prelúdio de nosso desenvolvimento social se verificou "uma profunda confraternização de valores e sentimentos" que jamais teria ocorrido se "outro tipo de cristianismo tivesse dominado a formação social do Brasil; um tipo mais clerical, mais ascético, mais ortodoxo; calvinista ou rigidamente católico; diverso da religião doce, doméstica, de relação quase de família entre os santos e os homens, que das capelas patriarcais das casas-grandes, das igrejas sempre em festas -- batizados, casamentos, "festas de bandeiras" de santos, de crismas, novenas -- presidiu o desenvolvimento social brasileiro"[ii]. O colonizador português que ancorou em terras brasileiras não era o mais fervoroso e consciente dos católicos europeus, o que não o faria imune, como diz Freyre, "ao contágio de um misticismo quente, voluptuoso, de que se tem enriquecido a sensibilidade, a imaginação, a religiosidade dos brasileiros". Deste "tipo de cristianismo", híbrido e disforme, que une nas festas populares o sagrado e o profano de forma tão íntima que é difícil, até ao observador mais atento, distinguir onde começa um termina o outro, se perpetuou no padrão de religiosidade que se encontra no Brasil. Um catolicismo que estabelece uma estranha relação com os santos que está muito longe de merecer o honroso título de devoção.

Para esta espécie de "fiel", cada santo tem uma função utilitarista em sua vida, geralmente sem muito vínculo com sua missão real. Sta Luzia, por exemplo, para o católico popular brasileiro, é "a santa que cura os olhos"; S. Brás, "o santo que cura a garganta"; Sta Rita de Cássia, "a santa dos casos impossíveis". Assim o povo vê e se relaciona com os santos e, a este modo de relacionamento, ele chama de "devoção". Uma "devoção" fundada no interesse material (sic) e despida de qualquer interesse no aspecto místico da figura sagrada.
Conversei outra vez com uma dessas senhoras "devotas" que costuma ser presença marcante nas festividades. Ela, de modo muito natural, me falava dos santos de sua devoção (ou devolução?)
Cada santo, a que ela tinha alguma "devoção", lhe tinha prestado algum favor. Sobre Sta Rita de Cássia, ela me dizia que lhe era devota porque lhe havia solucionado alguns problemas conjugais. Disse também que era devota de Sta Luzia porque esta lhe havia "curado uma doença nos olhos", e também era devota de S. Pedro porque lhe havia livrado de um naufrágio.
E esta senhora, voltando-se para mim, me perguntou:
– E tu, meu jovem, não tens nenhum santo de devoção?
Respondi-lhe que sim:
– S. Francisco de Assis!
Ela demonstrando interesse, acrescentou:
– Ah, ele cura a lepra, né?
– Não sei! Mas sei que ele cuidou de muitos leprosos
E continuei: “Também sou devoto de S. Bernardo”.
Ela meio que desapontada, me diz:
– Esse eu não conheço, ele cura o quê?
– Não sei o que ele cura, mas sei que ele amou muito a Deus e lutou muito em defesa da fé.
"Ah...," ela exclamou decepcionada.
Por fim, lhe disse que também era devoto de S. Bento, e ela sem titubear, acrescentou:
– Esse eu conheço, é contra picada de cobra e animais peçonhentos!
***
Um catolicismo postiço e sincrético como o brasileiro constitui-se algum obstáculo ao avanço revolucionário? 
Muito se ouve dizer, a respeito de nosso país que "nosso povo é cristão e certas ideologias não hão de prosperar em seu meio". Mas, os fatos depõe contra isso. As grandes revoluções sempre despontaram em países muito religiosos. Isso porque, a religiosidade de um povo não somente pode ser vencida pelos demagogos revolucionários como pode ser um dos elementos mais explorados por eles. As duas nações, à época, mais religiosas do mundo, a França da era jacobina e a santa Rússia dos Czares, viviam momentos de grande efervescência religiosa quando as duas famosas revoluções estouraram em seus meios. E o que se dizer da Cuba, eivada de catolicismo fruto do ardor missionário de Sto Antônio Maria Claret? Até a época de Fidel, a Cuba era um país de vasta maioria católica. Da mesma forma que o comunismo prosperou em regiões altamente religiosas, nota-se que países com pouca religiosidade sempre foram muito inférteis para revoluções.

Parece-me que a ignorância de um povo mostra-se o verdadeiro fator de crescimento revolucionário em seu meio. O Brasil, apresenta-se como país católico, mas é lamentável o gênero de católico que habita estas terras. Totalmente ignorantes de sua fé e escravos das grandes mídias. E tal ignorância não se restringe aos leigos, atinge também boa parte do clero. 
O que se dizer de tudo isso? Primeiro, que a ação revolucionaria não vai buscar os religiosos conscientes, formados e saturados de apologética... Vai buscar os mais vulneráveis: os humildes, semi-letrados, alvos fáceis para um demagogo com boas promessas. E de fato, são estes que tem sucumbido a ideologia nefasta do comunismo. Não são as regiões mais desenvolvidas do país que tem abraçado as doutrinas vermelhas. 






[i] Casa-Grande&Senzaa
[ii] Gilberto Freyre, Casa-Grande&Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal.51º Ed. São Paulo: Global, 2006, p. 438


domingo, 1 de dezembro de 2019

O Pedido de Ano Novo de São Pedro Julião Eymard




por S. Pedro Julião Eymard

Que venha o teu reino! Que ele se espalhe por toda parte: que ganhe prestígio; que progrida em todos os sentidos! É isso que devemos pedir a Nosso Senhor neste dia de Ano Novo. Que Ele seja conhecido e amado por aqueles que não O conhecem nem o amam! Que todos completem em si a obra da Encarnação e da Redenção! E onde Nosso Senhor é conhecido e amado? Ah! Quão pequeno é o reino de Jesus Cristo! Muitos de Seus direitos e os de Sua Igreja foram retirados ou restringidos nos últimos três séculos! Eles expulsam nosso Senhor e O privam de Seu povo e Suas igrejas. Quão numerosas são essas ruínas eucarísticas!
Tantas nações nunca tiveram a fé! Como nosso Senhor estabelecerá Seu reino entre eles? Um santo poderia fazer isso. Deseje ao nosso Senhor bons sacerdotes, apóstolos reais. Esse deve ser o objeto constante de nossa oração. Esses pobres infiéis não conhecem nem o Pai Celestial, nem a terna Mãe, nem o Salvador Jesus; e nós os deixamos nessa triste situação! Oh! Que desumano da nossa parte! Com nossas orações, ajudemos a espalhar o reino de nosso Senhor por toda parte. Oremos para que os pagãos recebam fé e conheçam seu Salvador; que os hereges e os cismáticos possam voltar ao redil e ouvir mais uma vez a voz do Bom Pastor.
Qual é o estado do reino de Jesus Cristo entre os católicos? Ore incessantemente pela conversão de maus católicos, que quase não têm mais fé. Ore para que aqueles que têm fé possam mantê-la. E você que tem sua própria família, ore para que todos os seus membros permaneçam firmes em sua fé; enquanto eles mantem esse remanescente de união com nosso Senhor, há esperança. Enquanto Judas permaneceu com o Salvador, ele tinha em mãos a oportunidade e os meios de salvação; uma palavra dele seria suficiente. Mas quando ele deixou Nosso Senhor, ele capitulou e se precipitou até o fundo do abismo. Ore, portanto, sinceramente pela preservação de sua fé em pelo menos um dos mistérios de Jesus Cristo. Sei que as pessoas costumam dizer: "É melhor ser um bom protestante do que um mau católico". Isso não é verdade. Isso significaria, no fundo, que alguém poderia ser salvo sem a verdadeira fé. Não! Um mal católico continua sendo um filho da família, embora seja pródigo e, por mais pecador que seja, ele ainda tem direito à misericórdia. Por sua fé, um mal católico está mais próximo de Deus do que um protestante; pois ele é um membro da família, enquanto o herege não é; e quão difícil é fazê-lo se tornar um!
Para trabalhar pela preservação da fé, fale a língua de um cristão, a língua da fé. Transforme o discurso do mundo. Por meio de uma tolerância pecaminosa, permitimos que nosso Senhor fosse banido dos costumes, leis e boas maneiras; em uma reunião social mista, aquele não se atreve a falar de Jesus Cristo. Mesmo entre os cristãos práticantes, deveríamos parecer peculiar se falássemos de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Existem tantos, assim diz a desculpa, que não cumprem seu dever de Páscoa ou não vão à missa pois tem medo de ferir os sentimentos de algum hóspede, ou mesmo do anfitrião, que pode ser um deles. Pode-se falar de arte religiosa, verdades morais, belezas da religião, mas sobre Jesus Cristo, sobre a Eucaristia, nunca. Bem, mude tudo isso. Professe sua fé abertamente. Seja corajoso o suficiente para dizer: "Nosso Senhor Jesus Cristo", nunca apenas "Cristo"! Devemos provar o direito de nosso Senhor de viver e governar na linguagem da sociedade. É uma desgraça para os católicos manter nosso Senhor debaixo do alqueire da maneira que eles fazem. Nós devemos manifestá-lo em toda parte. Quem professa sua fé com ousadia e ousa falar o nome de Jesus Cristo, coloca-se no poder de sua graça. Em público, todos devem saber no que acreditamos.
Os ateus transmitem seus princípios ímpios; eles se gabam de não acreditar em nada; e teremos medo de declarar nossa fé e pronunciar o nome de nosso Divino Mestre? Você deve falar dele em público; pois esses pobres homens ímpios são possuídos pelo diabo, ou, pelo menos, obcecados. Bem, contra esses demônios, use o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se todos os fiéis adotassem a resolução de falar sem medo de nosso Senhor, eles logo transformariam o mundo; eles levariam as pessoas a pensar n’Ele naturalmente.
Está chegando o grande dia em que os dois exércitos se enfrentarão. O ecletismo se foi, graças a Deus! Nós devemos ser bons ou maus; devemos ser por Jesus Cristo ou por Satanás. Bem, proclame Jesus Cristo e fale Seu nome. O nome dele é o teu estandarte; leve-o com nobreza. Que o Senhor esteja dentro de vós, em sua alma. Nosso Senhor está em vós, mas Ele tem muito o que fazer antes que possa reinar completamente em ti. Tu mal venceu a si mesmo; o reino de paz e amor de nosso Senhor ainda não está estabelecido em você; as linhas de fronteira ainda não são todas Dele; e que soberano pode governar com supremacia se ele não controla todas as fronteiras de seu estado?
Conheça melhor nosso Senhor. Estude Sua vida; seus sacrifícios e suas virtudes no Santíssimo Sacramento. Estude seu amor. Em vez de sempre permanecermos dentro de nós mesmos, vamos até Ele; é muito bom nos ver Nele, mas vê-lo em nós é melhor. Em vez de cuidar de si mesmo, cuide de nosso Senhor e faça-o crescer em você. Pense nele; estudá-o em si mesmo; penetra nele. Você encontrará o alimento da sua vida Nele; pois Ele é grande e infinito. Esse é o caminho amplo e real da santidade e o caminho para o enobrecimento de nossas vidas.
II
Além disso, vós deveis consolar nosso Senhor. Ele espera consolo de você e o receberá com prazer. Peça a Ele que prepare bons sacerdotes para si; sacerdotes apostólicos e zelosos para a salvação das almas: sacerdotes que são a glória de sua época e que apresentam Deus a reinos. Implore a Ele para se apropriar de tudo, e para não ser apenas um Salvador, que não supõe nada além de sacrifício, mas um rei e um rei da paz com poder absoluto. Consolá-lo por ser tão pouco tratado como rei em seu próprio reino. Infelizmente Nosso Senhor está derrotado! No céu, ele é um governante todo-poderoso que comanda santos e anjos e é fielmente obedecido. Não é assim aqui abaixo. Os homens --- os filhos que Ele resgatou --- têm o melhor dele. Ele não governa mais os povos católicos. Vamos estabelecer Seu reino em nós, pelo menos, e trabalhar para restaurá-lo em todos os lugares.
Monumentos finos significam muito menos para Nosso Senhor do que nossos corações; Ele quer nossos corações. E como as nações o expulsaram, vamos elevar-lhe um trono no altar de nossos corações. Certos bárbaros conferiram realeza a um homem, erguendo-o sobre seus escudos; proclamamos Jesus eucarístico nosso rei, erguendo-o em nossos corações e servindo-o com fidelidade e devoção.
Ah! Quão afeiçoado é Nosso Senhor! Como ele anseia por eles! Ele implora por eles como um mendigo! Ele implora, ele implora, ele insiste. Ele já foi recusado cem vezes; isso não importa; Ele continua estendendo a mão. Mas, na verdade, persistir em implorar por tantas rejeições é desonrar a si mesmo! Devemos morrer de vergonha com o pensamento de que Nosso Senhor é reduzido a implorar, sem receber de ninguém, a esmola que Ele pede. A que ultraje Ele se submete em Sua busca de nossos corações! Ele procura de maneira especial os católicos, as almas devotas, os religiosos que não querem dar-Lhe todo o coração. Nosso Senhor quer tudo isso. Seu amor por nós é a única razão para essa busca ardente e o único interesse que Ele tem nela. De duzentos milhões de católicos, quantos O amam com o carinho de um amigo? Quantos vivem do Seu amor, de um amor que brota do coração? Se pelo menos aqueles que se dedicam a uma vida de piedade, seus filhos, seus religiosos, suas virgens lhe pertencem sem reservas!... Mas depois de deixá-Lo dar um passo em seus corações, eles colocaram um obstáculo em Seu caminho; eles Lhe dão isso e O recusam aquilo. Nosso Senhor quer tudo e exige tudo. Ele continua esperando sem nunca dar lugar ao desânimo.
Vamos então amá-lo por nós mesmos. Vamos amá-lo por aqueles que não o amam, por nossos parentes e amigos. Vamos pagar a dívida de nossa família e nossos países. É isso que todos os santos fazem; assim imitam nosso Senhor, que ama a seu Pai por todos os homens e se torna garantia para o mundo inteiro.
Que nosso Senhor, o gentil Salvador que nos ama tanto, se torne finalmente o Rei, o Mestre e o esposo de nossa alma! É realmente possível que não amemos nosso Senhor tanto quanto amamos nossos parentes, amigos e nós mesmos? Mas devemos estar enfeitiçados!
Sem dúvida, se pudéssemos fazer tudo de uma só vez, se pudéssemos pagar toda a dívida do amor por um único ato, estaríamos dispostos a fazê-lo; mas devemos estar constantemente nos dando e não temos a coragem necessária para isso. Isso prova com certeza e além da dúvida que nós realmente não O amamos. Como lamentamos Nosso Senhor por meio disso! Sabe-se que as mães morrem pela dor causada por filhos indignos. Não fosse o fato de que nosso Senhor agora é imortal por natureza, Ele teria morrido de tristeza mil vezes desde que foi confinado no Santíssimo Sacramento. Se não tivesse sido sustentado por um milagre no Jardim das Oliveiras, teria morrido ao ver os pecados que tinha que expiar. Aqui Ele está em um estado glorificado; mas em Suas obras e em Seu amor, Ele é muito humilhado. Dolore cordis intrinsecus! "Tocado interiormente com tristeza de coração."
Console então o amor de nosso Senhor. O homem sempre encontra alguém que responde ao seu amor; mas e Nosso Senhor?
Console-O pela ingratidão de todos os pecadores e, acima de tudo, por tua própria ingratidão. Simpatize com Ele pelas deserções de seus ministros infiéis e de seus cônjuges corruptos. Isso é algo tão hediondo que deve ser mantido oculto.
Pense nisso aos Seus pés e consola-O por isso. Somente a traição de Judas deve ter feito nosso Senhor derramar lágrimas de sangue. Nós nunca poderíamos ser felizes se soubéssemos tudo o que entristece nosso Senhor, e nenhum sacerdote jamais iria querer consagrá-Lo se Ele ainda estivesse em Seu estado humano e acessível à tristeza. Felizmente, somente Seu amor suporta o peso de todos esses ultrajes, e Ele não pode mais morrer agora!
O que me aflige é o fato de que as almas devotas, os cônjuges que Jesus Cristo reserva para Si no mundo, sempre deixam a perfeição para os religiosos; "Eu não estou vinculado a isso. Eu não fiz os votos de perfeição." A verdade é que eles não têm coragem de amar. O amor é o mesmo em todo lugar, e você pode amar mais em seu estado de vida do que um religioso no dele. O estado dele é mais perfeito em si mesmo, mas o seu amor pode superar o dele.
Venha, deixe o reino de Jesus Cristo ser estabelecido em vós! A Exposição Pública do Santíssimo Sacramento é a última graça de Deus para o homem. Após a exposição, existe apenas o céu ou o inferno. O homem é atraído pelo que reluz. Nosso Senhor subiu ao trono; Ele pode ser visto e é radiante. Não temos mais nenhuma desculpa. Se abandonarmos nosso Senhor, se passarmos por Ele sem alterar nossas vidas, nosso Senhor irá embora, e seremos o mesmo para sempre.
Sirva a Nosso Senhor, portanto, e console-O; acenda o fogo do Seu amor onde quer que ele ainda não esteja ardendo; trabalhe no estabelecimento de Seu reino de amor. Adveniat regnum tuum, regnum amoris. "Que venha o teu reino, o teu reino de amor!"

domingo, 3 de novembro de 2019

Sermão sobre o fim do mundo. 1 Parte: A destruição da vida espiritual






Por São Vicente Ferrer

Estas palavras são escritas no segundo capítulo de S. Lucas, para falar do fim do mundo e diz duas coisas. A primeira é, que não quero louvar nem repreender os que pregam o fim do mundo, e dizem que será daqui a pouco tempo. A segunda é sobre os que pregam, ou dizem que, o fim do mundo não está tão perto como alguns dizem. A estes não os quero louvar, nem refutar; no entanto, agora, para demonstrar a qual deles quero dar credito, declaro três profecias que estão escritas nos capítulos segundo, terceiro e quarto do Livro de Daniel, dos quais, a primeira fala da queda da vida espiritual, a segunda fala da queda da dignidade eclesiástica e a terceira, da queda da fé católica. E isto, digo, porque o tempo que vires cumprir todas estas três coisas, uma após a outra, podeis conhecer qual dos pregadores é mais verídico.
E como todas as coisas do Antigo Testamento eram ditas através de figuras, alego aqui autoridade a respeito do fim do mundo, falando moralmente. Pois quando vires cumprida a sentença, o entendimento da primeira profecia, então podereis dizer: Vede o estado da vida espiritual posta em ruína, e em destruição”. Isso mesmo se poderá dizer das outras duas. E naquele tempo estará muito perto o fim do mundo.
Digo então, primeiro, que Daniel nos demonstra na primeira profecia a queda da vida espiritual, ao contar no segundo capítulo, que o Rei Nabucodonosor viu em sonhos uma estátua muito grande, a qual tinha a cabeça de ouro puro, os peitos e braços de prata, o ventre e a coxa de bronze, as pernas de ferro, e os pés eram, uma parte de barro, e outra de ferro. Depois viu chegar uma pedra do monte, cortada por mãos não humanas, a qual vindo aos pés da estátua, a reduziu toda a pó.
E o sentido alegórico de tal estaria, nos demonstra o começo do fim da Igreja.

1. A cabeça de ouro: A Igreja no tempo dos apóstolos e mártires

Sua cabeça de ouro puro, é entendida pelo tempo dos apóstolos e dos mártires, que foi o princípio da Igreja: ela era então de ouro puro; quero dizer que a cristandade gozava de perfeita vida espiritual, e estava no ardor da devoção, da caridade soberana; porque assim como o ouro é mais excelente, e excede a todos os outros metais, assim também é a vida espiritual em comparação a todas as outras vidas. Naquele tempo dos apóstolos e mártires, antes de ensinar a falar ao cristão, se ensinava a fazer o sinal da cruz. Benziam-se todos a mesa antes das refeições e todos sabiam o Pater Noster, a Ave Maria e o Credo. Todos os dias oravam de manhã e de tarde, ouvindo Missa antes que fizessem algo de temporal ou de seus negócios. Cada dia, eram constantes, perseverando na fração do pão: quer dizer que tratavam do Sacramento do Altar. Todos os dias queriam ouvir sermões, e nunca se enfadavam, nem cansavam por muito que ouvissem. Sabiam todos, a maneira de confessar seus pecados. Davam aos templos suas oferendas e de cada coisa, davam a décima parte aos sacerdotes; e o que era melhor de seus bens, davam socorro às igrejas.
            Todos se tinham grande amor e caridade; não eram ambiciosos, nem falsos mercadores, nem mentirosos compradores ou vendedores. Uns com os outros eram pacíficos, sem contendas, nem invejas, nem discórdias. Guardavam o matrimônio com grande honestidade. Eram desapegados, fiéis e sinceros. Conheciam as coisas elevadas, crendo nelas com simplicidade e firmeza. Todos os senhores temporais eram muito retos na justiça e cheios de misericórdia.
Os senhores eclesiásticos e bispos eram piedosos. De todas as suas rendas faziam três partes, das quais davam duas às igrejas, hospitais, viúvas, órfãos e pobres. A terceira parte, e menor de todas, retinham para manter suas vidas; e o que dela, ao fim do ano, houvesse sobrado, repartiam entre os pobres. Celebravam cada dia (os divinos mistérios). Casta e santamente viviam, pregando sempre a palavra divina, dando ao povo bons exemplos. Os sacerdotes eram santos, castos, devotos e discretos de conversa honesta; sem avareza, muito dispostos ao bem, com mansidão e humanidade. Os religiosos eram honestos, pobres, obedientes, e de vida santa, tanto que, de mil, apenas de um se falava que quebrasse sua regra.
As Igrejas eram honradas pelo povo, tanto na edificação como em seu cuidado e na devoção. Os oficiais e trabalhadores acreditavam nos artigos de fé, guardavam os mandamentos, assim como os religiosos guardavam suas regras. Tinham o nome de Deus em grande reverência e temor. E assim como era verdadeira a fé, também a vida o era, como ela, com caridade e amor espiritual, e com grande devoção. De tal maneira se mantinha todo o dito, que a cabeça da Igreja era então de ouro puro. E este tempo durou mais de quatrocentos anos.

2. O tronco de prata: o arianismo e as primeiras heresias

Depois, a cristandade desceu de ouro para prata, que vale menos. Os arianos se levantaram então contra a Igreja, dizendo, como hereges, grandes erros e falsas opiniões contra a fé. E de tal maneira foram incitados na heresia que, quase todo o mundo foi corrompido por suas falsidades e seus erros, as quais, não se pode aqui explicar, ou dizer do todo, no entanto, bem aparece às claras nas Escrituras. Por estes hereges, perderam os cristãos a forma de santificar-se e fazer oração; deixaram assim mesmo de ouvir Missa e de comungar. Deixaram de fazer todos os bens; pouco faltou para que não perecesse todo o estado da fé verdadeira, e da vida. Quis Deus, então, enviar os doutores da Igreja, como foram, Santo Agostinho, São Jerônimo, Sto Ambrósio e S. Gregório, e outros muitos homens de ciência e vida: e muitos nobres varões, os quais, mantiveram a fé católica e os mandamentos da lei, das virtudes, dos sacramentos, da vida boa e santa. Estes declaravam e expunham a Sagrada Escritura, disputando contra os hereges; mas a Igreja não pode voltar ao estado primeiro de ouro, de onde era abençoada, mas sob o de prata porque se perdeu o gosto pela devoção. Este prateado, ou idade de prata durou mais de quatrocentos anos.

3. O ventre de bronze: a idade obscura da Igreja e a heresia muçulmana

Até dito tempo, a grande estátua é, a saber, a Igreja e a Cristandade, descia da prata,  para o ventre e pernas de bronze (que vale menos) porque este metal é muito luminoso e fácil de mudar e de som ruim. Assim estava a cristandade, a direita e esquerda entre falsos erros e maus costumes, porque não se pregava a palavra divina.
Foi naquele tempo em que Maomé se levantou e corrompeu toda a Berbéria: já não se queria ouvir Missa se não pela força e ninguém procurava fazer oração: Deus era negado, e o mundo posta em grande maldade. Todos consentiam em cometer delitos e casos muito torpes: a humildade, justiça e misericórdia, já não existiam; não havia fé entre os homens. A piedade, a obediência dos mandamentos, não se conhecia já no mundo como tampouco a vida virtuosa.
Nosso redentor Jesus Cristo quis então destruir o mundo, como se acha na vida dos bem-aventurados São Domingos e São Francisco, onde se escreve que o Onipotente Deus tinha três lanças contra o mundo com grande ira por seus pecados e maldades, as quais demonstravam três coisas:
A primeira é a perseguição do Anticristo.
A segunda o fim do mundo.
A terceira, o dia do juízo.
Nesta grande angústia, alcançou a Virgem Maria, Nossa Senhora, um tempo de proclastinação para que o mundo não se perdesse, e ganhou de seu Filho precioso que esperava as pregações de ditos santos bem-aventurados, para que pregassem por todo o mundo e convertessem os homens a Deus. Este tempo durou tanto quanto seus frades  fizeram  estas duas regras, quer dizer, uns cento e cinquenta anos. As quais, regras morrem agora quanto a sua observância e já tem passado cinquenta anos que os frades não caminham direito; o voto e as cerimônias não são guardadas, porque são piores estes frades que os outros cristãos, vivendo intrinsecamente em meio a soberba, da ira, da preguiça, da simônia; tão cheios de vícios que são exemplos de toda má vida e feitos de todo o caminho para a perdição, pelo que a Igreja tem baixado do ventre de bronze para as pantorrilhas de ferro.

4. As pantorrilhas de ferro: a época de São Vicente Ferrer (1400)

E é o tempo em que estamos agora, porque o ferro é duro, e não se pode dobrar, é tão frio que não se pode jamais modificar, nem corrigir, senão com fogo, e dando-se golpes com o martelo.
No presente é que tem sucedido com a cristandade, quer dizer, que não há ninguém que se emende de seus delitos. Nem os bispos, nem os senhores temporais, nem os religiosos, nem os sacerdotes, nem os que estão em estado conjugal. Não há emenda no ermitão, nem no mercador, nem nas virgens, nem nas viúvas. Tão pouco se acha no lavrador, ou no oficial, ou no escudeiro; pois não se acha a correção dos costumes em nenhum servo, escolar, mestre, discípulo, doutor, legista, banqueiro ou artista.
Não se convertem por pregações, nem por exemplos, nem por milagres. Não tem medo, nem se espantam dos tormentos, nem enfermidades, guerras, fomes, nem mortandade. Não se emendam por inundações ou dilúvios, nem por eclipses, ou obscuridades do sol e da lua ou dos outros planetas; tudo nos parece como escarnio e burla. Estão já tão aborrecidos os cristãos que já nem parecem ser homens, mas demônios.
Todos são muito ásperos uns com os outros; sem piedade; sem bondade, cruéis, trapaceiros, raivosos sem lugar a bem algum. Muito endurecidos, sem devoção, e amantes do mundo, sem temor a Deus; são depreciadores do Rei do Céu, sem amor algum, pelo qual são mais duros e ásperos os cristãos do que o próprio ferro.
Oh, como desceu a estatua e a cristandade em grande perdição ao ferro, do qual David profetizou no Salmo 104 “humiliaverunt in conpedibus pedes eius’, que quer dizer: “Humiliarão os pés nas prisões, os grilhões e o ferro passou a sua alma”, porque, assim como os grilhões impedem o caminhar dos pés corporais, assim os pecados impedem o caminhar da alma (espiritual) direto para Deus, como diz David: “ibunt de virtute in virtutem videbitur Deus deorum in Sion”, que quer dizer: “Irão de virtude em virtude, e será visto o Deus dos deus em Sião”. Porque a alma de qualquer discreto cristão deve andar com dois pés aquejada de virtude em virtude. O pé direito é o amor celestial; e o esquerdo é o temor infernal. E quando o diabo tenta de algum pecado, deve pensar o homem como as penas do inferno são destinadas para o triste que consente na má tentação, e põe por obra o delito. E assim pensando, resistirá e lhe defenderá das tentações.
E pelos dois pés, de amor e de temor, poderá sempre andar de virtude em virtude neste mundo, e depois, no outro, chegar ao Deus dos deuses em Sião, onde estão os anjos naquela glória da visão bem-aventurada.
Entretanto, está o que diz David falando acima do tempo moderno, ou presente: “Humilharão seus pés nos ferros e grilhões”, quer dizer: na ociosidade, ou preguiça, porque comumente os grilhões tem dois olhos onde os pés geralmente prendem-se de tal modo que não pode o homem andar livre por aquele embaraço ou impedimento. Assim estes dois pés, amor de Deus e temor do inferno estão já cativos na preguiça e ociosidade, que, por seu impedimento, a alma não pode ir de virtude em virtude. E tão apartados vão dela os homens que apenas se falará já de mil, um que ame a Deus, ou tema o inferno, como se nunca houvesse de morrer. Por isto diz David: “O ferro passa a sua alma”, que quer dizer, a obstinação, por qual nenhum cristão se corrige.
Oh, quanta dureza! Oh, quanta dureza há agora na Igreja de Deus, e na cristandade! Porque agora mal se sabe santificar, e se o fazem, não como devem, e mal. E menos sabem fazer oração, e confessar muito pouco, e tarde, e mal. Muitos poucos ouvem Missa e pregação. Comungar? Nem há lembrança. Os artigos da fé, muitos poucos sabem, e, os que sabem, sabem mal; e muito pior ainda os mandamentos da lei. Muito mal dão suas oblações e sacrifícios ao templo; pior os dízimos. E muito pior se inclinam a perdoar suas injurias, nem a restituir o mal ganho. Estão todos cheios de muita pompa, mentirosos, ladrões, sediciosos, viciosos, avarentos, enganadores e ambiciosos. Os mandamentos da lei não o guardam. São blasfemadores; servem a Deus sem acatamento, com menosprezo, e sem firmeza. Trazem mais escândalos que bom fruto.
Os bispos são vãos, pomposos, simoníacos, avarentos e luxuriosos, os quais tem colocado toda sua fé na medida, e nas coisas terrenas, a qual contrapesam com o que recebem; onde não há rendas, da fé se esquecem, e quando as tem menos se acordam. Não se preocupam com a Igreja; daqueles que mais lhes dão, e daqueles que mais lhes prometem, bem se acordam e tem cuidado. Assim estão todos corrompidos. Estão estes mesmos sem caridade, cheios de gula e muito preguiçosos, que nem celebram, nem ainda pregam, se não que escandalizam. Os senhores temporais estão desnudos de caridade, sem misericórdia, nem piedosos, nem mantem a paz.
Brevemente aqui falando dos religiosos, há poucos neste mundo que guardem suas regras, nem a conservam como deveriam; são muito corruptos e escandalosos; demonstram a via e o caminho da perdição a nossas almas.
Os sacerdotes, o que fazem agora? Mas, valem as honras e dignidade, que os bons costumes; porque são feitos muito ignorantes, presuntuosos, insultadores, idiotas, falsos, hipócritas, depreciadores dos que sabem. Estão cheios de simônia, muito avarentos, cheios de inveja, luxuriosos e muito dissolutos. Estão muito endurecidos e são muito tardios na oração, entretanto, velozes e muito ligeiros para a luxúria. Correm e vão ligeiros para o dinheiro; são cruéis e sem misericórdia. Continuamente vão carregados de armas, mas não levam o breviário.
 

domingo, 27 de outubro de 2019

Um Sínodo para celebrar o paganismo



     

        O Sínodo da Amazônia encerrou-se neste domingo (27) com a consolidação de uma nova doutrina, totalmente estranha ao catolicismo: "A ecologia integral". No penultimo dia do Sínodo, o Papa Francisco realizou um simbólico pedido de desculpas pelo roubo e lançamento no rio Tibre de três imagens de um ídolo pagão que estavam em uma importante Igreja de Roma. Este gesto cheio de simbolismo, só ratificou a percepção clara que ficou deste Sínodo como uma grande celebração do paganismo e o despontar de uma nova Igreja, totalmente estranha à Igreja Católica e alheia a sua doutrina tradicional. 
No documento final do Sínodo, essa percepção ficou ainda mais clara com o grande alarido ecológico em torno da suposta ameaça global  à Amazônia (tão dramática, aos olhos do pontífice, quanto a situação da Igreja na China, Oriente Médio e partes da África, onde a Igreja, há séculos é massacrada) tendo como centro um suposto “desaparecimento do território e seus habitantes” e o chamado a “abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da ‘casa comum’ e a defesa da Amazônia”, e, em seguida, como era esperado, a proposta de “mudanças radicais” para salvá-la. As notas de pseudo-ciência se proliferam pelo documento para corroborar a tese central. Uma delas, no número 2, se apresenta nos seguintes termos: “Está comprovado cientificamente que a desaparição do Bioma Amazônico terá um impacto catastrófico para o conjunto do planeta”. Em partes, terá seus impactos inegáveis, no entanto, não tão catastróficos como se alardeia, como observa o climatologista Ricardo Felício (https://www.youtube.com/watch?v=w-76mhHuRoo)
Houve também uma reafirmação na ideologia do aquecimento global antropogênico, que também, já está amplamente desacreditada. Todavia, a Igreja, ressoa as velhas  propostas de movimentos de esquerda, pela “diminuição de emissão de dióxido de carbono na atmosfera e outros gases relacionados ao efeito estufa” (n. 77).
Sente-se nas entrelinhas uma profissão de fé no credo do “bom sauvage”, além de um claríssimo apelo pagão. Segundo o documento, os povos nativos – incluindo-se, é claro, os povos indígenas mais selvagens – “vivem em harmonia consigo mesmos, com a natureza, com os seres humanos e com o ser supremo, já que há uma intercomunicação entre todo o cosmos, onde não há excludentes, nem excluídos, e onde podemos forjar um projeto de vida plena para todos. Tal compreensão de vida se caracteriza pela conectividade e harmonia de relações entre a água, o território e a natureza, a vida comunitária e a cultura, Deus e as diversas forças espirituais.” O que eles queriam dizer com “diversas forças espirituais?”. Outro trecho que explicita essa perspectiva pagã que orienta o texto se lê no número 14: “A vida das comunidades amazônicas ainda não afetadas pelo influxo da civilização ocidental se reflete na crença e nos ritos sobre o atuar dos espíritos da divindade, chamados de inumeráveis maneiras, com e no território, com e em relação com a natureza”. Em suma, em vez de difundir entre os povos a cultura cristã, há um convite a uma “conversão cultural”. Uma cultura superior deve curvar-se a uma cultura inferior. O Evangelho de Cristo deve cessar sua ação sobre a humanidade para ouvir o paganismo. “O colonialismo é a imposição de determinados modos de viver de uns povos sobre outros, tanto econômica, cultural ou religiosamente. Recusamos uma evangelização de estilo colonialista” (n. 55). A beleza, a arte, a alta-cultura, devem ser colocadas de lado, e em seu lugar, as pobres expressões e criações da cultura indígena, cuja pobreza se deve antes por não haver alcançado um desenvolvimento mais profundo. O índio também deve ter acesso as grandes criações culturas, a elevada erudição que o Ocidente nos legou. Todavia, a esse demonizado colonialismo, que inclui também a evangelização e conversão de povos nativos e a destruição de suas culturas, se deve o poder que hoje Francisco dispõe para falar ao mundo e ser ouvido como inquestionável autoridade religiosa. Sem ele, hoje, a Igreja não teria saído do Cenáculo de Jerusalém. Há um trato sem precedentes ao paganismo em todo documento. Em vez do chamado evangélico a conversão, a Igreja Ecológica de Francisco propõe dialogo e um conhecimento mais profundo dessas tradições. “Estas tradições merecem ser conhecidas, entendidas em suas próprias expressões e em sua relação com o bosque e a mãe terra (...) Para isso, é necessário que as Igrejas da Amazônia desenvolvam iniciativas de encontro, estudo e diálogo com os seguidores destas religiões”. Note-se que o convite a convertê-los está totalmente fora de cogitação nesta proposta. E lembremos que o maior dever do cristão para com os pagãos é anunciar a eles o Evangelho de Nosso Senhor, e leva-los à obediência da fé (cf. Rom 1, 5). Os pentecostais, a seu modo estão fazendo isso, e sendo muito mais bem-sucedidos do que os católicos. O que diria Nosso Senhor que nos apresentou o desejo divino para a humanidade em uma frase tão sucinta como esta “que todos conheçam o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo seu enviado” (cf. Jo 17, 3) Para Francisco e os bispos sinodais, os pagãos já não merecem conhecer o Deus verdadeiro e a Jesus Cristo. O Documento pós sinodal deixou claro que não. E o que diriam os santos em face de tais absurdos? Eles que sempre conservaram grande horror à heresia e ao paganismo. O patrono da Europa, S. Bento, conforme escreve seu santo biografo, o papa S. Gregório Magno, ao chegar ao monte Cassino, que outrora fora consagrado pelos costumes e ignorância ao oráculo de Apólo, o santo encontrou um bosque dedicado a um ídolo pagão, onde, conforme as palavras do santo biografo, “acorria a dementada multidão dos infiéis com sacrílegos sacrifícios. Chegando aí o homem de Deus, derrubou o ídolo, demoliu o altar, pôs fogo ao bosque, e consagrou o templo à honra de S. Martinho e no altar de Apolo estabeleceu o culto a S. João Batista. Depois voltou-se à pregação, levando à verdadeira fé as populações que viviam ao redor". (S. Gregório Magno. Dial. III. 3). Atitude semelhante tivera S. Bonifácio diante de uma sacrílega árvore dedicada ao culto pagão. E quantos homens e mulheres foram martirizados por recusarem-se a prestar reverência a deuses pagãos. Quão distante estão estes santos da Igreja ecológica de Francisco. Uma Igreja que combateu com denodo o avanço de tantas heresias e do paganismo, simplesmente, deu lugar a uma Igreja que passou a tolerá-los e até a abraçá-los. como se seus erros não custassem a salvação de muitos. Papas convocaram cruzadas contra hereges e pagãos, foram implacáveis em seus escritos contra qualquer erro que se apresentasse ao horizonte dos fiéis; percorreram os mais tenebrosos mares para converter a verdadeira fé os homens de regiões mais longínquas, para em pleno século XXI todo o seu sacrifício ser lançado no lixo em nome do mero diálogo. 

S. Bonifácio levando ao chão árvore dedicada ao culto pagão


O que diria toda a tradição que há dois milênios ecoa em uníssono o mesmo brado, que fora tão enfaticamente condensado por Pio XI nestas palavras: “Não é lícito promover a unidade dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente eles se separaram" (Mortalium Animos, n. 16), e que fora belamente sacralizado em um dos dogmas mais desagradáveis para a turba ecumenista, conforme a famosa formula de S. Cipriano: Extra Ecclesiam nulla salus (Fora da Igreja não há salvação) (cf. De Unit. Eccl. Cath. 6, 3) Não há muito o que se dizer sobre este Sínodo, tudo o que ele prega já está condenado de antemão por miríades de santos, pelas páginas das Sagradas Escrituras e de um magistério vastíssimo. Diante de toda a dessacralização que se verificou durante esses dias, com o olhar complacente do Papa, onde ficaria o maior de todos os mandamentos, que nos ordena junto com a obrigação de amar a Deus acima de todas as coisas, o intimato: "não terás outros deuses diante de mim"? 

A Apostasia de Roma segundo um Cardeal

Cardeal H. Edward Manning (1888, Inglaterra, 1892) A apostasia da cidade de Roma através do vigário de Cristo, e sua destruição pelo Anticri...