"Sabe-se que as escolas dos mosteiros acolhiam tanto os nobres rebentos da
aristocracia, quanto os pobres filhos dos servos". [6]
São Cesário de Arles (470-542) assim escreveu sobre o mosteiro que o
educara:
"Esta ilha santa acolheu minha pequenez nos braços de seu afeto,
como uma mãe ilustre e sem igual. E como uma ama-de-leite que dispensa a todos
os bens, ela se esforçou a me educar e me alimentar". (7)
O grande exegeta e poeta Walafried Strabo (806-849) também teceu seus
louvores à escola que o educara:
"Eu era totalmente ignorante e, fiquei muito maravilhado quando vi os
grandes edifícios do convento (...) muito contente pelo grande número de
companheiros de vida e de jogos que me acolheram amigavelmente. Depois de
alguns dias, sentia-me mais à vontade (...) quando o escolástico Grimaldo me
confiou a um mestre, com o qual deveria aprender a ler; eu descobri que não
estava sozinho, havia muitos outros meninos de minha idade, de origem ilustre
ou modesta, que porém estavam mais adiantadas que eu. A bondosa ajuda do mestre
e o orgulho, juntos me levaram a enfrentar com zelo minhas tarefas, tanto que
após algumas semanas conseguia ler bastante e corretamente (...) Depois recebi
um livrinho em alemão que me custou muito sacrifício para ler, mas em troca,
deu-me uma grande alegria". [8]
As escolas medievais eram para todos, inclusive para as meninas.
Na escola de Argenteuil, por exemplo, as meninas aprendiam história
sagrada, letras, medicina e até cirurgia. [9] Tudo isso guiado pela piedosa e reluzente pedagogia de Hugo de São Vitor --- dignamente chamada "lumen et dulcedo" (luz e doçura) -- e pela escolástica, que além de
alfabetizar as crianças e os jovens, ainda os formava para a virtude.
Em sua obra monumental Didascalikon, Hugo instigava os
estudantes a nunca limitar o desejo de aprender:
"Aprende de bom grado de todos o que não sabe. Será mais sábio do que
todos, aquele que terá desejado aprender algo de todos. Quem recebe algo de
todos, acaba por se tornar mais rico do que todos". (10)
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| Universidade de Oxford |
Estas magnificas Didaskaleias que foram as escolas, precederam outra magnífica instituição medieval: a universidade, que sob o báculo da Igreja atingiu
alturas radiantes de glória.
Assim, bela primavera de saber despontava naqueles terrenos bravios do século XII
e XIII, onde nos séculos anteriores predominava a barbárie e a ignorância, e agora, tornava-se o grande centro do conhecimento e o berço da ciência moderna.
O Papa Gregório IX (1227-1241) através da bula Universitas Parens
Scientiarum (13 de abril de 1231) lançava solenemente a ata de fundação
das universidades, fazendo, em pleno século XIII, as universidades presentes
em quase todas as grandes capitais europeias.
Jóias da cristandade, as universidades medievais ainda brilham como fachos
luminosos de conhecimento em pleno século XXI.
Na Bélgica, a universidade de Louvain, fundada em 1425, ainda é uma
respeitada instituição cientifica.
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| Universidade de Cambridge |
Na Inglaterra, Cambridge (1209) e Oxford (1164), se impõe soberanamente como as
mais premiadas da Europa. Na Itália, a "La
Sapienza" de Roma (1303) erigida por Bonifácio VIII, se sobressai entre
outras pérolas itálicas nascidas no Medievo, assim como as universidades de Florença (1321) e Bologna
(1088).
Entre os povos Germânicos, as exuberantes universidades de Colônia
(1388), que é considerada a principal da Alemanha, e a renomada universidade de
Freiburg (1457), com seu lema Evangélico: "Die Wahrheit wird euch
frei machen" (A verdade vos libertará), seguem imponentes no mundo
moderno.
Na Áustria, a universidade de Viena, a aclamada "Alma Mater
Rudolphina" (1365), continua como a mais importante do país.
Na França a figura
predominante do saber continua a ser a célebre Sorbonne de Paris (1150); mas a
Idade Média ainda legou àquele país as renomadas universidades de Montepellier (1125) Orleans (1200) Toulouse (1217) Anger (1220) entre outras.
Em Portugal, há a afamada Coimbra (1290), na Escócia,
St. Andrew (1410), na Polônia, Crácovia (1362), na Rep. Tcheca: Praga
(1348), e na Espanha a formidável universidade de Salamanca (1218) que ainda
desponta magnífica entre as didaskaleias medievais que iluminam o velho e o novo mundo.
Todas estas grandiosas instituições ainda admiradas pelo mundo, nasceram sob a
égide da Igreja em pleno Medievo.
Na Idade Média, resplandeceu uma verdadeira epifânia de beleza nas artes. O
ardor artístico que se assistiu neste período foi exuberante. A música adquiria
sua estrutura orgânica com as imprescindíveis contribuíções do Papa Gregório
Magno e do monge Guido D'Arezzo (992-1050), o afamado pai da notação musical.
Estas benéficas intervenções da Igreja possibilitaram algum tempo depois ao gênio de Palestrina,
Orlando de Lasso, Tomás Luís de Vitória, Guillaume de Mashaut, elevar aos píncaros sublimes o canto Gregoriano, que Mozart tanto admirava, a ponto de confessar
que daria toda a sua obra para compor apenas o prefácio da Missa
gregoriana.
Nas belas artes, os avanços foram magníficos.
Os artístas medievais, como
expressa Marc Chagall, "banharam seus pinceis no alfabeto colorido que era
a Bíblia" e deram cores e vida às cenas sagradas.
Neste impulso
criativo, muitos nomes se notabilizaram como: Giotto di Bondone, Van Dick,
Squarcione, Uccello, Masolino, Masaccio, etc...
Foi a Idade Média que viu surgir um dos maiores escultores da história:
Donatello. A auto-intitulada "poesia sagrada" (A Divina Comédia) de Dante e outros
gênios da literatura mundial como: Petrarca, Chaucer, Gil Vicente, Villon
etc... E a mais exuberante de todas as expressões artísticas medievais: a arte gótica, que fêz da catedral uma verdadeira "poesia de pedra".
Nascida
das mãos e da alma de Suger (séc. XII), o célebre abade de Saint-Denis
(França), que transformou sua abadia num espetáculo de verticalidade; aplicando
os princípios da teologia à arquitetura e separando radicalmente a arquitetura das
igrejas da arquitetura comum.
A catedral gótica tornou-se assim a materialização artística da filosofia do
Evangelho.
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Vista noturna
Catedral de Colônia |
O complexo cruzamento de ogivas encrustradas, que se unem harmonicamente
em abobadas exuberantes; revelam em sua perspectiva final uma verdadeira
jóia arquitetonica.
"Dentro destas formas, escreveu João Paulo II, não
havia só o gênio de um artista, mas a alma de um povo". (11)
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| Catedral de Colônia |
A catedral gótica era como a alma da Idade Média: Por fora, ela aponta a
grandeza do céu, e por dentro, a grandeza da alma.
A complexa geometria da
arquitetura gótica nos remete quase que imediatamente aos mistérios da fé que a
motivou.
"A catedral gótica, completa Bento XVI, tencionava traduzir
assim, a aspiração das almas por Deus". (12)
E que altíssima aspiração!
Nas suas linhas arquitetonicas tudo nos remete a interioridade.
Estonteante em sua grandeza; esplendorosa em sua filosofia inspiradora.
Um verdadeiro espetáculo de verticalidade metafísica.
Assim que estas magníficas poesias de pedra começaram a pontilhar o céu da
Europa, um sacerdote que acabava de entrar em contato com este estilo; tentou
exprimir a admiração que o envolveu:
"A vista humana não sabe, a
princípio, onde fixar-se: se olha os tetos floridos como tecidos brilhantes; se
se vira para as paredes, que são uma especie de delicioso jardim; se é ofuscada pelos jorros de luz que entram pela parede; se admira a
inestimavel beleza do vidro e a variedade do mais precioso trabalho". (13)
A catedral gótica é de de fato, o mais belo dos estilos arquitetônicos. O
impulso vertical e a luminosidade, deram outros ares à arquitetura religiosa e
outro sentido a arquitetura comum.
As soluções góticas foram tão extraordinárias, que só foram substituídas no
século XIX, com o uso do aço e outros materiais.
Mas por pelo menos 600 anos as
soluções góticas guiaram a arquitetura.
Diante da grandeza vertiginosa e da beleza estonteante de uma catedral gótica,
só o preconceito e a ignorância poderiam chamar de atrasada uma civilização que
ergueu tais monumentos.
Conclusão
A Idade Média é tão cheia de luz e encanto, que a velha imagem da época
assombrosa criada pelos renascentistas parece tão absurda quanto seu ódio
ateu.
A Idade Média era profundamente alegre. Os trajes medievais expressavam este
profundo horror pela melancolia.
As festas medievais eram alegres. O
carnaval, o bom é claro, é criação medieval. Quando pintam-nos uma imagem
sombria da Idade Média, ignoram estes e tantos outros fatos que nenhum autor
poderia narrar sem exceder o limite do cansaço. A alegria era uma virtude tão
amada pelo homem medieval, que fez da tristeza o oitavo vício capital.
A Idade Média, atrai em pleno século XXI tantos admiradores e continua a
ser o cenário preferido das tramas literarias modernas.
Eco, Victor Hugo,
Novalis, Herculano, Goethe, Follet, Calvino, e tantos outros, quase infindaveis
autores modernos, continuam a ambientar seus romances no medievo, -- seja para
denegrí-lo ou louvá-lo --, não escondem o fascínio que esta época exerce sobre
eles.
A Idade Média sobrevive ao tempo com a memória exuberante de suas
imponentes catedrais, de seus castelos épicos, de seus cantos e poesia, de seu
povo piedoso e destemido, mas principalmente através de seu maior tesouro: a
fé.
A Idade Média ainda vive no homem moderno, ou como referiu-se um autor
francês: "Os homens medievais somos nós".
Notas:
1. Immortale Dei, n. 28.
2. Ibidem.
3. La Science Antique et Médievale sous la Direction de René Taton. Presses
Universitaires de France, 1857. 585 s.
4. PERNOUD, Régine. Lumière du Moyen Âge, cap. VIII, p. 62-63.
5. II Concílio de Latrão. Can. 18, Mansi XXII, 227 s.
6. NUNES, Rui Afonso da Costa. História da Educação na Idade Média. São Paulo,
1979, p. 113.
7. Sermo ad Monacho, CCXXXVI, 1-2, Morin, t. II p. 894
8. MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação da antiguidade aos nossos
dias, op. cit., p. 135).
9. PERNOUD, Régine, op. cit. cap VIII, p. 62.
10. Eruditiones Didascalicæ, 3, 14:PL176,774
11. Carta aos artistas, 8
12. Audiência 18-XI-09